ASSÉDIO E UNIVERSIDADE

Por que é preciso defender Boaventura de Sousa Santos?

A mudança geracional expõe as formas de assédio e o quão fundo elas estão na Universidade. O que o caso de Boaventura de Souza Santos traz?

Escrevo este texto após a leitura de meu colega a quem admiro, pesquisador e professor, Rodrigo Ghiringhelli. Pelo posicionamento lúcido. Tão necessário e urgente diante das constantes tentativas de desacreditar mulheres que denunciam assédio em seus espaços de trabalho. Somos cientistas com uma produção cada vez mais relevante e global. Ao que parece, isto ofende e castra a capacidade de trabalho de alguns colegas. E este é um momento para reflexão. O texto de Marilena Chauí, Contra a calúnia: Em defesa de Boaventura de Sousa Santos, é o pano de fundo desta discussão.  

Em 1993 entrei aos 17 anos no curso de ciências sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Um ano após ser cara pintada, oriunda de uma escola pública da cidade de Porto Alegre, filha de categorias clássicas do mundo do trabalho: um caminhoneiro vindo de uma família alemã e uma costureira cuja trajetória passa por todas as questões comuns às famílias negras brasileiras. Numerosa, pobre, marcada por enfrentamentos ao racismo. Não tendo o menor capital intelectual apreciado na Universidade, foi possível ter a liberdade de compreender os mecanismos que mantinham lugares de poder e formas que até então sequer eram nomeadas com os termos “assédio moral e sexual” ou “racismo institucional”. A possibilidade de fazer pesquisa em condições dignas para mim era rara e sou grata aos meus professores. Mas sim, havia a naturalização de piadas, casos, abordagens equivocadas, ambiguidades. O poder pessoal nestas instituições era algo evidenciado a cada dia na distribuição dos lugares de consagração. Era, como diria Durkheim, um fato social.  

Crédito: rawpixel.com

Quase 100 anos de Universidade no país e tão pouco se alterara. Lembro com nitidez que o primeiro furacão a passar por esta situação de estranha normalidade apareceu pelas ações do professor José Jorge de Carvalho e o início da luta pelas ações afirmativas. Sou docente em uma das primeiras instituições a adotar as cotas com base nas discussões sobre raça e racismo. A Universidade Estadual no Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em Campos dos Goytacazes. Uma cidade que apesar dos royalties do petróleo expõe uma marca triste: as condições de educação da população negra e indicadores que estão entre os piores do Estado do Rio de Janeiro neste quesito. E isto não pode ser desconsiderado na instituição fundada pelo governador Leonel Brizola. E pensada pelo antropólogo Darcy Ribeiro.  

O texto da filósofa Marilena Chauí é destes momentos complexos do debate público. Todos nós fomos apresentados as discussões de Chauí sobre democracia. Vimos sua paixão por temas como Spinoza, liberdade e direito ao pensamento crítico.  

Tenho muitas lembranças vivas sobre a época em que parecia estranho ler Marilena Chauí e fazer uma graduação: a primeira e mais terrível eram as aulas nas quais minhas professoras reproduziram situações de dominação masculina. Perguntavam à uma aluna considerada “fraca” o que havia entendido de um texto sobre Bourdieu ou sobre Marx para depois perguntar à um aluno sua posição e estrondosamente aplaudir o segundo.  

Estas professoras, hoje aposentadas, formavam uma geração de feministas cuja prática era um tanto distante do discurso. A segunda memória nunca esquecida eram as carreiras universitárias e gênero. Não apenas elas deixavam de avançar, enquanto os professores com os quais eram casadas, avançavam. Raramente assumiam cargos de chefia, raramente eram reconhecidas por seu “brilhantismo intelectual”. Parecia mesmo que este termo era como uma mesa reservada na qual apenas os homens sentavam. E foi em uma destas mesas que conheci o professor Boaventura interessado no fenômeno do orçamento participativo. E pela lógica dos fatos, a recepção de seu trabalho em Porto Alegre juntava-se a vitalidade do Fórum Social Mundial de 2001. Mas como não se pode ter um outro mundo sem mudanças concretas, as questões de gênero e raça entraram na agenda das Universidades para estraçalhar amizades, impor limites aos privilégios e exigir democracia de fato.  

Creio que o choque geracional vivido passa pelo fato que vivemos tempos incompreensíveis para pesquisadoras que entoavam a necessidade de distância do mundano (segundo as bancas de avaliação, a necessidade de trabalhar e a falta de sustentabilidade eram incompatíveis com o pensamento). Era incompatível para alunos pobres, a organização em movimentos sociais. Era inaceitável que se resgatasse os livros mais importantes de Florestan. Fiz uma graduação em ciências sociais sem ler este autor. Que conheci apenas ao estudar raça e racismo orientada por um professor cabo verdiano.  

A mudança geracional expõe as formas de assédio e o quão fundo elas tocam nas estruturas da Universidade. Como não lembrar da luta pela implementação das ações afirmativas? Professores chorando, batendo portas, antropólogos passando a militar contra a aprovação das mesmas, alegando ser este um problema importado dos Estados Unidos. Mas como os fatos não podem ser negados, e este é um princípio científico, bastava olhar para ausência de alunos e docentes negros nas Universidades em todo o país para perceber que algo ia muito mal. Avançamos nesta pauta, sem poder arrefecer um dia sequer da luta pela manutenção e ampliação da presença de docentes não brancos nas Universidades. Já sabemos que nenhuma Universidade perdeu seu prestígio por isto, ao contrário de declarações dadas por reitores assustados com a possível popularização destes espaços. Vejam como uma perspectiva historicamente assumida nestas instituições associou raça e inteligência.  

Como disse um professor à uma aluna negra que tentava o mestrado, “a graduação já não está de bom tamanho”. Ou em meu caso, a comparação com a atriz Woopi Golberg, em Mudança de Hábitos ou uma comparação com os pubs de Oxford nos quais alunos eram fiscalizados por policiais quanto ao consumo de álcool. Eu tinha a melhor prova daquela seleção e fui tratada de uma forma tão desrespeitosa em minha entrevista que decidi ir até Oxford ver o mundo. Enviei uma mensagem para uma das mais destacadas pesquisadoras em análise de discurso da UFRGS lembrando do ocorrido. Ela respondeu, feliz por minha estadia, mas sem lembrança da entrevista.  

A dificuldade em tratar das formas de assédio às alunas (e alunos) reside na negação de sua existência enquanto instrumento de poder. Essa negação já não se dá como nos tempos em que Chauí foi formada, quando o tema sequer era colocado em questão. Todos sabemos o quão terríveis eram as relações, os casamentos e os plágios envolvendo intelectuais. Hoje, a negação ocorre porque o reconhecimento abalaria a própria existência da Universidade. Como Marilena poderia admitir os fatos após ter feito uma defesa tão absurdamente apaixonada de um amigo globalmente conhecido? O que restaria de suas próprias certezas? Essa negação, por sua vez, abre espaço para o ataque às vítimas – e é isso que ela faz: persegue, constrange, abre sindicâncias, expõe a vida pessoal e ataca os mais próximos. Esses recursos não são apenas expressão de um poder ditatorial e ilegal, mas constituem, de forma didática, um mecanismo para manter em silêncio a maior parte da categoria docente, que prefere restringir-se a assuntos pessoais e votar em candidatos progressistas. Contradição após contradição. 

O mecanismo é simples: perseguição contra às vítimas, defesa dos assediadores. 

Quantas docentes e alunas que acessam este texto viveram situações que desencadearam medo, depressão, abandono do curso, pensamentos suicidas ou normalização de assédio. Sem a possibilidade de tornar pública sua dor?  Nem sempre se pode acessar um sindicato forte como ANDES. Assim como na política, alguns sindicatos são eternamente dirigidos por homens que fazem coro ao assédio. Não porque sejam necessariamente assediadores, mas porque não enxergam o lugar deste tema nas discussões urgentes da conjuntura nacional. Não acham que o gênero importe dentro da classe. Fazem uma defesa retórica sem nenhum compromisso concreto quanto a paridade de representação. 

Da mesma forma, não temos reitoras mulheres. E muitas vezes, as que ocupam tais cargos, sem a formação adequada ou comprometimento com o tema, agem para reprodução destas formas de violência. Ou utilizam-se do cargo para negar que o fazem, usando meios jurídicos na intenção de demonstrar neutralidade. Um reitor pode ser tudo, menos neutro em uma Universidade que esteja na América Latina. Foi o legado que nos deixou Darcy Ribeiro. 

Após retornar de uma pesquisa na África do Sul, na qual trabalho com duas mulheres ativistas sul-africanas e um professor da Universidade de Brunel, intensifiquei minhas certezas sobre a necessidade de defesa das mulheres no Sul Global. Nos espaços da política, na defesa de sua integridade física e psicológica. Jovens mulheres que hoje asseguram a democracia contra sistemas violentos, corrompidos e que já não podem representar ideais de liberdade ou fraternidade. Porque não basta ser livre sem que haja acolhimento fraterno as dores de gerações que vieram a Ditadura ou o Apartheid. Mas não basta assegurar estes direitos para minha categoria ou para os considerados brilhantes. O nome Universidade expressa nossa vitória sobre tempos horríveis. Ela tem o dever de promover a mudança social. Porque se este debate não for feito neste espaço, ele perde completamente seu sentido.  

É urgente que haja um alinhamento capaz de enfrentar o assédio. Na letra da lei e não do discurso. Podemos fazer isto, devemos fazer isto. Devemos aqueles pais e mães que confiram seus filhos a nós. E devemos aquelas docentes que ruíram buscando a defesa de espaços mais seguros. Não pode haver pensamento crítico onde há medo. 

Quanto a Chauí, tragicamente ela compromete a própria trajetória. Abre mão do pensamento livre e fundamental por uma retórica que desconsidera a mudança social e usa de seu capital intelectual como testemunha de defesa. Nós sabemos que intelectuais brilhantes foram assediadores. Porque nós fomos assediadas. Então ela não precisava se expor. Defender alguns deles neste momento é tentar parar a roda da história ou pior, insistir no retrocesso  

 

Luciane Soares da Silva é natural de Porto Alegre, professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, concluiu mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com pesquisa sobre a lei anti-racismo e seus impactos no Rio Grande do Sul (1998-2001). Doutora em sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com pesquisa de doutorado “Funk para além da festa: um estudo sobre disputas simbólicas e práticas culturais na cidade do Rio de Janeiro”. Principais interesses de pesquisa: racismo, pensamento social brasileiro e cultura urbana contemporânea. Atua nos Programas de Sociologia Política e Políticas Sociaisi do Centro de Ciências do Homem (CCH- UENF). Coordena o Núcleo de Estudos Cidade Cultura e Conflito (NUC). Coordena o projeto de extensão “Maíra: uma proposta de web rádio universitária e latino-americana”. 

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