Joan Martínez-Alier, um economista ecológico vencedor do Prêmio Holberg 2023
Professor emérito da Universidade Autônoma de Barcelona, pesquisador da economia ecológica e da ecologia política sempre teve um olhar crítico à ciência econômica tradicional
Um dos mais importantes prêmios em humanidades e ciências sociais laureou, em 14 de março, o economista ecológico Joan Martínez-Alier. O Prêmio Holberg já laureou pesquisadores como Jürgen Habermas, Manuel Castells, Bruno Latour, Onora O’Neill, Paul Gilroy, Griselda Pollock e Sheila Jasanoff. A premiação de aproximadamente 500 mil euros será entregue durante uma cerimônia em 8 de junho na Universidade de Bergen, na Noruega.
Joan Martínez-Alier, professor emérito da Universidade Autônoma de Barcelona, é um dos mais prestigiados pesquisadores da economia ecológica e da ecologia política, áreas que ajudou a fundar e construir ao longo das últimas décadas. Economista de formação, Martínez-Alier sempre teve um olhar crítico à ciência econômica tradicional, chamando a si mesmo com frequência (e com o seu humor habitual) de “economista arrependido”. No entanto, a verdade é que o seu olhar atento à problemática socioambiental tem se tornado cada vez mais importante para compreender a economia e os desafios econômicos do nosso tempo.

Junto com outros economistas dissidentes (como Herman Daly) e ecologistas (como Bob Costanza), Martínez-Alier atuou na fundação da Sociedade Internacional de Economia Ecológica em meados dos anos 1980. Neste contexto, contribuiu para aprofundar a visão biofísica da economia, em contraposição à visão tradicional focada no crescimento do PIB. Olhar a economia fisicamente, em termos de fluxos de matéria e energia, permitia investigar a sustentabilidade social e física da economia, mais importante para falar do uso de recursos não renováveis, de emissão de gases de efeito estufa, da destruição de ecossistemas e dos impactos sociais destes danos.
Na perspectiva de Martínez-Alier e da economia ecológica, os danos ambientais provocados pelo crescimento econômico tampouco podem ser medidos unicamente em termos monetários. Valores relacionados à sobrevivência de diferentes modos de vida, ao que é sagrado para cada população ou mesmo a valores puramente ecológicos não são simplesmente traduzíveis em dinheiro. Há necessidade de se empregar diferentes linguagens de valoração para medir danos ambientais.
Dando um passo além, Martínez-Alier foi também fundamental para enfatizar a relação indissociável entre o crescimento econômico, visto a partir de transformações de recursos materiais e energéticos, e as injustiças ambientais. Ajudou a moldar essa sua compreensão da economia o seu contato próximo com pesquisadores do Sul Global, notadamente da América Latina e da Índia, e com ativistas em todo o mundo. Nas chamadas fronteiras de extração dessas regiões, sobretudo onde estão localizadas as populações vulneráveis e indígenas, emergem inúmeros conflitos ambientais, muitos deles registrados no Atlas de Justiça Ambiental (ejatlas.org), criado e codirigido por Martínez-Alier desde 2012.
Entre algumas das obras de destaque de Joan Martínez-Alier, estão Economia ecológica: energia, ambiente e sociedade (com Klaus Schlüpmann, 1987), que resgata os pioneiros do pensamento econômico-ecológico a partir do século XIX, e O ecologismo dos pobres (traduzido ao português pela Contexto em 2007), que é um dos marcos no diálogo entre economia ecológica e ecologia política. O mais recente livro, Amanhã vai ser outro dia: uma vida fazendo economia ecológica e ecologia política (2019), é uma autobiografia em catalão cujo título foi inspirado na música “Apesar de você”, de Chico Buarque. Em 2023, ainda publicará mais uma grande obra intitulada Terra, água, ar e liberdade: a formação de movimentos mundiais pela justiça ambiental.
Com esse reconhecimento à sua impressionante trajetória, a economia ecológica, área de pesquisa nova e de relativamente pouca dimensão em países como o Brasil, entra definitivamente em novo patamar, tornando-se uma área de destaque na economia e nas ciências sociais. Ainda mais porque não é o primeiro prêmio que dá a Joan Martínez-Alier e à economia ecológica esse reconhecimento. Em 2017 e em 2020, o autor já havia recebido outros dois importantes prêmios – respectivamente, o Prêmio Leontief e o Prêmio Balzan.
Esperamos que este merecido reconhecimento contribua também para arejar o pensamento econômico no Brasil. Em um contexto de crise ambiental e de necessidade de repensar o desenvolvimento brasileiro, as contribuições de Joan Martínez-Alier são fundamentais para inspirar transições socioecológicas que sejam ao mesmo tempo sustentáveis e justas.
Beatriz Saes, professora de economia da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (2022-24), doutora e mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e economista formada pela USP, é uma economista ecológica preocupada com o desenvolvimento latino-americano e com conflitos ambientais relacionados à mineração. Seu livro Comércio ecologicamente desigual no século XXI: evidências a partir da inserção brasileira no mercado internacional de minério de ferro foi vencedor do XXV Prêmio Brasil de Economia.
Andrei Cechin, economista e mestre em Ciência Ambiental pela USP, doutor em Administração pela Wageningen University, Holanda, e professor do Departamento de Economia e do curso de Ciências Ambientais da UnB, é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (2022-2024) e autor do livro A natureza como limite da economia: a contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen, finalista do 53º. Prêmio Jabuti.

