ENTREVISTA

Natália Marques revela como foi escrever ‘Sete Centímetros’, obra finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus

Inspirada na descoberta do câncer de sua mãe, escritora e roteirista paulistana constrói uma narrativa tocante sobre maneiras de lidar com o fim

A escritora e roteirista paulistana Natália Marques, finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus, lança Sete Centímetros (Editora Flyve, 149 págs.), obra em que entrelaça autoficção e realismo mágico para abordar o impacto do câncer e a redescoberta da vida diante da morte. No centro da história está Márcia, professora e mãe, que descobre dois tumores no fígado e, a partir do diagnóstico, inicia uma jornada emocional intensa ao lado do filho e da mãe idosa. Enquanto lida com a exaustão física e emocional do tratamento, a personagem encontra na presença do filho Natanael a força necessária para continuar.  

Inspirada na história real da família da autora, que conviveu com o câncer no fígado da mãe durante dois anos, a escrita do livro foi a maneira que encontrou para responder algumas das perguntas originadas do seu processo de luto. O livro é dividido em duas partes: “A morte”, centrada na descoberta da doença, e “A vida”, que mostra como a personagem desenvolve uma nova relação com a proximidade do fim.  

Natália Marques é roteirista e comunicadora, formada em Comunicação Social com habilitação em Cinema pela FAAP e pós-graduada em Teoria Literária e Literatura Comparada. Transitando entre literatura e audiovisual, foi vencedora do concurso Novos Roteiros Originais da Organização de Estados Ibero-americanos, em 2020, além de ter sido finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus em 2023, com Sete Centímetros.  Lançou seu primeiro romance, Os Ares de Luisa, em 2022, seguido por Matérias do Coração, ambos pela Editora Flyve, que agora publica Sete Centímetros 

Na entrevista abaixo, a autora revela como foi o processo de escrever um livro tão pessoal e os desafios que encontrou durante a escrita.  

 

Em Sete Centímetros, você decidiu abordar temas como a aceitação da morte e o câncer. Por que escolher estes temas? 

A morte é tão natural quanto a vida. Por isso, escrever sobre ela, personificando-a e trazendo uma visão longa da morte (por meio de uma doença terminal), se faz tão necessário quanto contar a história de vidas. O câncer está intimamente ligado à aceitação da nossa realidade mortal como humanidade. Além disso, o câncer não é um evento solitário, ele machuca, enerva e se internaliza em todas as pessoas de sua convivência. 

A obra aborda um momento delicado da sua vida, que foi lidar com o câncer da sua mãe. Como se deu o processo de escrita da obra? 

Por dois anos, convivi com o câncer no fígado de minha mãe e com as diversas dúvidas que ele me trouxe, dia após dia. Em luto, resolvi responder algumas dessas perguntas, em forma de arte e ficção. Sete Centímetros é o resultado dessas elucidações, descobertas e aceitações. 

A escrita da primeira versão do livro demorou menos de um ano. Eu queria derramar minhas lembranças e meus sentimentos nas páginas antes que eles se fossem. Depois, nos três anos seguintes, trabalhei nas mais de oito versões que Sete Centímetros teve antes de submetê-lo ao Prêmio Carolina Maria de Jesus. Depois de ser finalista do prêmio, trabalhei mais um pouco nele durante 2024, e sua última versão está sendo publicada, depois de cinco anos desde que começou a ser escrito. 

Na sua visão, que reflexões e mensagens Sete Centímetros oferece ao leitor? 

A morte é natural. Todo ser vivo morrerá um dia, por isso, temê-la talvez não seja o melhor caminho, mas tratá-la como uma amiga, que chegará em certo momento. 

Natália Marques revela como foi escrever ‘Sete Centímetros’, obra finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus
Crédito: Divulgação

Como escrever essa obra, tão pessoal, te transformou? Qual o significado do livro na sua trajetória profissional? 

Sete Centímetros é o livro mais pessoal que escrevi até o momento e também representa uma abertura de portas na minha carreira. Até o momento, estive muito inserida na literatura de comédia romântica para jovens adultos, um estilo mais leve e voltado ao entretenimento. Com este novo livro, estou adentrando um novo estilo literário, novo gênero e, com isso, pude ver o quanto amadureci na escrita. 

De que forma a experiência com seus livros anteriores contribuiu para a construção de Sete Centímetros? 

Passei a perceber, depois de alguns leitores terem me falado impressões parecidas, que eu possuo um estilo de escrita que muitos poderiam chamar de “empático”. Mesmo tratando de temas pesados, como a morte e o câncer, eu o faço de maneira tranquila, como uma conversa entre pessoas próximas. Essa construção de um “estilo empático” de escrita só aconteceu devido às possibilidades de experimentação que as minhas duas primeiras obras, Os Ares de Luisa e Matérias do Coração, me proporcionaram. Além, é claro, do constante estudo de escrita criativa e do trabalho como preparadora de texto em obras de outros autores, que aumentam meu repertório continuamente. 

A nova obra se insere no realismo mágico. Como surgiu essa escolha estética e como foi a construção desse gênero? 

Sete Centímetros é a minha primeira obra de realismo mágico, e a escolha pelo gênero foi muito natural a partir do momento em que gostaria de retratar a relação com a morte de uma perspectiva de alguém passando por uma doença terminal. A primeira obra que me veio à mente, como referência de histórias com a Morte, foi As Intermitências da Morte, de José Saramago, e, logo em seguida, o filme O Sétimo Selo, dirigido por Ingmar Bergman. 

Foi a primeira vez que escrevi uma história em um cenário real com um elemento fantástico, apesar de não ter sido a primeira vez que escrevo uma obra personificando algo imaterial (tenho um conto em que personifico o ‘Amor’). Acredito que essa seja uma maneira poética de tornar mais palpáveis coisas que não temos como explicar. 

Quais são suas principais influências artísticas e literárias, e quais delas tiveram impacto direto sobre Sete Centímetros? 

A construção de personagens e ambientações de Jorge Amado me influencia desde que comecei no universo da escrita, sendo ele um dos meus autores favoritos. Como eu venho do universo do audiovisual, muitas de minhas influências artísticas vieram também do cinema, de filmografias de diretores e roteiristas cujas obras me impactaram de alguma forma, como David Fincher, Woody Allen, Robert Zemeckis e Julie Taymor. 

Nos últimos anos, fui fortemente impactada pelo estilo de escritoras contemporâneas como Isabel Allende, Elena Ferrante, Taylor Jenkins Reid, Carla Madeira e Aline Bei. Quanto a influências diretas para Sete Centímetros, não poderia deixar de citar José Saramago, principalmente em As Intermitências da Morte, e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, mais focado no estilo de narração. 

Como você definiria seu estilo de escrita e qual estrutura narrativa escolheu para o novo livro? 

Como dito anteriormente, diria que o meu estilo de escrita é “empático”. Uso frases mais diretas, sem muitos fluxos de consciência, mas, ainda assim, que consigam criar uma conexão entre o personagem e o leitor. 

Para Sete Centímetros, quis dividir o livro em duas partes paradoxais: a primeira parte, chamada “A morte”, em que a protagonista descobre o câncer; e a segunda parte, chamada “A vida”, em que ela entra em contato com a personagem Morte. O mais comum seria nomear ao contrário, já que a Morte ganha seu protagonismo na segunda parte, mas a mensagem que gostaria de passar está justamente nesse paradoxo, de como Márcia começou a perceber melhor a vida após sua aproximação com a Morte. 

Como a escrita passou a fazer parte da sua vida? 

Quando criança, costumava criar novas histórias usando meus personagens favoritos de desenho como protagonistas. Isso ampliou minha criatividade para a narrativa e, quando adolescente, aos 14 anos, escrevi meu primeiro livro – que ainda é um manuscrito guardado a sete chaves. 

Aos 17 anos, entrei na faculdade de Cinema com o desejo de me tornar roteirista e contar histórias em formato audiovisual. Desde então, já criei dezenas de narrativas, entre roteiros de filmes e séries. Em 2019, aos 21 anos, foi quando entrei na escrita literária, primeiramente com o projeto inicial de Sete Centímetros, e então com a escrita de contos, até que, em 2022, terminei e publiquei meu primeiro romance, Os Ares de Luisa. 

Você tem algum ritual para o momento da escrita? 

Eu gosto de escrever em silêncio, seja no meu escritório ou em alguma cafeteria. Além disso, sou uma escritora “arquiteta”, preciso planejar diversos detalhes antes de desenvolver mesmo uma história, porque assim eu sei que a escrita irá fluir perfeitamente – talvez meu sol e ascendente em Virgem tenham algo a ver com isso também. 

A minha meta diária de escrita é escrever. Pode ser o projeto de ficção que esteja trabalhando no momento, uma resenha de livro, um artigo de opinião… O importante para mim é trabalhar essa habilidade todos os dias. 

O que os leitores podem esperar para os seus próximos projetos?  

Atualmente estou trabalhando em dois romances com referências históricas do século XX: o primeiro, um romance romântico, uma história de amor e luta democrática, que se passa durante os anos de ditadura no Brasil; o segundo, um drama familiar inspirado na história de minha bisavó e seus nove filhos. 

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.  

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