O AMBIENTE E AS CONEXÕES SIGNIFICATIVAS SÃO MAIS FORTES DO QUE A QUÍMICA DA DROGA

Vamos conversar sobre usuários de crack em situação de rua?

Antes de tudo, gostaria de lembrar algo bastante evidente: ninguém resolve ser pobre e ninguém decide ser usuário compulsivo

Bruno Souza, vereador de Florianópolis, fazia filmagens em lugares públicos para flagrar, segundo ele, pessoas em situação de rua e usuários de drogas que não querem trabalho, pretendem mesmo é viver de esmolas para sustentar uma vida de vagabundo ou de drogado. Chamava pedintes para fazer registros nos órgãos oficiais para procurar emprego e constatava que não dava certo. O pedinte não queria e voltava a mendigar. Caso isso soe a justificativa cabal para encarcerar ou enviar os mendicantes para os locais de onde eles vieram, esse texto é para você. Ainda que pareça óbvio e evidente que, se isso não funciona, a pessoa em situação de rua ou o usuário precisam ser penalizados, eu gostaria de trazer alguns elementos que estão de fora dessa equação que parece quase matemática. Mas que, entretanto, não fecha.

Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

Antes de tudo, gostaria de lembrar algo bastante evidente: ninguém resolve ser pobre e ninguém decide ser usuário compulsivo. Ora, por que então pessoas acabam na pobreza ou caem nesse tipo de uso? Por diversas razões, mas a vontade individual conta pouco. “Eu nunca fumei crack por uma opção minha” você pode dizer agora e começar a me xingar de esquerdalha, enquanto mentalmente está me sugerindo levar os usuários para a minha casa já que gosto tanto deles. Só que, ao contrário do que parece, é demonstrável cientificamente que essa escolha, na verdade, não é tão sua quando você supõe. A vontade individual é muito mais moldada pelo ambiente social do que gostaríamos que fosse.

Vejamos de uma maneira um tanto menos dramática: pense nas músicas que você mais gosta. Você acha que existe algo intrínseco na música (ou seja, nela mesma) que a liga harmoniosamente ao seu tímpano e se mistura deliciosamente nos seus neurônios, despejando serotonina? Se acha, lamento informar, mas, na verdade, não existe. Se fosse assim, todo mundo se apaixonaria pelas mesmas músicas. Você ama as músicas que ama porque elas têm valor para você. E elas passaram a ter valor pela sua experiência de vida, particular. Você escutou com alguém que gostava, você a escutou em um momento bom, você a escutou quando o sol brilhou na sua janela depois de semanas de tempo nublado ou, ao contrário, em um momento triste e ela “interagiu” de alguma maneira com o que você sentia. Por isso te marcou. O ambiente social pesa. A conexão entre valores e desejos é tão arbitrária quanto o menu de uma praça de alimentação de shopping. Você talvez nunca tenha provado crack, mas estar em um circuito com diversos copos de Heineken e Jack Daniel’s, o que pode fazer você querer beber todos os dias ou não. Essa é a sua realidade. Você está exposto a esses tipos de amores, prazeres, valores e ofertas.

Outras pessoas estão expostas a outros tipos de vulnerabilidades. Elas podem dizer “não” às drogas? O senso comum diz que é uma escolha individual e pronto, mas a ciência demonstra outra coisa. Existe um experimento chamado “Parque dos ratos”. Trata-se do seguinte: como antecedente científico, colocaram um rato sozinho em uma jaula. Ali havia comida, um cano com água pura e outro com morfina. O rato morreu de overdose. Concluiu-se que a droga necessariamente vicia e o rato escolheu os prazeres rápidos e mortíferos do opioide. A droga era a grande vilã e… fim. Só que, um dia, Bruce Alexander achou que havia algo equivocado no experimento e o refez. Dessa vez, o rato não estava sozinho. Ele estava dentro de uma espécie de “paraíso dos ratos”. Havia outros ratos para interagir, muitas coisas dos prazeres do mundo dos ratos, muitas possibilidades de amores roedores, queijo etc. Ou seja: um ambiente rico, rico de possibilidades valiosas. Detalhe: havia ali o mesmo tubo com morfina. Alguns ratos iam ali ficar doidões às vezes? Sim, iam. Mas só às vezes. Mas isso não perturbou a sociabilidade e a vida. Nenhum se tornou dependente. Nenhum morreu pelo consumo. Trata-se, portanto, do oposto do que o primeiro experimento tinha concluído: passava-se a compreender que o ambiente e as conexões significativas são mais fortes do que a química da droga.

Quando há conexões significativas e importantes para os indivíduos – sejam ratos ou seres humanos –, eles se apegam a elas. Essa é a moral da história que eu gostaria que você retivesse nesse momento. Sem sentido, ninguém sobrevive. Sem sentido na jaula isolada, qualquer indivíduo vai ingerir qualquer instante de prazer que amenize a dor até que chegue a morte. Não se trata de química, mas de conexão social.

O que levou pessoas às ruas e às drogas? Os mais variados motivos, como eu mencionei acima. E quanto mais angustiante for a vida do indivíduo, mais o cardápio de opções se restringe. Angústia causada pelas mais variadas razões ou, dito de outro modo, limitações sociais causadas pelas restrições de acesso e de dinheiro. Você pode dizer que, se uma pessoa escolher o caminho correto, ela vence na vida. Novamente, vou contrapor esse raciocínio de senso comum com ciência, ok? Pensemos em um ambiente de grande vulnerabilidade social e o que você percebe dele. Você realmente acha que, caso você, vendo milhares de pessoas ralando de estudar para conseguir um emprego miserável e a aparente boa vida do pessoal do tráfico, você iria optar pelos estudos? Você pode estar resignadamente dizendo para si mesmo que evidentemente sim. Mas essa não seria a opção que muitos economistas chamariam de “escolha racional”. O retorno do tráfico é ao menos visivelmente mais rápido e presumidamente mais compensador. Racionalmente, os indivíduos se guiam pelos exemplos de sucesso. Você não está no tráfico, mas isso se deve ao fato de que você teve outros exemplos e foi exposta ou exposto à esperança convincente de vencer de outra maneira. Em um mundo por vezes reduzido à percepção de que o sucesso é fruto só do crime, impedir que o indivíduo entre em atividades ilegais se torna uma luta familiar e comunitária. Não por acaso, essa é a maior bandeira do rap: “estude, não entre no tráfico”. Mas os rappers sabem bem o quão dura é essa batalha e, por isso, batem tanto nessa tecla. Se as suas opções fossem estudar muitíssimo para ter um emprego medíocre, ser jogador de futebol ou traficante, a sua escolha seria ser um milionário do Manchester. Mas essa possibilidade, como sabemos, é pequena. Consequentemente, a vulnerabilidade social torna difícil a escolha entre o que é aceito pela sociedade e o crime.

Vamos então para a segunda opção: vamos pressupor que, dadas as poucas possibilidades que a sociedade te dá, você cai no caminho considerado errado. Vamos supor agora que você seja pego e preso. Depois de alguns anos, você sai. Aí, você começa a procurar emprego e todos eles pedem uma coisa: certidão de antecedentes criminais sem ocorrências. Só que você tem antecedentes. E você não consegue emprego nenhum. Por quê? Porque a sociedade exige que, para se trabalhar em qualquer coisa que não seja humilhante, você não tenha passado pelo sistema prisional. O que resta? Voltar para a carreira desviante. É quase a única coisa que sobra. Nós, como sociedade, fechamos portas. Estamos nós dificultando saídas. Havia uma pergunta: é o reincidente que escolhe uma vida desviante ou é a sociedade que não o permite sair dela? Trata-se, como você percebeu, da segunda opção.

Dentro das poucas possibilidades oferecidas por uma vida comprimida socialmente, algumas pessoas experimentaram crack e passam a usá-lo compulsivamente. Muitos estão vagando por aí, diversas vezes simplesmente sustentando esse uso. Aí chega o Bruno Souza para uma delas, em Florianópolis, e lhe diz: “vamos procurar emprego?” e a pessoa foge. Por que ela fugiu? Exatamente porque aquela relação, que todos nós entendemos como problemática, é a relação que está fazendo sentido para ela agora. Isso é dolorido? Provavelmente. Gera problemas orgânicos? Evidentemente. Mas esse tipo de uso criou laços, rotina, senso de pertencimento, camaradagem. Observado de fora, pode parecer só degradação; mas para quem está ali, aquilo… é vida: é a rede de apoio, o sentido de vida mais forte daquele momento.  É quase como o tal paraíso dos ratos ao contrário: a jaula vazia se encheu de crack. Essa pessoa tem amigos, sabe os nomes deles, eles sabem o nome dela. Oferecer um emprego qualquer é ignorar o quão sombrio é o fato de que a sociedade está lhe oferecendo praticamente apenas uma possibilidade como existência. O emprego não faz sentido – até porque não tem como fazer. Esse novo parque oferecido (o trabalho) não promete as conexões significativas que essa pessoa tem. Não é uma troca obviamente boa no contexto do usuário. Na busca diária de crack, trata-se de pessoas unidas, conectadas, que sentem de maneira parecida, em busca de um objetivo (conseguir a pedra) que dá significado, talvez de uma maneira como nunca tenham sentido antes. Ao contrário, ir buscar trabalho significa jogar-se em um mundo incerto, totalmente desconhecido. E o pior: tendo que romper as conexões significativas que ela tem naquele momento. Você trocaria o que você conhece por um futuro totalmente duvidoso ou que você aprendeu a vida toda que é uma mentira? Bem provavelmente não iria, porque você sabe que o estigma vai te perseguir e que aquelas promessas souza-brunescas aparentemente inabaláveis são ambíguas.

Vamos supor que você, leitor desse texto que está agora me xingando, tenha algo na sua vida que passa a ser considerado horroroso pela sociedade. Aí chega o vereador e diz: “é o seguinte: largue tudo o que você tem, todas as coisas que fazem sentido para você, esqueça as pessoas por quem você tem carinho, desfaça tudo o que te conecta com o mundo e venha comigo: eu vou te mostrar como viver a vida de outra forma”. Você iria? Novamente, bem provavelmente não iria. Você pode até relutar dizendo para si mesmo que iria, mas probabilisticamente não. É humano se agarrar ao que é conhecido.

“Mas estamos falando de crack!” pode ser a resposta. Bom, aí eu apelo ao bom senso: tem gente que gosta de paraquedas, outros de escalar montanhas, tem gente que gosta de vinho e tem gente que gosta de apanhar durante o sexo. As possibilidades humanas são tão amplas e variadas que dão até vertigem. Então, por que você julga tão rapidamente o uso de crack? Você supor que só o seu mundo e os seus valores são dignos de tentativa de compreensão e alguma simpatia faz de você um ser humano, talvez, insensível. Sim, o crack deu sentido para a vida dessas pessoas. Assim como a música que, de repente, aos meus ouvidos soa horrorosa, mas te faz chorar, deu para a sua. A variedade e a aleatoriedade da vida social são assim.

O que fazer então? O crack é o que passou a dar sentido à vida dessas pessoas e precisamos normalizar isso? Não. E eu digo que não porque isso dá muito lucro para muita gente. Só que encarcerar, como eu espero já ter te convencido, não é só contraproducente, é como atirar álcool na fogueira. Você restringe ainda mais as possiblidades do indivíduo por marcá-lo com a insígnia de “ex-presidiário” ou “drogado”. Seria isolá-lo ainda mais pelo estigma e o resultado seria afundá-lo mais uma vez na carreira desviante. Deveríamos então mandá-los para as suas pretensas cidades de origem? Bem, tirar o problema debaixo do nosso nariz é mais confortável mesmo. Mas, ao mesmo tempo, é covarde e hipócrita.

Há duas coisas que seriam efetivas. A primeira delas é diminuir a oferta da substância. O que é muito difícil pela corrupção policial. Mas, de qualquer forma, essa seria a primeira. A segunda é possibilitar a essas pessoas outras formas de conexões significativas. Outras maneiras que não estejam baseadas no uso. Como se faz isso? Com uma mudança de postura: não os tratando como se fossem leprosos da Idade Média dos quais se precisa manter distância. Trata-se de uma mudança de olhar e de abordagem. “Ah, mas às vezes eles são violentos!” você pode estar pensando. Ué, mas a violência é, na maioria dos casos, a única ferramenta que eles têm de interação social. Qual é a outra maneira de chamar a sua atenção? Como eles podem conversar com o outro que simplesmente os quer longe ou mortos?

É necessário integrá-los de uma maneira que não seja uma exigência de rompimento com o que lhes faz sentir humanos, com as conexões significativas que fizeram. Eles não vão romper com o significativo deles só porque nós achamos que essa significação não é boa. Ao invés de pensar em mudanças da noite para o dia, precisamos esquecer os desejados muros e sonhar mais com pontes. Oferecer outras fontes de pertencimento que possam rivalizar com o pertencimento presenteado pelo crack.

As pessoas pedem uma solução para o problema social complicadíssimo do uso compulsivo. Só que apostam naquela que piora ainda mais as coisas. E por quê? Porque é a que parece a mais fácil e rápida. Além de que é a que nos redime do fato de pertencer à sociedade que causou esse sofrimento. É como se esse problema social não fosse o resultado de nada que estamos fazendo coletivamente. Então, interpretamos o comportamento dos usuários compulsivos como escárnio, como abuso, algo evidentemente errado e digno da mais severa punição. Só que não se trata disso: diz respeito a isolamento e conexão. E, no fundo, acho que você sabe disso tão bem quanto eu. Somos todos nós os responsáveis por isso tudo. Mas aquele alívio de consciência ao supor que se trata de uma falha individual vai ser interpelado no espaço público por humanos em busca da própria humanidade. E essa busca vai agredir a sua sensibilidade, sensibilidade que requer um espaço livre dos problemas e dores que nós, como sociedade, estamos causando. Só que essa agressão veio por causa da sua negação da humanidade deles. Qual está sendo a sua contribuição para essa situação além de supor que eles devem ser simplesmente excluídos do mundo? Oferecer pancada, pontapé, tiro e recriminação não é uma resposta válida. Mas, caso ainda suponha que sim, você não entendeu alguns princípios éticos fundamentais: o da justiça, o da empatia e da solidariedade.

 

Rafael Mantovani é professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro Modernizar a ordem em nome da saúde: a São Paulo de militares, pobres e escravos (1805-1840) (Fiocruz). É coordenador do Pindorama – Núcleo de Estudos sobre Pensamento Social e Político Brasileiro da UFSC.


Agradeço a atenta leitura e sugestões de Leanndru Sussmann, Nicolás Gonçalves, Paulo Victor Nogueira e Bruno Regasson.

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