Aline Bei: ‘o que me tornou leitora não foi um livro, mas a percepção, já na infância, da minha solidão particular’
Autora de O peso do pássaro morto, Pequena coreografia do adeus e Uma delicada coleção de ausências é a última entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil
Após um mês repleto de entrevistas com grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, o especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor (25 de julho) chega ao fim.
A última entrevistada é Aline Bei, autora de O peso do pássaro morto, Pequena coreografia do adeus e Uma delicada coleção de ausências.
Com uma linguagem bastante poética, a escritora se tornou um dos grandes acontecimentos recentes da literatura brasileira e uma das vozes mais originais da arte contemporânea no país. “Na literatura, como no corpo, as coisas não são facilmente separáveis. Enredo e linguagem são órgãos vitais. Para que um texto exista, é preciso que suas partes coexistam, formando uma espécie de unidade singular”, disse.
Confira a entrevista na íntegra:
Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?
Obsessão é anterior ao tema, não tem nome, existe num lugar que chamo de porão. Se mantém na penumbra, entre o consciente e o inconsciente, naquele estado de vigília típico dos pressentimentos. Sua presença tem um quê animal, no meu caso pequeno, que respira de modo perturbador. Quando escrevo, desço ao porão, correndo o risco de matar o animal ou ser morta por ele.
Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância?
Na literatura, como no corpo, as coisas não são facilmente separáveis. Enredo e linguagem são órgãos vitais. Para que um texto exista, é preciso que suas partes coexistam, formando uma espécie de unidade singular.
Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?
Os de poesia, por serem um enigma sem cansaço.

Crédito: Isadora Arruda
Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?
O que me tornou leitora não foi um livro, mas a percepção, já na infância, da minha solidão particular. Iminente e intransponível, a mesma que me tornou escritora também.
Em 25 de julho foi comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?
Para celebrar: a crescente diversidade da literatura contemporânea brasileira, os clubes de leitura, as feiras literárias.
Para se preocupar: acesso à leitura e a manutenção afetiva de leitores pelo país.
Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?
Grace Passô. Ela é uma autora de prestígio, mas sinto que a dramaturgia ainda é pouco debatida no Brasil, mesmo entre grupos que lê.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?
Não gosto muito de conselhos, me incomodo especialmente com o tom. Acredito no poder das trocas mais horizontais, nas boas conversas e leituras. Ou então no espanto que certos textos nos causam por resgatar o inominável em nós.
O que move sua escrita?
Minhas obsessões.
Sobre a autora
Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em artes cênicas pelo Célia Helena Centro de Artes e Educação e pós-graduada em escritas performáticas pela PUC-Rio. É autora dos romances O peso do pássaro morto, vencedor do prêmio São Paulo de Literatura (2017) e do prêmio Toca; Pequena coreografia do adeus, finalista do prêmio Jabuti (2022); e Uma delicada coleção de ausências (2025).
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

