Quando a tela vira encontro: de que vive o cinema comunitário no Brasil?
Pesquisa inédita revela desafios do circuito de exibição muito além dos Kinoplex e das plataformas privadas de streaming

Após a vitória de Ainda estou aqui no Oscar o clima de Copa do Mundo mal esfriou no Brasil e já celebramos a premiação de O agente secreto, em Cannes. O país vive uma aparente primavera do audiovisual. Nessa toada, alguns setores da imprensa vêm destacando a centralidade da indústria para a economia. Segundo dados da Oxford Economics, o setor audiovisual brasileiro gerou, em 2024, um impacto total estimado em R$ 70,2 bilhões para o PIB e 608.970 empregos. Destaca-se a importância das plataformas de streaming que acumulam vultoso crescimento à sombra da regulamentação do setor que incide sobre o cinema e a TV, mas não as alcança em suas responsabilidades de garantir cotas, além de estarem imunes a impostos. Desse bolo, as chamadas big techs – detentoras das plataformas de vídeo sob demanda – geram R$ 16,8 bilhões e cerca de 117 mil empregos, enquanto a TV aberta registrou R$ 7,5 bilhões em impacto econômico e 54.940 postos de trabalho, segundo a Oxford.
A aparência tech e pop do setor – é irresistível a alegoria com o agro – encobre velhas estruturas de mercado que, somadas a políticas públicas insuficientes, resultam numa realidade de concentração regional (também marcadamente branco-supremacista e elitista) e de desigualdades no acesso às políticas de incentivo. Vencido o esforço de financiamento de produção, da falta de formação e investimento no setor, a produção audiovisual ainda esbarra em outro histórico gargalo que impede o florescimento da diversidade e pluralidade no circuito: a distribuição.
No país vencedor do Oscar e aclamado em Cannes, apenas 9% dos municípios têm salas de cinema, públicas ou privadas, em funcionamento, segundo dados da Ancine publicados em 2025. Nesse contexto, o circuito de exibição comunitária tem papel fundamental em democratizar o acesso às telonas em experiências coletivas autônomas que desafiam a lógica social e de mercado da individualização “personalizada” imposta pelos streamings e seus algoritmos opacos e privados.

A importância do circuito comunitário é latente quando se observa a formação de público. Enquanto a grande maioria dos documentários brasileiros não passam de mil espectadores na sala de cinema, temos casos como Espero tua (re)volta (Eliza Capai, 2019) e Chega de fiu-fiu (Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão, 2018) que superaram em muito esses números em poucos meses de circulação pela plataforma de distribuição comunitária Taturana que, há 11 anos, investe na soluções de distribuição com enfoque territorial como medida de quebrar essa invisibilidade e levar a produção independente ao público. Pautando o assédio sexual e o direito à cidade, o documentário Chega de fiu-fiu alcançou a marca de 13.421 espectadores em 340 sessões comunitárias auto-organizadas dentro dos meses de lançamento. O Espero tua (re)volta acompanhou as lutas estudantis desde as marchas de 2013 até a vitória do presidente Jair Bolsonaro em 2018 e reuniu 6.341 espectadores em 190 sessões debatendo o tema. Também chama a atenção que anos após o lançamento esses filmes seguem sendo programados no circuito comunitário, proporcionando um aumento constante de visualizações em sessões presenciais e concretizando a famosa cauda-longa do filme, hoje em dia apenas prometida em janelas comerciais, mas efetivamente realizada nesse circuito prioritariamente cineclubista.
Evidencia-se ao olhar para esses dados que, em muitas situações, o cinema não acontece em shoppings, em grandes telas dos multiplex ou mesmo em plataformas privadas de streaming. Ele acontece em praças, escolas, centros culturais e, não raro, em quintais e barcos. É ali, onde a estrutura muitas vezes é improvisada, mas o desejo é coletivo de que o audiovisual se revele como uma ferramenta viva de diálogo e impacto social. É o caso do Cinema Menino de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, que há 25 anos leva audiovisual para escolas da região e, apesar de hoje contar com recursos da Lei Paulo Gustavo, tem uma equipe mínima que acumula muitos anos de trabalho voluntário.
A pesquisa Quando a Tela se Torna Encontro realizada pelo Instituto Taturana escutou mais de seiscentas pessoas exibidoras de todas as regiões do país, entre abril e maio de 2025. Realizada em parceria com a Sensata UX Research, a investigação buscou compreender quem são, como atuam e quais desafios e potências mobilizam essas pessoas responsáveis por garantir o acesso ao cinema em territórios periféricos e invisibilizados.
Cineclubistas, educadores, artistas, gestores culturais, estudantes, lideranças comunitárias: pessoas que, com diferentes recursos e linguagens, se mobilizam para criar espaços de encontro a partir do audiovisual. A pesquisa revela que existe uma rede viva, descentralizada e diversa, movida por propósitos comuns: democratizar o acesso às imagens, fortalecer laços comunitários e estimular a escuta coletiva.
Os dados coletados mostram que mais de dois terços dos participantes já organizaram sessões de filmes, ainda que de forma autônoma e sem apoio do Estado: 68% dos organizadores atuam de forma voluntária e 37% dos exibidores desejam o reconhecimento institucional dessa prática como parte da cadeia do audiovisual.

A precarização das políticas públicas de cultura, a ausência de recursos para infraestrutura e a sobrecarga de trabalho voluntário limitam o alcance dessas iniciativas. Para driblar a falta de financiamento, o cineclube Mandacaia, na Mantiqueira, também em Minas Gerais, se mantém com a venda de cerâmicas artesanais produzidas localmente. A divulgação é boca a boca e a sustentabilidade via economia criativa. Em Santarém, no Pará, o Cineclube Regatão também enfrenta o desafio de se manter de pé sem investimento. Os editais públicos mal alcançam os custos altíssimos de deslocamento fluvial. A impermanência é marca nas exibições que também são impactadas pelas mudanças climáticas que trazem calor e chegam a alterar os fluxos de navegação. Também itinerante, a experiência do Cinema na Kombi, no litoral de São Paulo, vive de pequenos projetos e da ausência de recursos contínuos batalhando para a formação de público. A dificuldade de encontrar filmes para exibição é outro problema relatado.
Essas experiências trazem um retrato de que o campo resiste com criatividade, solidariedade e uma compreensão potente de que exibir um filme é também um ato político. “A exibição comunitária, nesse sentido, é mais do que difusão cultural: é um gesto de cidadania ativa”, ressalta Juliana Brombim, coordenadora de comunidades de exibidores do Instituto Taturana, organização que liderou a pesquisa.
Segundo Rodrigo Díaz Díaz, diretor de distribuição comunitária da Taturana, essa pesquisa é apenas uma iniciativa, um pontapé para um processo mais amplo de reflexão sobre o papel do audiovisual para abertura de diálogos, para uma vida democrática. Há 11 anos, o trabalho do Instituto tem se centrado na ideia de que ver e escutar provocam mudanças sociais, e que toda sessão pode se tornar um exercício de convivência e de disputa de sentidos sobre o mundo. Ao lançar a pesquisa, reforça seu compromisso de seguir ampliando formação e impacto, que agora se formaliza com o programa Taturana em Rede, que nasce para fortalecer esses agentes culturais espalhados pelo país.
“Porque o que se aprende, ouvindo tantas vozes e histórias, é que o cinema brasileiro é muito maior do que suas telas comerciais. Ele pulsa nas esquinas, nas rodas, nas janelas. E cada vez que uma tela se acende, é a democracia que se projeta, uma imagem de país que só existe quando vista em comunidade”, defende.
A pesquisa “Quando a tela se torna encontro” está disponível gratuitamente em: https://bit.ly/PesquisaTaturana
Iara Moura é jornalista e diretora de desenvolvimento institucional da Taturana.

