Se cobrir, vira circo
Superficialidade gerada pelo consumo rápido de informações limita a capacidade do eleitor de se engajar em debates significativos. Ao contrário, alimenta o ódio, constrói ídolos, forma mitos
Disputas políticas têm se tornado um fenômeno de espetacularização. As táticas agressivas de marketing político, muitas vezes centradas na polarização e em críticas infundadas, refletem uma dinâmica perigosa que corrói os limites éticos e a própria definição de democracia. A informação, que é viral nas redes sociais, é capaz de afrouxar os freios éticos e morais e contaminar milhões de pessoas, simultânea e instantaneamente, apelando para medos primitivos e reações emocionais que moldam o comportamento do eleitorado.
O medo de perder, a defesa contra o inimigo, rotinas mais básicas do nosso cérebro, disparam em eleitores conectados mecanismos de sobrevivência. Para sobreviver, é preciso aniquilar o outro, e o combustível para isso é o ódio. Os algoritmos, baseados em dados, são incapazes de capturar a complexidade da experiência humana, mas seguem potentes em sua trajetória e formam discursos acalorados, rompantes de emoções, reações destrutivas. Para além da estatística multivariada dos algoritmos que parte da premissa da prevalência e do hedonismo que dita a necessidade de respostas imediatas, a empatia, a intuição, a solidariedade e o altruísmo ficam fora do jogo, literalmente de escanteio.

Créditos: Divulgação/Renato Pizzutto/Band
As redes sociais empobrecem as nossas decisões. Isso é um fato. E o condicionamento excessivo por essas decisões binárias, suportadas por algoritmos, empobrece a capacidade de julgamento e de promover debates sérios. Eleitores ficam então suscetíveis a comportamentos de manada e deles não conseguem mais se livrar. A espetacularização das campanhas eleitorais intensifica ainda mais essa vulnerabilidade. Táticas que priorizam ataques diretos aos adversários e promessas exageradas alienam eleitores moderados e indecisos e inflamam os ortodoxos, que não pensam em parar e refletir, ponderar, avaliar, discernir e conciliar, porque a janela de atenção e raciocínio é reduzida em TikToks e Instagrams, que demandam reações sempre imediatas e impulsivas.
Toda essa superficialidade gerada pelo consumo rápido de informações limita a capacidade do eleitor de se engajar em debates significativos. Ao contrário, alimenta o ódio, constrói ídolos, forma mitos. Cria toda a sorte de personagens, menos políticos em sua essência. E a complexidade de questões sociais se converte em memes simplistas, que trafegam bem distantes de uma análise crítica e fiel à realidade.
A crise ética na política é um espelho da crise ética no mundo. O que vemos ali é um reflexo do empobrecimento de funções importantíssimas do nosso cérebro. Valores morais e necessidades sociais são deixados de lado em favor de respostas rápidas e facilmente digeríveis, memes petardos alimentados pelo ódio do oponente, visto como inimigo que precisa ser destruído. E ninguém é poupado: familiares, amigos de longa data, conexões digitais, pessoas do trabalho… Quem pensa diferente é odiado e precisa ser eliminado, cancelado, bloqueado, menos ouvido. A neurociência nos alerta para os perigos dessa dinâmica. À medida que nos tornamos mais dependentes de interações digitais, a interação humana rica e diversa, que antes moldava nosso julgamento, está sendo substituída por experiências limitadas, mais “burras”, menos empáticas e mais pasteurizadas. Como resultado, a capacidade de tomar decisões ponderadas está se deteriorando e o discurso político se torna, assim, igualmente agressivo.
A análise da espetacularização e do ódio na política revela que táticas agressivas negativas não vão, jamais, produzir efeitos positivos. Acredito que candidatos que conseguem combinar elementos impactantes com um conteúdo genuíno e propostas claras tendem a estabelecer conexões mais profundas com os eleitores. Essa abordagem contrasta fortemente com a mera agressão, permitindo que candidatos se apresentem como autênticos e comprometidos com a resolução de problemas. No entanto, não sejamos ingênuos, porque a crise ética que emergiu desse ambiente requer um novo enfoque na comunicação política, que valorize a profundidade, a empatia e a construção de um discurso que ressoe verdadeiramente com as preocupações da população. A verdadeira vitória nas urnas, portanto, não está apenas na capacidade de atrair a atenção, mas em engajar e mobilizar o eleitorado de maneira significativa e, não custa lembrar, mais humana.
Edmar Bulla é Neurocientista, palestrante e fundador do Grupo Croma.

