NÃO VALORIZAMOS NOSSA PRÓPRIA LITERATURA OU A PRODUÇÃO LITERÁRIA QUE DESTACA NOSSA CULTURA

Por menos Dan Brown e mais Luiz Alfredo Garcia–Roza

Por qual motivo exaltamos tanto Dan Brown e não valorizamos autores nacionais com esse mesmo perfil de escrita? Por que exaltamos Dan Brown e deixamos de lado Luiz Alfredo Garcia-Roza, por exemplo?

Meus amigos próximos sabem: sou apaixonado por dramas que envolvem mistérios, descobertas, simbolismos e reviravoltas no final da obra. Não apenas me considero fã da literatura do estadunidense Dan Brown, que lançou no mês de setembro a última saga de Robert Langdon, mas consumidor voraz. Ainda não comprei este último, mas confio na qualidade da obra. Acreditem, sou grande admirador de suas ficções. Tive a oportunidade de refazer cada passo de seu protagonista, especialista em simbologia e quase um alter ego do saudoso intelectual italiano Umberto Eco, nas Igrejas e locais destacados em Anjos e Demônios, situado em Roma durante um conclave. Realmente, é uma experiência única refazer os passos dos personagens de uma obra que você leu com vontade, independente da ficção e da localidade. Porém, numa das rodas de conversa com outros admiradores desse tipo de literatura, surge um impasse: por qual motivo exaltamos tanto Dan Brown e não valorizamos autores nacionais com esse mesmo perfil de escrita? Por que exaltamos Dan Brown e deixamos de lado Luiz Alfredo Garcia-Roza, por exemplo? Certamente porque valorizamos o que vem de fora, o que está em evidência pela mídia, e não temos interesse em buscar novas leituras, em especial as nacionais 

Costumo dizer que muitos psicanalistas se tornam bons romancistas, inclusive poderia destacar inúmeros, mas separo um justamente pelo tema ser a valorização da nossa cultura: Luiz Alfredo Garcia-Roza, professor, filósofo e psicanalista, carioca com inúmeras obras no campo da psicologia, adentra a ficção pelas portas do romance policial. Seus romances poderiam ser localizados em qualquer parte do mundo, obviamente, mas foi no Rio de Janeiro que o autor quis situá-los. A crítica não reside em questões de classe, mas na particular relação entre os opostos na cidade: na zona sul, por exemplo, o turista estrangeiro caminha paralelamente com o favelado, ou o hóspede do Copacabana Palace atravessa no mesmo sinal que o morador do Cantagalo. Essa “ambiguidade” tão evidente na cidade do Rio, marcada pela disparidade social e contradições econômicas, faz surgir um fenômeno digno de uma excelente leitura. Todavia destacamos a inclinação natural em desvalorizarmos até mesmo esse fenômeno ímpar, em prol de uma idealização do outro como perfeito, atrativo e legítimo. E aqui não falo do outro como sujeito, mas como representações que fazemos sobre os produtos de fora. Seria cômodo e até compreensível, se por acaso Garcia-Roza preferisse ambientar seus livros em cenários menos singulares como Copacabana, Catete ou Centro do Rio, e preferir por assim dizer fazer “mais do mesmo”. O destaque seria melhor, quem sabe, pelos leitores brasileiros que vislumbram cenários londrinos ou parisienses, com enredos que valorizam a cultura européia e reforçam o eurocentrismo em que fomos doutrinados desde a colonização.  

 Luiz Alfredo Garcia–Roza. Ele está em frente de uma estante de livros, sentado em uma cadeira.
Crédito: Bel Pedrosa/Divulgação

Quais são as faces da ficção de Garcia-Roza dignas de destaque? Por qual motivo analisar e pôr em evidência seus escritos ficcionais é valorizar nossa escrita nacional? O que podemos destacar nos escritos do psicanalista carioca? 

Uma das marcas de sua escrita é a profundidade com que ele mergulha na psicologia dos protagonistas. Acostumamos a ter reviravoltas em finais eletrizantes, como nos livros de Dan Brown, verdadeiros estimulantes de adrenalina, mas os de Garcia-Roza não ficam para trás, pelo contrário. Além do mais, em suas obras notamos que as questões existenciais dos personagens estão entrelaçadas com a narrativa da história. O leitor degusta e questiona não apenas o desfecho do mistério criado pelo autor, mas também as complexidades e singularidades da alma humana. O Louvre dá vez à Praia de Copacabana; a Champs-Élysées dá lugar a Barata Ribeiro. Não que uma seja melhor que a outra, ou mais importante, mas na última o leitor (ou a maioria) se localiza e participa ativamente da geografia dos personagens. “Eu sei onde fica”, “passei por lá” ou “é caminho pro trabalho”, frases que são mais comuns de serem ouvidas depois de ler o romancista carioca. Isso transforma os personagens, tirando-os de um limbo ficcional e possibilitando a sensação de proximidade, deles com o leitor. Uma amizade “quase virtual”. 

Destaco algumas das suas criações literárias, como O Silêncio da Chuva, vencedor do prêmio Jabuti em 1997, Uma Janela em Copacabana e Vento Sudoeste. Essas obras não são meras histórias policiais, mas cativam pela capacidade em produzir reflexões profundas sobre a condição humana, a solidão e os dilemas morais que permeiam nossas vidas. O protagonista da maioria de suas obras, o Delegado Espinosa, o “Robert Langdon sem tanta grife”, convive com seus dilemas internos, seus traumas, sua solidão com o passar dos anos. Ele mora no Bairro Peixoto, num prédio de três andares, em Copacabana. Seu maior sonho é abrir uma livraria (ou sebo, como dizemos muito aqui no Rio) e ficar lá, imerso nas fantasias das letras. Ele trabalha na 12ª delegacia da rua Hilário de Gouveia, em Copacabana, e no transcurso diária para sempre diante de uma pequena livraria. Fica namorando as inúmeras obras ali. Seu mundo era entre o Leme e Copacabana e, de vez em quando, escapava para Ipanema ver Irene, seu amor.  

Diferente do que costumamos a ver, Espinosa era a antítese do estereótipo do homem da lei brasileiro: culto, ético e especialista na arte de observar o comportamento humano. Concomitante, Espinosa está ambientado num Rio de Janeiro que foge dos estereótipos comuns, explorando seus dilemas e particularidades, sem deixar de apresentar as contradições sociais de um lugar que convive com a pobreza e a riqueza, entre turistas e desvalidos, os moradores dos condomínios e os das favelas que circundam os bairros da zona sul. A exposição desses temas induz o leitor à reflexão e crítica dos contrastes sociais existentes em nosso país e em nossa cidade (direciono aos cariocas, em especial). Garcia-Roza se utiliza da literatura e do romance policial, que sai do estereótipo meramente justiceiro, para destacar essas mazelas que são escancaradas, mas poucos possuem a sutileza na exposição. Outra questão: mesmo Espinosa encarnando um delegado moral, ético e incorruptível, assim como seu braço-direito, o jovem investigador Weber, o autor não deixa de expor o oceano de corrupção na policia carioca, tanto militar quanto civil. Espinosa e Weber são referências, ou uma idealização ficcional, mas estão imersos na realidade carioca.  

Pois bem, lutamos e reforçamos a ideia de uma soberania nacional, legítima e integral, tanto nas esferas política, social e econômica, mas não valorizamos nossa própria literatura ou a produção literária que destaca nossa cultura. A “síndrome de vira–lata”, termo criado pelo famoso escritor pernambucano Nelson Rodrigues, destaca a postura de inferioridade de muitos brasileiros com relação a outras nações, levando–os a desvalorizar sua própria cultura e exaltar apenas o que vem de fora. Por isso, o lançamento de Dan Brown é tão aclamado, sem desvalorizar o conteúdo de sua obra, mas o marketing dos produtos externos são a alma do negócio. É difícil valorizar o que temos de bom. Ou, como está no dito popular, “santo de casa não faz milagre”.  

Eu garanto: se valorizarmos nossa literatura como idolatramos as letras vindas de outros países, Garcia-Roza estaria no mesmo patamar de admiradores de J.K; Rowling, com o adendo de não pensamentos problemáticos e escusos. 

Leiam e tirem suas conclusões. E viva Garcia-Roza ! 

Railson Barboza é bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Doutorando e Mestre em Política Social (UFF). Imortal da Academia Fluminense de Letras. 

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