TECNOLOGIA, DOMINAÇÃO E DISTOPIA DIGITAL

Conheça o novo livro de ficção especulativa de Roger Dörl

Crônicas de Um Mundo reúne cinco contos interligados que mergulham em temas como inteligência artificial, manipulação social e sexismo no universo virtual do Masterverso

O escritor Roger Dörl, radicado em Brasília, lança Crônicas de Um Mundo, uma obra de ficção especulativa que reúne cinco contos interligados e ambientados no universo digital do Masterverso – um futuro distópico em que a realidade virtual domina a vida cotidiana. Com forte carga crítica, o livro aprofunda temas como liberdade, opressão, espiritualidade e violência de gênero em tempos de hiperconectividade, dando continuidade ao universo já apresentado em seu romance anterior, Alena existe. 

Em Crônicas de Um Mundo, todas as histórias acontecem dentro do Masterverso, uma interface digital que praticamente substituiu o mundo físico. A partir desse ambiente, o autor propõe uma reflexão crítica sobre os rumos da sociedade e os impactos subjetivos das novas tecnologias. Inteligência artificial, manipulação da percepção, sexismo digital e algoritmos como ferramentas de dominação compõem o pano de fundo para histórias que, apesar de futuristas, dialogam diretamente com as tensões do presente.  

Nascido em Curitiba e criado em Joaçaba (SC), Roger Dörl tem formação em Artes Cênicas e Letras. Já foi professor, produtor cultural e redator, mas hoje se dedica integralmente à escrita e à música. Com influência de autores como Saramago e Quintana, desenvolve um estilo que busca equilibrar densidade temática e acessibilidade narrativa.  

Abaixo, confira uma entrevista com o autor sobre o processo de criação do seu mais novo livro.  

Crônicas de Um Mundo dá continuidade ao universo apresentado em seu romance anterior, Alena existe. Quais temas você decidiu abordar nesta nova obra?  

 

Os contos abordam novas formas de construção individual e social diante de tecnologias como a inteligência artificial e a realidade virtual. Um dos principais temas é a opressão das classes dominantes. Mais especificamente, cada história trata de: 1) abusos das classes dominantes; 2) espiritualidade e virtualidade x mundo físico; 3) processamento de sentimentos como informações/dados; 4) ilusões e manipulações do mundo digital; 5) violência e sexismo na era do império tecnológico. 

O que motivou você a explorar esses temas na ficção especulativa de Crônicas de Um Mundo? 

Estamos vendo impérios se formarem sob as marcas das big techs, com CEO’s se comparando a césares ou fazendo gestos nazistas em palanques políticos. A internet e tecnologias relacionadas poderiam acabar de firmar a democracia em nossa sociedade, mas cada vez mais vêm se mostrando como eficazes instrumentos de controle. Abordar estes temas é fundamental no momento atual, porque os indivíduos e a sociedade estão mudando rapidamente e é preciso que essa mudança ocorra de maneira consciente para todos, ou recairemos em modelos tão antigos que beiram o primitivo. 

Crônicas de Um Mundo nasce a partir do universo de Alena existe, mas com um novo foco narrativo e editorial. Como foi escrever os cinco contos em ritmo tão intenso, conciliando com outras atividades e funções da publicação independente? 

Depois de escrever Alena existe, achei que podia explorar melhor várias questões que a temática levantava, além de ter vontade de desenvolver a história de alguns personagens secundários do romance. Ao mesmo tempo, queria promover o livro e alcançar novos leitores, então decidi escrever cinco e-books no mesmo universo ficcional e disponibilizar dois deles gratuitamente. Escrevi uma história por mês entre julho e novembro de 2024, publicando-as sempre no mês seguinte. Foi uma época de trabalho intenso, porque eu também estava escrevendo para outras antologias, além de acumular funções como capista, diagramador, revisor, publisher, vendedor e publicitário… Assim que publiquei a última história, comecei o processo de reuni-las em um volume único para a versão impressa. Nesse processo, acabei retrabalhando um pouco o texto, e cheguei mesmo a reescrever algumas passagens. 

Em um universo dominado pelo virtual, seu livro propõe uma reconexão com o corpo e com a realidade concreta. Quais reflexões você espera provocar no leitor com as mensagens de Crônicas de Um Mundo? 

 

O livro procura o tempo todo chamar a atenção do leitor para o próprio corpo e para a realidade física, além de sublinhar a importância de ouvir os próprios sentimentos e pensamentos em vez de seguir cegamente os padrões impostos pelo meio. Estão presentes também diversas críticas sociais, em especial à desigualdade, à manipulação (religiosa, capitalista e de algoritmos) e ao machismo.  

O que Crônicas de Um Mundo representa para você, tanto como autor quanto em sua trajetória profissional dentro da ficção especulativa e do mercado editorial? 

Tenho um carinho especial por cada uma dessas histórias, porque consegui ampliar a discussão de Alena existe e, em dois casos, desenvolver personagens que tinham aparecido no romance e que eu gostaria de aprofundar. Com um tema tão atual e um universo ficcional tão rico, percebi inclusive que poderia me estender muito mais em derivados de Alena existe. Poderia passar anos explorando esse mundo. Em termos profissionais, o livro também agregou muita coisa, desde aumentar minha experiência em produções no gênero (no qual sou iniciante) à decisão de assumir as funções de edição e venda. Isso me trouxe para dentro do mercado editorial de um jeito que nunca tinha experimentado. 

Crônicas de Um Mundo nasce a partir de um universo já construído em Alena existe. Quais foram as vantagens e desafios de expandir esse mundo ficcional?  

Escrever uma obra derivada tem facilidades e desafios, porque já existe um mundo construído e muitas questões levantadas, mas é preciso acrescentar coisas que justifiquem as novas histórias e ao mesmo tempo cuidar para não contradizer nada do que foi apresentado antes. Mas além dessa relação direta entre os dois livros, ter escrito Alena me ajudou a ter mais confiança e tranquilidade na escrita, ao mesmo tempo que apontou fragilidades que eu precisava corrigir. O mesmo acontece com outros contos que passei a escrever para antologias. Ganhei experiência e acho que já refinei um pouco meu trabalho. Quando a gente quer aprender e não tem medo de encarar e reconhecer os próprios erros, as mudanças podem acontecer de um modo mais rápido e completo. 

Você migrou de uma produção mais experimental para a ficção especulativa, buscando um equilíbrio entre profundidade e acessibilidade. O que te levou a fazer essa transição de linguagem e por que a ficção especulativa se tornou o caminho ideal para os temas que você aborda? 

 

A opção por um gênero mais comercial tem muito a ver com o alcance que eu queria ter como escritor, o que não se refere só à quantidade, mas também a quem eu gostaria de alcançar. Antes, meus textos e outras construções artísticas eram mais experimentais e conceituais, o que, por um lado, permite aprofundar discussões e promover trocas complexas, mas, por outro, deixa de fora muita gente. No fundo, sempre tive muitas ressalvas às dinâmicas e perspectivas das produções intelectualizadas, e gostava quando conteúdos um pouco mais profundos apareciam em obras populares. Como é o caso de Matrix, por exemplo. Por isso a chamada “ficção especulativa” era uma escolha natural para mim. Mas demorei a vida inteira para mergulhar de cabeça nesse gênero, o que só aconteceu há cerca de três anos, quando comecei a escrever Alena existe 

Crédito: Divulgação

Você decidiu publicar Crônicas de Um Mundo de forma independente, após uma primeira experiência com editora comercial. O que motivou essa escolha e como tem sido para você assumir todas as etapas do processo editorial e de vendas? 

Na minha primeira publicação, trabalhei com uma editora comercial, porque estava chegando a esse mundo e ainda não sabia muito bem como as coisas funcionavam. Depois que entendi, vi que daria conta de assumir todo o processo de edição e vendas, e que isso me permitiria oferecer preços bem mais acessíveis mantendo a mesma margem de lucros. É um trabalho descomunal, na verdade, que vai muito além do que eu acho que deveria e gostaria de desenvolver apenas como escritor. Por isso, também estou procurando conhecer profissionais e criar contatos, e eventualmente espero publicar com editoras tradicionais ou equipes de profissionais específicos para cada etapa do processo. Ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade por todas essas etapas tem sido uma experiência interessante e muito enriquecedora. 

Olhando para sua formação artística e literária, que autores ou obras marcaram seu caminho criativo? 

É muito difícil falar nisso porque eu acabaria citando nomes como José Saramago ou Mário Quintana, que não têm nada a ver com o gênero que estou escrevendo e isso frustra as expectativas da pergunta. Claro que eu poderia citar autores de ficção científica, fantasia, mistério e aventura que me influenciaram ou que gosto mais, mas não sei se eu poderia dizer que eles estão “mais presentes” na minha escrita do que outros. Tem muitos autores de estilos muito variados em um grande caldeirão de influências de onde eu tento tirar o meu próprio estilo. Por outro lado, também, gosto que as semelhanças com outros autores possam ser mais uma percepção livre e subjetiva de cada um que lê. Às vezes, inclusive, o olhar de fora enxerga melhor do que de dentro. 

Em Crônicas de Um Mundo, você mistura elementos de aventura, thriller, fantasia e ficção científica, sem abrir mão de uma linguagem acessível e de reflexões filosóficas e políticas. Como você definiria seu estilo de escrita? 

Procuro manter o texto fluido e acessível, com uma estrutura mais típica de romances comerciais e, ao mesmo tempo, aprofundar discussões e trabalhar temas atuais que vão da filosofia à política, incluindo a espiritualidade (ou, pelo menos, “o mistério”) de uma maneira positiva. Em geral, as histórias são aventuras e thrillers com um toque de fantasia, tudo dentro da ficção científica. Eventualmente, porém, podem surgir formulações mais poéticas e filosóficas. 

Sua relação com a escrita começou ainda na infância, com incentivo familiar e versos poéticos. Como foi esse início com a palavra e de que forma essa trajetória moldou seu caminho até a ficção especulativa? 

Aprendi a ler e escrever em casa, basicamente perguntando os nomes das letras e o som produzido pelas combinações delas. Como meu pai escrevia poesia, esse foi meu primeiro gênero textual, e costumo brincar que a primeira frase que escrevi tinha dois versos e rimava “amor” com “flor”. Ao longo da vida, acabei escrevendo de tudo, mas nunca parei de escrever poesia e narrativas em prosa. 

Você comentou que consegue escrever em qualquer lugar e mantém certa disciplina com metas, especialmente durante a produção de Crônicas de Um Mundo. Como funciona seu processo criativo no dia a dia? 

Não tenho um ritual de preparação, posso escrever em qualquer lugar e em qualquer circunstância, mas tenho uma particularidade: não gosto que ninguém leia enquanto estou escrevendo. Para que leiam, tenho que considerar o texto pronto, mesmo que seja só um rascunho ou primeira versão. Para escrever textos longos, costumo colocar uma meta diária, dependendo do tempo disponível. Para os contos das Crônicas, isso podia ser um ou dois capítulos por dia. Mas isso varia muito com as circunstâncias. Quem escreve sabe que, às vezes, passar um dia “sem fazer nada”, só pensando, pode ser mais produtivo do que digitar muitas páginas. 

O que pode nos contar sobre os projetos que vêm por aí? 

Já comecei a escrever meu segundo romance, depois de um tempo de pesquisas que acabou durando até um pouco mais do que eu esperava. O plano é publicar no primeiro semestre do ano que vem. Também vou continuar escrevendo para antologias, apesar de achar que será menos do que no ano passado. De qualquer forma, ainda tem muitas antologias para as quais fui aprovado no ano passado ou início desse ano que ainda não foram publicadas, então as novidades vão continuar aparecendo por aí. E, no meu site e em plataformas de escrita como o Inkspired, vou publicar mensalmente contos gratuitos para ler online ou baixar em PDF. No mínimo, farei isso até dezembro deste ano. 

 

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters. 

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