QUANDO A CIÊNCIA É USADA PARA EXCLUIR

Como a direita transformou crianças trans em arma eleitoral

Manipulação de casos de destransição se tornou uma arma central nos discursos conservadores para conquistar a opinião popular. Ao trazerem alertas de que crianças estão em risco, figuras controversas atribuem uma moral superior a si mesmas e a seus projetos políticos

O debate sobre crianças trans não é um debate simples. Transições são processos complexos, incompreensíveis, muitas vezes inimagináveis, que fazem com que familiares se digladiem, decepcionem e busquem ajuda. É até difícil explicar, porque as palavras não dizem tudo, e muitas vezes criam mais problemas do que resolvem, como ocorre ao dizermos “transição”. Ao ouvir isso, algumas pessoas esperam um processo literal como a troca da caixinha número 1 para a caixinha número 2, “transição” como “ir de um ponto ao outro”, mas, mais recentemente, esse termo passou a fazer referência a sair da caixinha e estar mais consciente sobre como o mundo nos obriga a usar rótulos e a se negar a viver isso de modo hostil – o que traz mais atenção às práticas, ao modo como vivemos a vida; não somente aos nomes que damos às coisas. Por isso, a transição é menos uma categoria médica, intrapsíquica, e mais uma categoria ligada aos Direitos Humanos.  

Na maioria dos casos, famílias têm dificuldade em aceitar a transição, pois a veem como um momento em que a criança busca mais autonomia e poder de decisão. Transicionar não é apenas uma “readequação de gênero”, mas uma forma da criança participar ativamente das escolhas sobre sua infância. É claro, muitas dessas crianças são filhas de alguém e esse alguém que fez planos, sente emoções, cria cenários. Para os familiares, a transição pode parecer inadequada para a idade da criança, levando-os a interpretar essa demanda como ingratidão, desobediência, rebeldia ou doença, embaralhando diversos significados que adultos atribuem à experiência da criança. 

Ocorre que o anúncio da transição é também uma tristeza porque isso significa que algo não está bem no projeto de infância ofertado pelos pais. Isso mexe com a autoestima, com o senso de vínculo e pertencimento dos responsáveis. Como assim? O que tem de errado com o que estamos te dando? Mas não se preocupe — afinal, muita gente acha que tem mesmo o direito de não querer um filho trans. Só não reclame depois se ele também não quiser mais você. 

Crédito: Marília Romagueira

A instrumentalização das infâncias 

O ponto defendido pelo texto é que adultos não deveriam ter direito a hostilizar, excluir e agredir crianças em razão de suas pluralidades.  A direita conservadora, que explora pautas morais para mobilizar afetos eleitorais, instrumentaliza crianças trans como ameaça à família tradicional, ressentida com os avanços feministas e LGBT+. Em nome da proteção das “outras” crianças (as normais), o Estado é convocado a reagir contra uma suposta epidemia de transições infantis, tratadas como impulsivas e desastrosas. É nessa lógica que casos de destransição são usados como principal evidência para justificar mais controle e mesmo repressão socioeconômica. 

Tal problema poderia ser minimizado se a transexualidade fosse entendida como um processo aberto de experimentação, e não como uma identidade fixa, conceito que já está ultrapassado, mas ainda causa confusão. Em termos simples, a transição é uma metáfora para o constante desenvolvimento e mudança que todas as crianças vivem ao crescer. Crianças trans são, antes de tudo, crianças comuns que enfrentam ataques desumanizadores. A transição reflete o questionamento das normas sociais durante o crescimento, sem torná-las especiais ou diferentes. Apesar da campanha difamatória contra essa realidade, felizmente, nem todos são influenciados pela direita conservadora, que utiliza o tema das crianças trans como ferramenta de campanha. 

Para além da dimensão institucional, famílias evidentemente não querem ser negligentes e acabam sendo constrangidas quando percebem estar passando por uma transição, ainda mais por estarmos falando de… crianças. Às vezes, os pais e as mães também sentem a transição da criança como um vexame, uma espécie de reprovação social, visto que todo mundo passa a acreditar ter direito de julgá-los. Como você não viu isso se aproximando? Por que não teve um pulso mais firme? Será que não é uma projeção sua o que a criança está fazendo? São muitas as interpelações.  

Existem coisas na vida que a gente precisa viver para depois saber o que pensar sobre elas, embora isso não signifique uma banalização da transição. É possível reconhecer quão dramática pode se tornar essa demanda, mas também quão violento seria permanecer sem tentar de outro modo. Nunca é uma certeza. Crianças que dizem que são trans, ou que encontram nessa palavra uma forma de circular, não sabem o que serão até os 60 anos de idade. Elas possuem dúvidas sobre si mesmas.  

Crédito: Marília Romagueira

Embora críticos falem em “boom” de transições infantis, dados indicam estabilização e até queda no número de crianças trans desde 2018. A ideia de que permitir a transição é ruim e que o arrependimento seria pior não se sustenta diante de evidências: 94% das crianças mantêm a identidade trans cinco anos após a transição social e as taxas de arrependimento ou destransição são muito baixas, entre 0,5% e 2%. 

Argumentos diversos, incluindo ataques à substância que bloqueia a puberdade – a qual apresenta riscos menores de infertilidade e disfunção sexual que outros tratamentos pediátricos – são usados para perseguir seu uso na transição, revelando um combate seletivo às liberdades individuais. Embora autorizado para crianças cis em várias condições médicas, o bloqueio hormonal é questionado ao ser usado para construir corpos diversos. Além disso, pais enfrentam reprovação da comunidade e familiares, como sendo “irresponsáveis”, enquanto a associação da infância à sexualidade alimenta conteúdos sensacionalistas na internet, reforçando crianças cis e heterossexuais como mais saudáveis, dificultando a superação da desinformação. 

Entre 2019 e 2025, a direita conservadora usou crianças trans como símbolo de um “colapso moral”, visando alimentar uma disputa ideológica que vai além do debate de gênero e desumanizando uma população já vulnerável no Brasil. Essa estratégia cruel expõe crianças, famílias e comunidades a assédios constantes, invertendo seus papéis de vítimas para algozes e aprofundando a perseguição. Setores conservadores difundem a falsa acusação de que escolas incentivam crianças a mudarem de gênero para criar um medo eleitoreiro, desviando a atenção de problemas como desigualdade e precarização social. Ao demonizar crianças trans e radicalizar discursos religiosos, fortalecem agendas que prejudicam toda a população: os mesmos políticos que atacam a diversidade infantil também rejeitam direitos civis, redução da carga horária trabalhista ou taxação de grandes fortunas.  

Essas pessoas usam a pauta antitrans para limitar cidadanias mais amplas. O que é mais grave: se arrepender de uma transição, ou não se arrepender de votar em candidatos que são responsáveis por um aumento exponencial de mortes, como ocorreu no Brasil durante a pandemia? E não é só no parlamento que isso ocorre. Em 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM), antigo aliado do bolsonarismo, sem estabelecer diálogo com a comunidade trans e com a rede de ambulatórios espalhada pelo país, divulgou a Resolução CFM nº 2.427/2025 e impôs restrições ao uso de bloqueadores hormonais e hormonioterapia cruzada em menores de 18 anos, alegando o bem-estar da criança e se emaranhando nesse circuito de fake news.  

Em busca de validar sua perspectiva, o CFM construiu uma argumentação tendo como base o CASS Review (2024), relatório encomendado pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido para avaliar os equipamentos de saúde destinados a jovens transgêneros. Apesar de seu objetivo inicial de melhorar o acesso e a qualidade do atendimento, o relatório final apresenta falhas metodológicas, interpretações equivocadas de dados e conclusões que contradizem as evidências científicas disponíveis. Embora o documento reconheça a importância de avaliações individualizadas e holísticas, ele também promove especulações.  

Dentre alguns dos problemas, o relatório ignora a transfobia na saúde, e traz falas que negam a existência de crianças trans e associam suas identidades a fatores externos, como o excesso do uso de telas e redes sociais. Ao tratar a transexualidade como distúrbio mental, ou transtorno, contradiz abordagens que reconhecem a diversidade de gênero como natural. O CASS Review Exige provas rigorosas para práticas afirmativas, mas aceita intervenções não afirmativas sem evidências. Ele exclui vozes trans do processo e propõe medidas paternalistas e antiéticas, como limitar transições sociais e sugerir ensaios clínicos inadequados ao contexto da despatologização. 

A comunidade trans critica o relatório por reforçar estigmas, ignorar evidências de benefícios dos cuidados afirmativos e desconsiderar os direitos e necessidades dos jovens trans. Afirmações sem evidências sólidas sobre o aumento de destransições têm justificado restrições ao acesso a bloqueadores hormonais, apesar dos riscos que a falta desse cuidado traz, como alterações corporais permanentes em jovens trans. Embora o CASS Review não proíba formalmente cuidados afirmativos, suas conclusões reforçam barreiras ideológicas e ignoram falhas estruturais no sistema de saúde. Em vez de oferecer suporte individualizado, prioriza agendas políticas, comprometendo o bem-estar da juventude trans, falhando em enfrentar preconceitos, reforçando a cisnormatividade e mostrando mais preocupação com a suposta pressão sobre jovens para acreditarem na incongruência de gênero do que em promover um atendimento focado no cuidado e na qualidade de vida. 

Se a identidade é fixa ou fluida, se é inerente ou aprendida, certamente não temos isso resolvido. Todavia, a ausência de resposta para essas duas questões não deveria nos conduzir a uma abordagem policialesca e, sim, a uma abordagem parecida com a da saúde reprodutiva, da medicina familiar, dos cuidados paliativos ou da redução de danos, a dizer, priorizar o bem-estar físico, emocional e social.  

Crédito: Marília Romagueira

Quando a ciência é usada para excluir 

O conceito de “disforia de gênero de início rápido”, proposto por Lisa Littman e usado como base pela agenda conservadora contra crianças trans, foi amplamente criticado por falhas éticas e metodológicas, incluindo viés amostral ao ouvir apenas pais usuários de fóruns transfóbicos, falta de escuta direta dos jovens e perguntas tendenciosas, revelando um uso da ciência para reforçar preconceitos e controle sobre identidades trans. Ao seu lado, quatro estudos que alegam que a maioria das crianças trans “desiste” da identidade na adolescência apresentam falhas metodológicas sérias, como classificações imprecisas de desistência (pessoas que se mudavam de cidade e eram vistas como desistentes, porque paravam de atender às chamadas da equipe), exclusão de identidades não binárias e pressupostos que consideram o retorno à identidade cis como ideal, revelam vieses que comprometem a validade científica e são usados para justificar atrasos ou negação de cuidados afirmativos na infância. 

Se uma criança se reconhece trans em um momento e depois muda de entendimento, isso não deveria ser motivo de vergonha ou demérito. O que isso revela não é que as crianças estão confusas, mas que os processos de identificação são menos rígidos do que pensávamos. A legitimidade das crianças trans não depende de respostas biológicas ou da natureza. Existem muitas formas de lidar com essa realidade, mas duas posturas principais se destacam: a primeira culpa a criança pelas dúvidas que ela tem sobre sua identidade, tratando suas experiências como algo negativo a ser esquecido; a segunda permite que a criança vivencie várias destransições durante seu amadurecimento, oferecendo uma escuta empática e respeitosa, sem impor identidades ou julgamentos, acompanhando sua jornada com apoio genuíno. 

Para seguir na linha dos Direitos Humanos, precisaremos, antes, transicionar algumas lógicas que sustentam ataques às crianças trans, como a que vê com desonra quem revisita sua própria identidade. Quando a transexualidade é tratada como um mal, o combate à diversidade se disfarça de proteção à infância. Em vez de fixar categorias rígidas, é necessário valorizar as nuances e escutar as singularidades. Propomos, como resposta ética, um caminho baseado nos afetos: escutar histórias reais, acolher trajetórias diversas e romper com a ideia de uma infância única que cala tantas outras. Seremos mesmo coniventes com isso?  

 

As imagens que ilustram a coluna foram tiradas por Marília Romagueira, e retratam o Bailinho, evento de ballroom e capoeira para crianças que aconteceu em Brasília (25/01/2025) 

Sofia Favero é doutora em Psicologia Social pela UFRGS. 

Amanda Paschoal é vereadora por São Paulo (PSOL – SP). 

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