Lorena Portela fala de amadurecimento e abandono em ‘O amor e sua fome’
Obra explora a relação entre o amor e o abandono a partir das vivências de Dora, narradora e protagonista do romance
Três anos após estrear no mundo literário, com o livro Primeiro eu tive que morrer, Lorena Portela publica pela editora Todavia O amor e sua fome. A nova obra parte de uma perspectiva diferente da primeira publicação: a história é contada pela personagem principal, Dora, que apresenta a formação da sua própria identidade ao decorrer dos anos.

Créditos: arquivo pessoal da autora
A narrativa ilustra como o abandono pode causar feridas profundas e gerar consequências com a chegada da maturidade: “os psicanalistas acreditam que somos grande parte do que fomos na infância. Muita coisa se explica a partir do que vivemos nos nossos primeiros anos de vida nas relações que construímos, nas ausências e nas presenças. Com a minha personagem, não foi diferente”, comentou Lorena.
Logo no começo, a cidade de Miradouro é descrita pela própria protagonista e, ao descrever cada espaço, surgem também novos personagens. Ao comparar o início e o fim do livro, Lorena observa que, mesmo com o passar do tempo, Dora ainda é muito parecida com a criança que narra o início da história: “a gente vê uma mudança de linguagem, um amadurecimento, mas existe uma parte grande dessa criança que a acompanha até a vida adulta”.
Além disso, ao explicar o seu processo de escrita, a autora não deixa de fazer um paralelo com a própria vida: “acredito que, se formos observar um pouco, somos assim também. Ao ver mais de perto, temos parte das nossas crianças, que nos acompanham até a vida adulta.”
Com o decorrer da história, é possível perceber que o tema principal também gira em torno do abandono da mãe de Dora e da relação fria com o pai, o que dá o destaque à personagem de Esmê, prima e melhor amiga da protagonista, que traz o “amor” para a vida da menina, demonstrando a necessidade dos cuidados que ela não teve durante a infância. Em alguns trechos do livro, que se constroem como conversas entre as garotas, Dora tenta saber sobre a mãe através da prima, que afirma nunca ter ouvido nada sobre sua família: “mas não precisa se preocupar com isso, Dorinha! Porque eu já dei minha mãe para ser sua mãe. A Inês também pode ser sua mãe, eu também posso ser porque sou mais velha.”
Lorena explica que, para ela, o amor é uma busca incessante: “desde que a gente se vê no mundo, a gente tem essa necessidade. É algo que se apresenta muito rapidamente, o desejo de amar e de ser amado. Essas relações são construídas com base na aceitação, no acolhimento, no crescimento, junto.” A partir de conversas entre as amigas, acompanhamos a construção da figura de Esmê como espécie de mãe para Dora. Mas a relação vai além: a melhor amiga personifica o amor e supre os desejos da protagonista.
Ainda pequena, Dora criou relações que foram definitivas para o que ela seria no futuro, e a ausência dos pais também é um desses marcadores. A figura da mãe é definida pela sua fuga assim que a filha completou dois anos, sem nenhuma explicação ou comentário do ocorrido. Similarmente, a relação com o pai é distante e desprezível, o que reflete no comportamento frio da protagonista em relação à sua morte – “Eu entrava e saía de casa achando graça daquele homem grande se entortando, virando um S.E, me divertia vendo-o gemer e eu querendo saber onde estava doendo para rezar uma novena pedindo que doesse mais, que doesse até o fim.”
Porém, o amor da narrativa aparece de forma diferente do que pode ser considerado tradicional, não vindo da família de sangue. Esse sentimento nasce de uma amizade pura, que aos poucos se mistura com paixão e amor romântico, com a chegada de outro personagem, Jaime, que, assim como Dora e Esmê, cresceu em Miradouro, e, de certa forma, sempre esteve presente na vida das meninas.
Após a morte do pai de Dora, ela passa a viver com os dois, e fica evidente a necessidade que a protagonista carrega de ser cuidada, como nunca foi na vida – “Um dia pedi ao Jaime pra comprar uma bacia grande de lavar roupa, a maior que ele encontrasse. Pedi que enchesse de água morna e o banho seria assim daquela vez, com o meu corpo pequeno acocorado dentro da bacia. A Esmê e o Jaime sentaram no banquinho do lado e ligaram o chuveiro enquanto eu jogava a água pro alto, dando risadinhas, eu via minhas mãozinhas.” Em muitas cenas, Lorena traz o desejo obscuro de sentir-se como filha, para além da vontade da maternidade.
Ao falar sobre o desejo de ser filha, a escritora contou que colocou um pouco da sua própria história na narrativa: quando Lorena tinha 19 anos, sua mãe sofreu um acidente e foi ela quem tomou a frente dos cuidados. “A minha mãe, que tinha acabado de perder os pais, consequentemente queria muito ser filha de alguém. Então, ficou muito confortável nesse lugar de ser filha enquanto eu era ‘mãe’. Agora, no decorrer dos anos, eu fico relembrando a minha mãe que aquilo foi um período específico da vida e que eu sou filha dela. Eu gosto de ser filha da minha mãe. A gente inverteu os papéis, mas penso que eu posso reivindicar esse lugar porque tem muita gente que não pode. Reivindicar o lugar de filha é muito doloroso. Pensei nessa jornada da Dora também porque ela não pode reivindicar esse lugar de forma natural. Ela não tem a mãe nem o pai presentes, mas ela acaba por reivindicar esse cuidado de outras formas”, disse a autora.

Crédito: arquivo pessoal da autora
Outro tópico explorado é o tratamento amável que a personagem Joana, uma mulher trans, recebe dos pais. A autora traz temas que ainda são tabus, mas de forma leve e sincera, como realmente deveria ser: “eu trago uma ou outra problemática, um ou outro preconceito ali no livro, mas eles não viram uma batalha. Uma ferida que vai ser desculpa ou que vai ser muito aprofundada. Tanto que a Joana é uma personagem muito amada no livro. Para mim, era importante que fosse assim, porque eu preciso que essas pessoas contem histórias diferentes. É preciso que eu conte uma história de uma mulher trans que é amada. Então era muito claro para mim que eu não ia trazer essa dor para Joana carregar”, comentou Lorena.
Para a escritora, o mercado editorial começou a crescer entre as mulheres, que atualmente estão tendo mais reconhecimento do público leitor no país. Além disso, Lorena afirmou que suas maiores inspirações são escritoras brasileiras contemporâneas: “Natércia Pontes não é minha referência de estilo, porque a gente tem estilos completamente diferentes, mas ela é uma autora que eu gosto muito e que me dá muita coragem para escrever. Sempre que eu a leio, fico pensando sobre como eu queria que mais gente lesse ela. Eu queria que os livros dela fossem best-seller em todas as listas, que outros países a lessem”.
Socorro Acioli, escritora brasileira da atualidade, também foi um nome muito comentado pela autora de O Amor e sua fome. “Ela é uma mulher e escritora que eu admiro muito. Os primeiros capítulos desse meu novo livro nasceram na oficina da Socorro. Ela é uma mulher que me traz muita coisa para além da literatura. Sua escrita já é clássica. Daqui a 50 anos estaremos lendo Socorro Acioli, pois novos leitores estarão lendo Socorro Acioli”, disse Lorena.
Marcela Dantés e Nara Vidal também foram elogiadas e não deixou de destacar: “tem infinitas outras escritoras brasileiras e latino-americanas que têm alavancado muito esse momento da literatura.”
Mesmo já tendo escrito dois livros que foram muito bem recebidos pelos leitores, Lorena Portela destaca que não considera que sabe tudo sobre a literatura, mas sim que é uma boa ouvinte. A autora comentou que, durante uma conversa com Socorro Acioli, ela mencionou que “admirava a forma com que eu expresso a minha humildade. Quando Socorro me disse isso, eu pensei que, realmente, essa é uma característica que eu quero manter ao longo dos anos e para sempre. Quero continuar contando boas histórias por estar atenta, por olhar para as pessoas, por me manter ouvinte e por me manter aprendendo.”
Maíra Oliveira Graça é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

