ENTREVISTA

Healing Fiction, ancestralidade e crítica social: uma conversa com a autora nipo-brasileira Verônica Yamada

Em Tempos Amarelos, a autora reflete sobre sobrecarga de trabalho e traumas familiares no mundo contemporâneo

Em uma atualidade permeada por discursos que exaltam a produtividade, o lucro e o trabalho ininterrupto, o livro Tempos Amarelos (Editora SEDAS, 136 págs.), da autora nipo-brasileira Verônica Yamada traz em seu enredo uma reflexão sobre a desumanização e o adoecimento da cultura da hiperprodutividade. Partindo de um cenário distópico, a narrativa trata de tópicos como o peso do estereótipo associados às pessoas amarelas, de ancestralidade e do mal que tem afetado grandes porcentagens da população, o burnout.

Crédito: Divulgação

O enredo desenrola-se em um healing fiction, gênero literário de origem asiática que vem tomando cada vez mais espaço no Brasil, com histórias que abordam temas como culpa, conflitos familiares e dramas no ambiente de trabalho, mergulhando nos impactos emocionais dessas experiências e acompanhando o processo de recuperação psicológica dos personagens.

Crédito: Arquivo pessoal

Confira abaixo uma entrevista pingue-pongue com a autora

Você trata de temas bastante complexos em Tempos Amarelos, como uma relação tóxica com o trabalho, o burnout e a pressão pela perfeição. Por que você decidiu abordar esses temas?

Como nipo-brasileira, passei por algumas situações que pessoas não amarelas podem desconhecer. Por exemplo, ser chamada de “japa” mesmo não gostando, ou as pessoas já acharem que sou inteligente e boa em matemática só pela minha origem. A maioria das famílias amarelas investem muito em educação, mas são bastante frias. Isso causa uma sensação de abandono e negligência parental. Muitos filhos tentam fugir do controle dos pais, mas, ao mesmo tempo, acabam sempre desejando um amor que nunca vem como querem.

Para mais, existem 2 estereótipos de “japas”: os certinhos e os doidos. Os que fazem tudo o que se espera deles e os que fogem completamente disso. No livro, falo sobre esses dois personagens e sobre como esse estereótipo está errado.

Também falo sobre o excesso de trabalho e exigência. Eu mesma já passei por alguns burnout e me sinto sobrecarregada o tempo todo. Queria mostrar que ninguém quer entrar em burnout, mas que nos sentimos sempre pressionados a produzir sempre.

Portanto, este livro traz muito das minhas próprias experiências como pessoa amarela e “burnoutada”.

Por que escolher o healing fiction? Esta é sua primeira experiência escrevendo neste gênero?

Sim, esta é minha primeira experiência com healing fiction e, na verdade, eu não escolhi o gênero, acho que ele me escolheu. Eu comecei a história pensando em escrever uma distopia, porém, no fim, virou uma healing fiction. Além disso, a ficção de cura está se tornando um grande sucesso no mundo todo, mas as obras de healing fiction que importamos da Ásia não trazem todas as questões que vivemos aqui.

E o que torna o gênero healing fiction tão relevante para o momento atual no Brasil?

É um gênero que está em alta no momento. Acredito que as pessoas estão um pouco cansadas de fórmulas prontas. A healing fiction mostra um caminho de cura, não uma fórmula pronta que as pessoas devem seguir. Todo mundo tem seus próprios traumas e problemas e mostrar um caminho pode ser mais interessante do que dizer “faça isso” ou “não faça aquilo”.

Por que o futuro próximo e a distopia tecnológica foram o cenário escolhido para abordar a sobrecarga de trabalho?

Eu amo distopias! É, de longe, meu gênero literário favorito. E o que é mais legal da distopia é que ela mostra um cenário quando tudo dá errado. Para mim, já estamos muito próximos do colapso do modelo de trabalho atual. É por isso que eu coloquei uma data bem próxima. Os números mostram que mais de 30% dos trabalhadores apresentam sintomas de burnout. Isso já é um alerta.

Como o tema da ancestralidade se conecta com a cura emocional na história?

Existe uma cultura muito forte em japoneses que é o “gambatte”, ou “se esforce”. As pessoas não dizem “boa sorte” no Japão. Elas dizem “se esforce”. Ou seja, trabalhe muito para conquistar seus objetivos. Então já existe essa cultura de trabalhar muito. Ao mesmo tempo, existe o Ikigai, que é você encontrar o que você pode fazer para o mundo, no que você é bom, o que você gosta e combinar tudo isso. Acho que a Marina passa por um processo de Ikigai no livro. Ela se mantém honrando sua ancestralidade, mas de outro jeito.

Então você já abordou traumas em outras de suas obras, certo?

Esta não foi a primeira vez que escrevo sobre traumas. Convivendo com muitas pessoas amarelas, percebi que a maioria desses traumas vêm da nossa origem. Nossos pais têm dificuldade em mostrar afeto e isso vêm de gerações. Nós sempre temos um vazio, uma espera, um desejo de agradar para que possamos ser amados. Já tinha falado sobre isso em Loucura e Perversidade e em A face obscura de Lívia, mas ambos têm finais “tristes”. Eles me mostraram como escrever sobre traumas e este livro me mostrou como escrever um final feliz.

O que motivou a escrita de Tempos Amarelos? Como sua experiência convivendo com o burnout influenciou no texto? 

O que motivou a escrita do Tempos amarelos foi a recente discussão sobre as IAs e seus malefícios. Comecei a escrever com o intuito de publicar desde 2019, após ter um burnout que me fez ficar afastada do trabalho por 2 meses. Meu burnout me fez entender que não adianta trabalhar muito e ganhar bem para ser feliz. Eu preciso equilibrar melhor todos os aspectos da vida. Assim como a Marina descobriu sua paixão por cuidar de animais, eu também descobri a escrita como forma de cura. O burnout é um grande sinal de que algo não está indo bem e que é hora de repensar suas escolhas.

Quais são as suas influências artísticas e literárias? Quais influenciaram diretamente a obra?

Minhas influências literárias são Machado de Assis, com sua ironia; Kafka, com seu jeito de descrever situações absurdas; e Virginia Woolf, com seu jeito de narrar fluxo de pensamentos. Esses três influenciam diretamente as minhas obras. Posso citar Antes que o café esfrie como referência de healing fiction. Como influência artística posso citar Monet, por conta de sua delicadeza.

Quais são as principais mensagens do livro? O que você diria para quem está vivendo um burnout agora?

Nunca existe apenas escuridão, vazio e dor. Mesmo que você não enxergue na hora, existe luz no fim do túnel. Às vezes, é melhor voltar às origens, ao analógico. Você não precisa agradar a todos o tempo todo. Você deve ser a sua prioridade.

E o que este livro representa para você? Você acredita que a escrita do livro te transformou de alguma forma?

Como mencionei, escrevi várias coisas relacionadas à traumas do passado, mas sempre com finais trágicos. Desta vez, me permiti escrever um final diferente, feliz. Acredito que isso mostra que eu também posso me curar, assim como meus personagens. Desta forma, Tempos Amarelos representa cura para mim.

Quais são os seus projetos atuais de escrita? O que vem por aí?

Estou lançando agora em outubro o livro Um namoro de mentira com meu k-idol,  obra em que trago o universo dos idols coreanos com a leveza de um romance slow burn, transitando entre cenários do Brasil, Suíça e Coreia do Sul, e explorando um relacionamento internacional com contratos de amor, bem comédia romântica.

Como projetos futuros, tenho Mulher de luxo, uma distopia com horror; e Quando Júlia chegar, também uma distopia com suspense.

 

Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

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