QUANDO O RITO SUPLANTA A HONESTIDADE

A fragilidade da liberdade no sagrado

Entre fé e desencanto, o convento revela as fragilidades do humano sob o hábito do sagrado

É no interior das instituições que se proclamam “morada da verdade” que muitas vezes se experimenta o mais profundo desencanto. A vida conventual, que deveria ser espaço de franqueza e partilha, revela-se, em certas circunstâncias, como uma trama de silêncios, jogos de poder e gestos de ocultação. Ali onde se espera a graça da transparência, descobre-se a opacidade das conveniências humanas.

O que mais fere não é a ausência de fé, mas a constatação de que, sob o hábito do sagrado, subsistem as mesmas fragilidades que regem o mundo profano: vaidade, disputa, recusa em se expor à verdade. Nesse cenário, a promessa de uma vida plena de sentido se mostra, pouco a pouco, como uma via estreita, incapaz de se prolongar quando marcada por contradições tão evidentes.

Crédito: Tiago Sousa

Bento Spinoza já advertia que a liberdade não nasce da obediência cega, mas do exercício da razão e da honestidade consigo mesmo. Onde se instaura a dissimulação, o ser humano se afasta de sua própria potência de existir. O convento, em vez de ser um espaço de expansão da alma, arrisca-se a tornar-se um dispositivo de diminuição, no qual a vida se retrai em vez de florescer.

Mais do que um conflito individual, o que se desenha é a percepção de que essa escolha de vida não pode ir muito longe quando, no coração do silêncio, germina a falta de verdade. A humilhação, nesse contexto, não é apenas pessoal, mas filosófica: é o reconhecimento de que a honestidade, condição primeira da liberdade, não se sustenta em estruturas que preferem o rito à franqueza.

Talvez a liberdade não resida em obedecer ao rito, mas em reconhecer que a verdade, mesmo no sagrado, é sempre uma construção frágil, a ser sustentada por cada um.

 

Clécia Rocha é jornalista, natural de Feira de Santana, Bahia, que pesquisa a comunicação como ferramenta de cuidado. Ativista dedicada aos cuidados paliativos, une sensibilidade e compromisso social em suas narrativas. Qualificada como cuidadora de idosos, atua na interface entre comunicação, direitos humanos e cuidado, buscando dar voz às histórias invisíveis e fortalecer o protagonismo humano em contextos de vulnerabilidade.

 

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