COMMON PEOPLE

A metalinguagem das empresas-plataforma e o básico que se torna exclusivo

Até que ponto estamos dispostos a ceder nossa autonomia em troca de soluções aparentemente convenientes?

O episódio Common People, da 7ª temporada de Black Mirror, oferece uma crítica contundente à forma como empresas de tecnologia, embora não somente elas, transformam necessidades humanas básicas em serviços condicionados a modelos de assinatura. 

Quem assistiu ao episódio, que em tradução livre chama-se Pessoa Comum, dificilmente conclui a história sem um sentimento de pesar, quase como se aquela história falasse de pessoas comuns, de fato, como eu e você. No episódio, conhecemos a história de Amanda, interpretada por Rashida Jones, uma mulher diagnosticada com um tumor cerebral inoperável. O marido Mike (Chris O’Dowd) é abordado no próprio hospital por uma agente de vendas da Rivermind Technologies, uma startup que oferece uma solução inovadora: substituir o tecido cerebral afetado por uma versão sintética conectada aos servidores da empresa. 

O procedimento em si, para a alegria de Mike, é gratuito; porém, o casal precisará pagar, pelo resto da vida, uma assinatura mensal para usufruir dos serviços da empresa. 

Amanda se reestabelece e volta a ter uma vida normal. Porém, em pouco tempo, descobre que o plano assinado para o procedimento que a curou só funciona em um determinado perímetro do estado. Se ela tenta sair do perímetro, ela imediatamente desmaia. O que impacta, por exemplo, um ritual do casal, que anualmente comemora o seu aniversário de casamento fora da cidade. O plano básico não funciona em outras regiões e, para ter a possibilidade de ir e vir, é necessário pagar um plano premium adicional. Este é somente o começo da história cujo ápice ocorre quando, após uma nova atualização do sistema, a mulher começa emitir, verbalizar anúncios – inconscientemente e contra a sua vontade – nos momentos mais inusitados em sua vida pessoal, ou no trabalho onde é professora do ensino infantil. 

Crédito: Reprodução/Instagram/@rashidajones

O que mais me chocou neste episódio foi a metalinguagem com o serviço oferecido pela própria Netflix: o streaming, que há pouco tempo começou a cobrar do cliente para que anúncios não sejam veiculados nos episódios. Quem não tem dinheiro para pagar, ou não quer pagar por achar abusivo, mesmo sendo cliente da plataforma e pagando a mensalidade, será invadido por uma série de anúncios comerciais ao longo da sua programação. 

Common People utiliza a narrativa para explorar como a dependência de serviços tecnológicos, sob modelos de negócios predatórios, pode desumanizar indivíduos e transformar necessidades ou escolhas em oportunidades de lucro. A metalinguagem presente no episódio reflete sobre a própria indústria do entretenimento e tecnologia, questionando: até que ponto estamos dispostos a ceder nossa autonomia em troca de soluções aparentemente convenientes? 

Outro caso que me ocorreu foi o dos aplicativos de mobilidade que, quando chegaram ao Brasil, remuneravam os motoristas de forma extremamente competitiva e ofereciam uma série de diferenciais excelentes tanto para motoristas quanto para usuários — como, por exemplo, água para os passageiros. Hoje, anos depois, o valor pago aos motoristas caiu vertiginosamente, e as comodidades oferecidas aos clientes já não fazem mais parte do serviço. Pelo contrário: parece que, cada vez mais, o que é disponibilizado tanto para motoristas quanto para usuários está sendo sucateado, enquanto as margens de lucro das empresas não param de crescer.  

Por fim, a lógica que se origina nas empresas-plataforma parece estar invadindo outros setores. Recentemente, fiz uma viagem internacional em um voo com nove horas de duração. Os passageiros da companhia aérea que quisessem um copo d’água precisavam se levantar e ir até o fundo da aeronave. Não havia absolutamente nenhum serviço de bordo gratuito. Isso mesmo: nenhum tipo de alimentação — nem mesmo um snack — estava incluído na viagem. 

Além disso, como eu havia selecionado e pago por assentos premium, e descobri que nem ao menos um copo d’água era servido, procurei entender quais seriam os diferenciais daquela categoria em relação às demais. E descobri: os assentos a partir da marcação de número 11 não reclinavam. Isso mesmo — a pessoa precisaria passar todas aquelas horas em uma única posição estática. E também não havia suporte para celular. 

Pensei: suporte para celular e reclinar a cadeira são itens básicos e não itens premium. E lembrei imediatamente do episódio da série Black Mirror. 

O episódio escancara a face mais cruel da lógica empresarial contemporânea: a de que até mesmo aquilo que deveria ser básico, como saúde, mobilidade, conforto e descanso, pode ser transformado em recurso exclusivo, controlado por pacotes, atualizações e assinaturas. A metalinguagem do episódio não fala apenas da ficção, mas do agora. Da Netflix que cobra para não te interromper com anúncios, dos aplicativos de transporte que precarizam seus motoristas enquanto aumentam seus lucros, das companhias aéreas que privatizam até o direito de reclinar o corpo ou beber água. 

A provocação que fica é: quando foi que aceitamos pagar por soluções que antes eram direitos? E até quando vamos continuar aceitando perder autonomia em troca de serviços cada vez mais esvaziados, porém com aparência de modernidade? 

Liliane Rocha é mestre de Políticas Públicas, CEO e Fundadora da Gestão Kairós consultoria de Sustentabilidade e Diversidade. 

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