DEUS CUIDA DE MIM?

Caetano e o “delírio” teocrático

O evangelismo contemporâneo se tornou mais do que uma religião, um dispositivo de mobilização de massas e um dos pilares do autoritarismo

Essa reflexão sobre evangelismo contemporâneo já nasce fora de tempo. Ou melhor: nasce no tempo que me resta. O tempo fragmentado, devorado, espremido entre demandas, tarefas e ansiedades. Tempo de trabalhador, de quem vive nas brechas. E é nesse tempo, o tempo da ruminação, não o da reação, que agora escrevo. Muitos já disseram o que pensam sobre Caetano Veloso ter cantado Deus cuida de mim, de Kleber Lucas, ao lado de Maria Bethânia. Uns defenderam. Outros criticaram. O que me move aqui não é nem a defesa nem o ataque. É uma tentativa de entender o incômodo que me atravessa desde então. Uma angústia que ressurge toda vez que ouço Caetano, que sempre me foi tão caro. Há agora uma aura mórbida. Um desfalecimento. Um mal-estar quase existencial. 

Escuto Caetano desde adolescente. Nasci em 1995, e entre os meus pares, ele nunca foi exatamente popular. Mas havia uma sedução estranha, que me puxava. Um fascínio. Lembro de uma fala dele em que se definia como um liberal inglês. Aquilo, à época, me pareceu coerente. Bonito até. Era diferente. Eu, seduzido por essa aura caetânica, comecei a me interessar pelo liberalismo. Não percebi o quanto aquela brecha podia se abrir para um abismo. De uma hora para outra, estava lendo blogs monarquistas, tropeçando em textos olavistas, me aproximando, sem saber, da extrema-direita nascente. Uma loucura. O que me salvou foi minha formação familiar, petista tradicional. Um certo senso de limite que resistiu à sedução. 

É evidente que Caetano não tem culpa das minhas “escolhas” adolescentes. Ele jamais apoiaria esse tipo de ideologia. Mas é exatamente aí que mora o problema. Não se trata de culpa, mas de ideologia. E não falo nem de política, mas de ideologia como produção, como reprodução do mundo tal como está, como fantasia. Em um mundo paralelo, esse encanto caetânico somado a interpretação da superioridade do liberalismo inglês fez de Rick um monarquista defensor de Olavo, eleitor de Bolsonaro que goza com as declarações de Milei. Cruzes… 

evangelismo contemporâneo
Crédito: Fernando Maia

É preciso dizer, antes de tudo, que não há gesto inocente no campo simbólico. Nenhum. Todo enunciado é ideológico. Não falo aqui de política partidária ou de moral, mas de ideologia como força que estrutura sentidos, organiza afetos e captura corpos. E, muitas vezes, ela opera não pela imposição, mas pela sedução. Está na doçura da forma, no charme da fala, na escolha de uma canção. 

A música sertaneja, em sua versão higienizada (universitária), por exemplo, é um dispositivo ideológico evidente. Promove o agro como horizonte simbólico, afirma a família heteronormativa, fabrica um ideal de Brasil monocromático, disciplinado, branco, viril. E faz isso com eficácia justamente porque o faz com afeto. 

Mas quando a ideologia se apresenta no tom suave de uma oração, embalada pela voz doce de um artista consagrado, ela se torna mais difícil de reconhecer e, por isso mesmo, mais perigosa. 

Por isso me incomoda tanto o silêncio, ou pior, a celebração acrítica do gesto de Caetano. Vi gente dizendo que a esquerda erra ao criticá-lo, que é um erro estratégico, porque ele se comunica com as massas. Oi? Como se comunicar com as massas significasse renunciar ao tensionamento ideológico. Como se Deus cuida de mim fosse apenas uma canção bonita, e não parte de um projeto de dominação religiosa em curso no Brasil. Um projeto que, sejamos honestos, tem como horizonte a teocracia. Não aquela das parábolas brandas, mas a de O Conto da Aia tropical. 

Vivemos hoje uma nova fase da religiosidade no Brasil. Não mais a religião como refúgio íntimo, como consolo privado. Mas como aparato de guerra cultural, como engrenagem de poder. A teologia da prosperidade, o pentecostalismo de consumo rápido, a estética do milagre, o gospel-mercadoria, tudo isso compõe um complexo religioso-midiático que atua diretamente sobre os afetos e os desejos de milhões de brasileiros. E não apenas dos fiéis. 

Esse complexo não opera apenas na Igreja. Ele se infiltra nos programas de auditório, nas novelas, nos discursos de gestores públicos, na linguagem do marketing, nas falas de celebridades. É um projeto de hegemonia. Uma deimopolítica, como tenho chamado (Deimos, deus grego do pânico), em que o medo é o vetor central: medo do inferno, medo do fracasso, medo da “ideologia de gênero”, medo dos “inimigos de Deus”, medo do comunismo, medo da ciência, medo do outro. Medo que não paralisa, mas ordena. Medo que organiza o desejo de submissão. Medo que faz do pânico uma racionalidade política. 

Esse pânico não está apenas na estética religiosa. Ele é a estética. E ele é também a política. Ele é o que conecta, hoje, o fundamentalismo religioso ao ultraconservadorismo de Estado. Ele está nas pautas antiaborto, na perseguição a religiões de matriz africana, no armamento “cristão”, na masculinidade restaurada, na mulher submissa, na criança exorcizada, na escola censurada. A deimopolítica é o regime afetivo que estrutura o Brasil contemporâneo. 

Essa deimopolítica não é uma invenção recente. Ela tem raízes profundas na história da instrumentalização da fé como arma ideológica. Inclusive, destaca-se a importância da atuação de Billy Graham na consolidação do evangelismo de domínio como uma reação direta às aproximações entre cristianismo e marxismo. Em pleno contexto da Guerra Fria, o pensamento evangélico passou a identificar no comunismo um inimigo estratégico. Essa oposição ideológica lhe rendeu apoio político e institucional por parte da burocracia estatal norte-americana, que viu no evangelismo uma aliada na contenção do avanço socialista. 

A cultura evangélica estadunidense, ao celebrar a masculinidade combativa inspirada nos heróis dos westerns e nas figuras icônicas de Hollywood como John Wayne e Roy Rogers, produziu um evangelismo que misturava religião e ideologia bélica. Essa construção idealizava um homem cristão valente, pronto para empunhar a espada contra as supostas forças do mal, como o comunismo e as correntes progressistas dentro dos Estados Unidos e no mundo. Ao substituir o Cristo dos evangelhos por um Cristo guerreiro, esse modelo modificou profundamente a imagética religiosa, transformando a cruz em símbolo de poder e vigilância em vez de redenção humilde. 

Essa estética da virilidade combativa atravessou fronteiras e se atualizou no cenário gospel latino-americano por meio de uma performance pastoral que combina símbolos da religiosidade com códigos de masculinidade rude. Os pastores midiáticos encarnam um tipo de macho urbano-rural: vestem ternos ajustados, mas de corte duvidoso, camisas folgadas, cintos largos, botas de couro e, frequentemente, ostentam barba espessas e cabelos bem alinhados. Um look de empresário de segunda ordem, ou melhor, o vaqueiro que se arrumou para “resolver negócios” na cidade. Essa estética comunica força, ordem, poder, não apenas espiritual, mas também moral e territorial. E serve como extensão visual da doutrina que pregam. Um evangelho do domínio, da conquista e da autoridade masculina. A ornamentação do corpo, os gestos performáticos e o vocabulário belicoso reafirmam esse projeto, onde o púlpito se converte em palanque e o pastor em uma espécie de CEO de Cristo, comandante moral de um exército de fiéis disciplinados. 

Nos últimos anos, contudo, essa estética da masculinidade rude, marcada por códigos visuais do vaqueiro urbano e do empresário periférico, tem sido tensionada pela influência das chamadas Churches, igrejas contemporâneas que operam com forte apelo visual e discursivo importado do universo anglófono. Nelas, o púlpito se moderniza: ganha iluminação cênica, palavras em inglês e uma nova paleta de cores neutras e minimalistas. O pastor já não se veste como um “homem do campo”, mas como um CEO globalizado com calça skinny, tênis de marca, camisetas ajustadas, relógios importados. A estética do “ator-empresário” toma o lugar do “vaqueiro evangélico”: menos barro, mais branding. Esse novo estilo não nega a virilidade, mas a refina e a embala sob códigos de consumo aspiracional, onde a autoridade espiritual se traduz em lifestyle. Trata-se, assim, de uma disputa entre dois regimes de imagem da masculinidade cristã: um ancorado na força bruta e outro na performance gerencial e cosmopolita da fé. 

Voltando para a questão histórica. No contexto da Guerra Fria, esse evangelismo patriarcal serviu como coadjuvante ideológico ao expansionismo político e cultural norte-americano, instrumentalizando o medo do comunismo como ferramenta de mobilização social e legitimidade política. A emergência de uma teologia espacializada nos conflitos, tanto externos quanto internos, ajudou a cristalizar uma narrativa na qual lutar contra o comunismo era visto como uma missão divina. Isso alimentou redes missionárias e de mídia religiosa internacionais, cujos discursos viajavam com força pela América Latina, preparando terreno para alianças entre igrejas evangélicas e regimes autoritários que suprimiam dissensos e freavam movimentos emancipatórios cristãos e sociais  

A construção da masculinidade cristã no século XX está profundamente entrelaçada ao projeto de nacionalismo cristão, que emergiu nos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. Diante do medo fabricado de uma ameaça comunista global, apresentada não apenas como anticapitalista, mas como anticristã, anticultural e antiamericana, os evangélicos foram mobilizados como soldados simbólicos de uma cruzada espiritual e ideológica. O comunismo passou a ser enunciado como o mal absoluto, a antítese da “liberdade religiosa” e do “estilo de vida americano”, e os líderes evangélicos não apenas aderiram a esse imaginário como também o amplificaram em nome de uma missão divina. Nomes como Billy Graham se destacaram nesse cenário, articulando cruzadas evangelísticas com retórica anticomunista, enquanto atuavam como agentes de exportação dessa ideologia ao Sul global, inclusive ao Brasil, transformando o evangelismo estadunidense em instrumento de soft power 

A fé, assim como o cinema de Hollywood, tornou-se componente estratégico da indústria cultural americana, servindo como propaganda da supremacia moral dos Estados Unidos em sua “guerra espiritual” contra o eixo do mal. A estética e a retórica dessa masculinidade evangélica, beligerante e moralista, encenavam a figura do homem cristão como protetor da família, da pátria e da fé, fundando um ethos que combinava virilidade militarizada com fervor religioso. Se alguns líderes evangélicos foram de fato seduzidos por esse imaginário, outros souberam instrumentalizá-lo para garantir poder e relevância, consolidando um projeto masculinista, branco e nacionalista que hoje domina a política religiosa cristã global. 

Nessa região, o evangelismo de domínio não apenas serviu como instrumento ideológico de legitimação das ditaduras, como também atuou ativamente para conter os avanços da Teologia da Libertação, no campo católico, e da Teologia da Missão Integral, entre setores evangélicos, ambas expressões de um cristianismo comprometido com as demandas sociais, a justiça e o protagonismo das classes proletárias. O que se impôs, no lugar dessas vertentes emancipatórias, foi um cristianismo da obediência, da vigilância e da cruz erguida como símbolo de poder punitivo. 

O evangelismo estadunidense construiu uma narrativa de masculinidade marcial com raízes profundas na cultura nacionalista branca, refletindo ideais que vão além da religião e se entrelaçam com a própria identidade política do país. Kristin Kobes Du Mez expõe em sua análise como esse modelo foi sistematicamente consolidado por meio de uma teologia patriarcal que exaltava figuras como John Wayne e Ronald Reagan como arquétipos de coragem, liderança e poder. Em sua obra, Jesus e John Wayne: como o evangelho foi cooptado por movimentos culturais e políticos, ela argumenta que, ao longo de quase 75 anos, esse evangelismo foi redefinindo a fé cristã com base em masculinidade agressiva, refletindo diretamente as ansiedades da Guerra Fria e a busca por estabilidade frente ao imaginado avanço comunista. 

Nesse contexto, Du Mez mostra que essa fusão entre fé religiosa e ideologia política acabou legitimando um estilo de liderança autoritária dentro das comunidades evangélicas, que se tornou modelo para a própria política nacional. A crença em uma “América cristã” conduziu à produção cultural e religiosa que reforçava a figura do cristão como guerreiro moral, pronto para combater inimigos externos e internos. Essa religião da virilidade funcionou como dispositivo simbólico que não apenas reforçou o nacionalismo branco, mas também orientou a cooptação de igrejas tradicionais como bases de apoio a regimes autoritários, ao passo que desacreditava contestações teológicas mais críticas e sociais  

Claro que o campo evangélico é plural. É óbvio que há disputas. Kleber Lucas, pastor batista negro, oriundo da periferia e “com respeito pelas culturas de matriz africana” (como foi amplamente circulado nas defesas de Caetano), é parte dessa complexidade. Mas a pergunta que me faço é: o que significa colocar essa música em circulação naquele palco, naquele momento?  

Foi nesse contexto que Caetano escolheu cantar Deus cuida de mim. E não o fez sem intenção. Ele mesmo afirmou que se trata de um gesto deliberado, uma tentativa de colocar o público “progressista” em contato com a realidade evangélica. Disse que cantar o louvor do pastor Kleber Lucas era uma forma de expor seu interesse pelo fenômeno religioso. E que esperava que isso criasse “conversas que não costumam se dar”. 

A pergunta é: com quem se conversa? E com que efeitos? 

A resposta me chegou pelo WhatsApp. Amigos e parentes evangélicos me enviaram mensagens comparando Caetano a uma jumenta bíblica, aquela que Deus usou para falar. Houve quem dissesse: “Deus tocou no coração dele, um ateu convicto.” Como sou ateu, percebi que havia ali uma esperança velada e um implícito. Um convite. Uma interpelação. Um recado: “o próximo jumento pode ser você”. 

E é aí que o gesto simbólico mostra sua força. Aquele canto de Caetano não criou fissuras no discurso evangélico dominante. Não gerou questionamento. Gerou confirmação. A mensagem que ficou foi: até Caetano se dobrou ao poder de Deus. Até ele reconheceu. O gesto que parecia sofisticado – um “ato poético de conciliação” – virou, para muitos, sinal de confirmação da mitologia evangélica. 

Esse fenômeno sedutor precisa ser dissecado com radicalidade. A expansão global do evangelismo conservador não se deu apenas como fenômeno religioso, mas como uma estratégia ideológica de alcance transnacional. Por meio de redes missionárias, mídia religiosa e alianças políticas, essa vertente do cristianismo difundiu um modelo identitário que reforça a autoridade masculina, a hierarquia familiar, a disciplina social e o nacionalismo. Em diferentes países, esse evangelismo se alinhou com forças da extrema-direita, servindo como plataforma cultural para agendas autoritárias, contrárias aos direitos das mulheres, das populações LGBTQIA+, dos imigrantes e das minorias raciais. A fé passou a ser instrumentalizada como ferramenta de controle social e legitimação de projetos políticos regressivos. 

No centro dessa configuração está a ideia de que a religião deve moldar a política, os costumes e a moral pública. Essa concepção teológica produz um cristianismo de guerra, simbólica e real, contra qualquer forma de dissenso que ameace a “ordem” desejada por seus líderes. Trata-se de uma religião voltada para a manutenção de privilégios, que glorifica a força, rejeita a compaixão como princípio político e considera a justiça social como ameaça à fé verdadeira. Em vez de denunciar as estruturas de opressão, esse evangelismo as santifica, fornecendo base emocional, moral e espiritual para projetos autoritários e neoliberais ao redor do mundo. 

E aí volto ao ponto inicial. Não há enunciado inocente. E a idolatria a certas figuras públicas, a caetonofilia, digamos, impede que se faça uma crítica honesta. O charme de Caetano, sua ambiguidade, sua genialidade estética, produzem uma blindagem simbólica. Uma blindagem que o protege da crítica. Dizer que ele “dialoga com as massas” não deveria nos impedir de perguntar: com qual projeto de mundo está dialogando? E quais fantasmas alimenta? 

Não estou dizendo que Caetano alimentou o bolsonarismo. Longe disso. Ele é, inclusive, uma das vozes mais coerentes na denúncia do autoritarismo. Mas, como dizia Althusser, os aparelhos ideológicos de Estado não precisam de coerência. Precisam de efeito. E o efeito do gesto de Caetano foi o de reforçar a naturalização de um discurso religioso que se tornou dominante, violento, invasivo. Um discurso que já não pede espaço: toma. Um discurso que está colonizando até mesmo os lugares simbólicos antes vistos como “críticos” ou “progressistas”. 

A força atual do evangelismo não está apenas em sua presença massiva, mas na forma como conseguiu se reinventar como vanguarda moral em tempos de crise. Longe de ser um bastião de conservadorismo passivo, ele se construiu como um movimento reativo e combativo, moldado por batalhas culturais. Sua identidade contemporânea foi forjada em confronto direto com duas figuras que se tornaram, para ele, ameaças existenciais: o comunista e a feminista. Não se trata apenas de preservar valores tradicionais, mas de travar uma guerra simbólica contra tudo aquilo que represente autonomia popular, redistribuição de poder e questionamento das hierarquias patriarcais. 

Essa religiosidade militante passou a operar como uma fábrica de identidades feridas. Uma pedagogia do ressentimento que ensina seus fiéis a se sentirem atacados, perseguidos, silenciados; mesmo quando são eles que ocupam as estruturas de poder. Esse vitimismo estrategicamente construído se converte em combustível para ações políticas ofensivas. A ideia de que “cristãos estão sendo perseguidos” legitima a censura, a violência simbólica, a repressão institucional. Sob a lógica da cruz, o ataque vira defesa. E qualquer crítica é lida como tentativa de destruição da fé, da família, da pátria, de Deus. 

Essa gramática do medo e do conflito permanente tem sido extremamente eficaz em capturar afetos populares, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e econômica. O evangelismo contemporâneo oferece, nesse cenário, não apenas consolo, mas sentido. Um enredo. Um inimigo. Uma missão. Ao organizar o mundo em termos de batalha espiritual, ele oferece uma narrativa simples, emocionalmente potente e politicamente funcional para a manutenção das desigualdades. É por isso que se tornou, mais do que uma religião, um dispositivo de mobilização de massas e um dos pilares mais eficientes do autoritarismo do presente. 

Vejo em muitos setores da esquerda uma rendição melancólica a esse poder. A ideia de que não se pode mais criticar os evangélicos, porque são “o povo”. A aceitação de que disputar esse campo significa se adaptar a ele. Como se fosse possível disputar hegemonia sem tensionar os antagonismos reais. Como se fosse possível construir uma nova imaginação política dizendo “amém”. 

Talvez o que tenha seduzido Caetano fora a rede de solidariedade. Porque, mais do que dogmas, o evangelismo de domínio oferece amparo. Oferece pertencimento. E isso não é pouca coisa num país fraturado, onde o Estado se faz ausente e a violência estrutural corrói os laços. Quando alguém entra numa dessas igrejas, o que se apresenta não é apenas uma nova crença, mas uma nova vida. O processo de conversão muitas vezes implica a ruptura com os vínculos anteriores: amigos, família, afetos, referências culturais. Tudo é esvaziado para que um novo sujeito seja forjado: o “recuperado”, o “transformado”, o “renascido”, o “novo convertido”.  

Essa nova identidade é cimentada por uma rede de solidariedade intensa, construída a partir da lógica do “corpo de Cristo”, mas traduzida em práticas muito concretas: acolhimento, escuta, doação, ajuda financeira, inserção no trabalho, apoio emocional.  

No lugar desse vazio, entra a igreja como comunidade total. Uma nova linguagem, uma nova moral, uma nova família. Uma rede de escuta, ajuda mútua, disciplina e reconhecimento. Essa estrutura oferece sentido num mundo que perdeu o sentido. E faz isso justamente onde o Estado falhou: na assistência, na saúde mental, na fome, na escuta, na presença. Mas não o faz como política pública, faz como milagre. A ajuda não vem como direito, mas como bênção. E o que se produz não é cidadania, mas fidelidade. Gratidão. Obediência. 

É preciso compreender que essa rede não é apenas religiosa. Ela é também afetiva, material e simbólica. Enquanto setores progressistas oferecem crítica, as igrejas oferecem colo. Enquanto oferecemos análise, elas oferecem abraço, palco, comida, pertencimento. E isso precisa ser levado a sério. Porque no jogo ideológico contemporâneo, quem organiza o afeto organiza o poder. E talvez Caetano, em sua sensibilidade, tenha captado isso, não racionalmente, mas no corpo. Talvez, ao cantar Deus cuida de mim, ele tenha sido tocado não pela teologia, mas pelo laço. O problema é que, nesse laço, há também nó. E esse nó aperta. 

E se, um dia, os evangélicos tomarem o poder de forma aberta, sem subterfúgios, sem cinismo, assumindo o controle do Estado, como sonham muitos líderes religiosos, talvez a gente entenda que aquele Deus cuida de mim era também um anúncio. Uma espécie de canto profético às avessas. 

Não me move desprezo pelo povo evangélico. Mas me move o desprezo ativo e consciente por esse projeto de dominação que se esconde sob a capa da fé. Esse projeto que, hoje, é um dos principais inimigos da classe trabalhadora latino-americana. Esse projeto que não pode ser normalizado, nem mesmo, e talvez sobretudo, quando aparece na voz de quem a gente ama escutar. 

O que me interessa aqui não são as individualidades, mas os efeitos. As estruturas. As ideologias em movimento. Porque, ao contrário do que dizem, criticar o gesto caetânico não é expressão de um intelectualismo arrogante. É análise da realidade. É luta por imaginação política. Não se trata de intelectualismo. Mas de compreender a realidade material. Disputar afetos. Tensionar estruturas. Romper com o consenso da fé como único horizonte simbólico legítimo. Fazer alianças, sim. Mas alianças que não confundam disputa com assimilação. 

Sei que o campo evangélico não é monolítico. Está em disputa. E essa disputa não pode ser obscurecida por uma leitura simplista que atribui ao cristianismo evangélico um caráter essencialmente conservador ou reacionário. Seria um erro político e analítico. Há, sim, tensões fecundas entre cristianismo e marxismo, entre fé e justiça social. Há comunidades que resgatam os valores de solidariedade, partilha, libertação e denúncia da desigualdade como expressões autênticas do evangelho. Há evangélicos radicalmente comprometidos com a justiça econômica e os direitos humanos, gente que lê o sermão da montanha como crítica materialista ao capitalismo, e que vive sua fé como prática revolucionária. 

Além disso, no próprio contexto da América Latina, a história revela a complexidade desse campo. Durante as ditaduras militares, por exemplo, o evangelicalismo não foi apenas ferramenta de legitimação dos regimes. Como mostra a tese de Daniel Augusto Schmidt, ele também expressou uma impressionante polivalência. Em meio ao autoritarismo, houve evangélicos (assim como católicos) que denunciaram a tortura, participaram de ações de solidariedade e produziram leituras críticas da bíblia em chave libertadora. Mesmo dentro das tradições mais conservadoras, emergiram vozes que tensionaram o projeto de poder dominante, provando que a religião não é apenas aparelho, mas também campo de contradições e brechas. 

Contudo, não se trata de afirmar um suposto excepcionalismo progressista dentro do campo religioso. Essa postura, embora bem-intencionada, corre o risco de funcionar como álibi. Um gesto que aponta para exceções isoladas enquanto silencia o fato incontornável de que a hegemonia teológica hoje, evangélica e parece-me que a católica também, é uma teologia de domínio. Uma teologia que legitima a desigualdade, naturaliza a autoridade masculina, reforça o moralismo punitivo e serve, na maioria das vezes, como suporte simbólico para projetos autoritários. É claro que existem disputas, contradições, frestas. Mas elas são marginais. E são marginais porque foram sistematicamente combatidas, neutralizadas, expulsas. O que venceu, até aqui, foi a religião como aparelho não como rebento de libertação. 

Por isso, romantizar a presença popular nas igrejas sem analisar os efeitos concretos dessa adesão é, também, uma forma de cegueira. A fé não é, em si, um problema. Mas é preciso perguntar: que fé? A serviço de que projeto? A moldar que subjetividades? O progressismo não errou por abandonar os pobres à fé. Errou por não disputar o sagrado. Por não compreender que a luta simbólica é parte constitutiva da luta de classes. E que, enquanto isso for ignorado, os corpos continuarão sendo disciplinados não pela esperança da justiça, mas pelo medo do inferno. 

Caetano é um dos maiores artistas da história do Brasil. Mas também é um corpo discursivo. Um dispositivo de significação. Um lugar de afeto, mas também de ideologia. E por isso precisa, e merece, ser criticado. Sem ódio. Sem desprezo. Mas com coragem. 

Caetano, tempos atrás, afirmou que abandonou o liberalismo inglês que o havia encantado na juventude. Que se aproximou de autores como Jones Manoel e Domenico Losurdo. Que reconsiderou a Revolução Francesa e a Revolução Soviética. Que estava “mais à esquerda de si mesmo”. Isso me dá alguma esperança. 

Mas Deus cuida de mim me quebra um pouco. 

Não por Kleber Lucas. Não por evangélicos. Não por religião. Mas pelo efeito ideológico de um gesto que, embora bem-intencionado, reforçou a dominação simbólica de um projeto que está nos levando para o abismo. Um projeto teocrático, misógino, racista, punitivista, ultraliberal, anticientífico. Um projeto que constrói uma realidade em que mulheres são silenciadas, crianças são disciplinadas pela dor, pobres são culpabilizados pela própria miséria, e os corpos dissidentes são perseguidos em nome de Deus. 

E sim, Caetano ainda me comove e fascina. Mas agora a admiração vem acompanhado de um desconforto: o de saber que o encantamento também pode ser cúmplice. 

Porque se o medo é hoje o eixo da política, precisamos recusar o consolo fácil de que Deus cuida de mim. Precisamos de outro canto, um que não seja consolo, mas convocação. E de um mundo onde o medo não seja o nome de Deus. 

 

Rick Afonso-Rocha é doutor em Letras: Linguagens e Representações (UESC), professor da rede pública de educação do Estado de Pernambuco. Advogado, anarquista e pesquisador independente. 

 

Referências 

AFONSO-ROCHA, Rick. O perigo cor-de-rosa: ensaios sobre deimopolítica. Salvador: Devires, 2021. 

BRASIL 247. Caetano Veloso revela que abandonou o liberalismo após conhecer Jones Manoel Publicado no site Brasil 247, em 05 de setembro de 2020. Disponível em:
https://www.brasil247.com/cultura/a-bial-caetano-diz-ser-menos-liberaloide-e-nao-ter-mais-raiva-do-socialismo 

CASTRO, André. Deus cuida de Caetano Veloso? Publicado no site A Terra é Redonda, em 03 de novembro de 2024. Disponível em:
https://aterraeredonda.com.br/Deus-cuida-de-caetano-veloso/ 

DU MEZ, Kristin Kobes. Jesus e John Wayne: como o evangelho foi cooptado por movimentos culturais e políticos. Thomas Nelson Brasil, 2022. 

LEAL, Claúdio. Aos 80, Caetano nunca foi tão de esquerda. Publicado na Revista Ilustríssima (Folha de S.Paulo), em 06 de agosto de 2022. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/08/aos-80-caetano-nunca-foi-tao-de-esquerda.shtml 

PAULA, Daniel Carvalho de. Caetano canta música evangélica e o erro estratégico de setores progressistas. Publicado no site Canal Mynews, em 04 de junho de 2025. Disponível em: 

https://canalmynews.com.br/brasil/caetano-canta-musica-evangelica-e-o-erro-estrategico-de-setores-progressistas/ 

SCHMIDT, Daniel Augusto. O protestantismo brasileiro: entre a colaboração e a resistência no período da ditadura civil e militar (1964-1974). 2015. 354 f. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Faculdade de Humanidades e Direito, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2015.  

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