Trinta e cinco anos do SUS
Em artigo originalmente publicado na The Lancet Regional Health – Americas, inédito em português, o ministro da Saúde Alexandre Padilha e especialistas em saúde pública celebram os 35 anos do SUS, completados em 19 de setembro
Em 2025, o Brasil celebra os 35 anos do Sistema Único de Saúde (SUS), uma das inovações sociais mais ambiciosas do final do século XX: um país de renda média, de escala continental e com profundas desigualdades que, em sua Constituição de 1988, consagrou a saúde como direito de todos e dever do Estado. As leis nº 8.080 e nº 8.142, de 1990, traduziram esse princípio em prática e definiram a organização do sistema. Do ponto de vista da saúde global, o SUS representa um dos compromissos nacionais mais abrangentes com os princípios de “Saúde para Todos” estabelecidos na Declaração de Alma-Ata de 1978, antecipando agendas posteriores que vinculam cobertura universal de saúde e sistemas públicos de saúde resilientes.[i]

Construir o SUS não foi apenas um empreendimento técnico, mas um processo intrinsecamente político. Originado no movimento da Reforma Sanitária, no contexto da redemocratização do país, tornou-se a política pública mais transformadora para a redução das desigualdades na nova democracia brasileira. Aplicando o modelo conceitual de Avedis Donabedian, a magnitude da mudança é notável.[ii] Estruturalmente, o Brasil passou de uma provisão fragmentada e insuficiente de serviços para uma rede nacional abrangendo atenção primária, serviços de emergência e saúde mental, além de centros especializados em transplantes, HIV/AIDS e oncologia, todos apoiados por uma política farmacêutica abrangente.[iii] No plano dos processos, o sistema avançou com equipes multiprofissionais de saúde da família e serviços de base comunitária, fortalecendo a governança local.[iv] Entre os resultados, destacam-se reduções expressivas da mortalidade infantil (de 53,4 para 12,7 óbitos por 1.000 nascidos vivos entre 1990 e 2023), aumento da expectativa de vida (de 65 anos em 1985 para 76,8 anos em 2025), eliminação da poliomielite (1989) e do sarampo (2000), além da ampliação do acesso a medicamentos e vacinas.[v]

Desafios persistem. O subfinanciamento crônico, agravado pelo teto de gastos de 2016 (Emenda Constitucional nº 95), limita a expansão e a qualidade do cuidado.[i] As desigualdades regionais são marcantes, com serviços especializados, leitos de terapia intensiva e equipamentos diagnósticos concentrados nas regiões mais ricas e no setor privado.[ii] As filas para cirurgias, biópsias e radioterapia são longas e crescentes, enquanto a rede oncológica, apesar de expansões, ainda fica aquém do aumento da carga de câncer no país. [iii] [iv] A mortalidade materna permanece inaceitavelmente alta para um país com o nível de desenvolvimento do Brasil, e a força de trabalho em saúde segue distribuída de forma desigual, já que estratégias para atrair, reter e capacitar profissionais em todas as regiões ainda são insuficientes.[v] [vi]
Olhando adiante, o século XXI traz novas pressões. A emergência climática já afeta a saúde das brasileiras e dos brasileiros: doenças transmitidas por vetores avançam para novas áreas, enchentes e ondas de calor desencadeiam desastres, e a degradação da Amazônia ameaça povos indígenas e aumenta o risco de transbordamentos zoonóticos. O acelerado envelhecimento populacional traz implicações importantes para doenças crônicas, cuidados de longa duração e financiamento. Avanços em saúde digital, inteligência artificial e terapias de alto custo exigem adaptação regulatória, ética e fiscal. A disseminação de desinformação – escancarada durante a pandemia de Covid-19 e sob a gestão federal anterior de extrema direita – impõe desafios culturais e políticos à resiliência do sistema de saúde.[vii]

Essas são as novas fronteiras do SUS, e propomos quatro movimentos estratégicos para impulsionar sua renovação. Primeiro, recolocar a saúde como pilar central do desenvolvimento, articulando equidade, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental. Isso inclui fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde como fonte de soberania, trabalho digno, capacidade inovadora e competitividade global. Segundo, redesenhar instituições para fortalecer a atenção primária como o “centro vital” dos territórios, reduzir desigualdades na atenção especializada e estabelecer novas bases legais e organizacionais para resiliência climática e preparação para pandemias. Terceiro, orientar a transformação tecnológica por meio da saúde digital e de modelos inovadores de cuidado, compatíveis com as necessidades de povos indígenas, pessoas com deficiência, pessoas idosas e outros grupos vulneráveis. Quarto, enfrentar o negacionismo, reconstruindo a confiança em vacinas, combatendo a desinformação e reafirmando o vínculo intrínseco entre saúde e democracia.

A coincidência do 35º aniversário do SUS com a COP 30 em Belém oferece uma oportunidade simbólica e estratégica. Ao receber o mundo na Amazônia, o Brasil pode demonstrar que sistemas universais de saúde resilientes são indispensáveis para a adaptação climática – ao produzir informações oportunas sobre a relação entre mudanças climáticas e a saúde da população, possibilitar a detecção precoce de doenças sensíveis ao clima, proteger populações vulneráveis e garantir a continuidade do cuidado durante desastres.[i] Os co-benefícios para a saúde de ações climáticas ambiciosas, que incluem ar mais limpo, dietas mais saudáveis e água mais segura, são cientificamente sólidos, politicamente persuasivos e socialmente mobilizadores. Ao colocar a saúde no centro da COP 30, o Brasil pode inspirar sua população e contribuir para catalisar um movimento global.
Com a celebração vem a responsabilidade. Restaurar as prioridades da saúde tornou-se um compromisso central do atual governo federal. Nesse contexto, o Adapta-SUS é uma iniciativa nacional voltada a fortalecer a preparação do sistema de saúde para os impactos climáticos.[ii] No plano internacional, atuando junto aos países do Baku Group — Azerbaijão, Egito, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido —, o Brasil está avançando na construção de um marco global para adaptação em saúde às mudanças climáticas. Aberto à consulta durante a Assembleia Mundial da Saúde de 2025 e desenvolvido em conjunto com Estados-membros da Organização Mundial da Saúde, comunidade acadêmica e sociedade civil, o Plano de Ação em Saúde de Belém define três prioridades comuns: reforçar a vigilância de ameaças climáticas à saúde; acelerar políticas baseadas em evidências por meio da cooperação intersetorial; e fomentar inovação e produção local de tecnologias e soluções para populações vulneráveis.[iii]
A lição de 35 anos é clara: o SUS é mais do que um sistema de saúde. Ele construiu instituições que sobrevivem a governos, formou identidades coletivas e salvou milhões de vidas. Agora é necessário entrar em um novo ciclo da abordagem “Uma Só Saúde” – mais resiliente, ágil e inovador, e mais bem preparado para as incertezas de um planeta em transformação. O lema originalmente articulado por Sérgio Arouca em 1986, que inspirou a Reforma Sanitária brasileira, permanece verdadeiro e urgente: “saúde é democracia”. Celebrar seus 35 anos na COP 30 significa reafirmar que o futuro da saúde global depende da mesma coragem que criou o SUS – a vontade política de defender a universalidade, abraçar a inovação e enfrentar os desafios interligados do clima e da saúde. Não há saúde sem proteção climática, e não há democracia sem o direito à saúde.
Alexandre Padilha é ministro da Saúde do Brasil. Deputado federal reeleito pelo PT de São Paulo, Alexandre Padilha é médico infectologista pela USP, PHD em Saúde Pública pela UNICAMP e professor universitário. Foi ministro das Relações Institucionais em dois momentos: de janeiro de 2023 a março de 2025, e entre 2009 e 2010; e ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff (2011-2014). Também assumiu as mesmas pastas durante a gestão de Fernando Haddad (2015-2016) na Prefeitura de São Paulo.
Adriano Massuda é Secretário Executivo do Ministério da Saúde, Médico sanitarista, formado pela UFPR, com residências em Medicina Preventiva e Social e em Administração em Saúde. Doutor em Saúde Coletiva na área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, UNICAMP. Professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGVEAESP) e coordenador do FGV-Saúde (Centro de Estudos de Planejamento e Gestão em Saúde da FGV-EAESP).
Florentino Leônidas é sanitarista formado pela UnB, pós-graduado em Gestão de Políticas Públicas pelo Insper e mestre em Direito Econômico pelo IDP. Atuou em organismos internacionais e governos. Hoje, é Diretor de Advocacy da Eixo Políticas Pública.
Andreza Davidian é cientista social formada pela USP e pesquisadora de pós-doutorado no FGVSaúde. Tem doutorado em Administração Pública e Governo pela FGV EAESP e em Ciencia Política pela École des Hautes Études en Santé Publique (EHESP, França).
Este texto foi originalmente publicado na The Lancet Regional Health – Americas com o título “Thirty-five years of Brazil’s Unified Health System (SUS): From Alma-Ata to the climate challenge”.
[i] Romanello M, Walawender M, Hsu SC, Moskeland A, Palmeiro-Silva Y, Scamman D, et al. The 2024 report of the Lancet Countdown on health and climate change: facing record-breaking threats from delayed action. The Lancet. 2024 Nov;404(10465):1847–96.
[ii] Brazil. Ministry of Health. Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima – ADAPTASUS [Internet]. 2025 [Acessado em 11 de outubro de 2025]. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/apresentacoes/2025/plano-clima-participativo.pdf
[iii] Brazil. Ministry of Health. Em Genebra, Brasil protagoniza apresentação de proposta para adaptar o setor saúde às mudanças climáticas. 2025 [Acessado em 11 de outubro de 2025]. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/maio/em-genebra-brasil-protagoniza-apresentacao-de-proposta-para-adaptar-o-setor-saude-as-mudancas-climaticas
[i] Rocha R, Furtado I, Spinola P. Financing needs, spending projection, and the future of health in Brazil. Health Economics. 2021 May;30(5):1082–94.
[ii] Rocha R, Atun R, Massuda A, Rache B, Spinola P, Nunes L, et al. Effect of socioeconomic inequalities and vulnerabilities on health-system preparedness and response to COVID-19 in Brazil: a comprehensive analysis. The Lancet Global Health. 2021 June;9(6):e782–92.
[iii] Bigoni A, Malik AM, Tasca R, Carrera MBM, Schiesari LMC, Gambardella DD, et al. Brazil’s health system functionality amidst of the COVID-19 pandemic: An analysis of resilience. The Lancet Regional Health – Americas. 2022 June;10:100222.
[iv] Rache B, Rocha R, Medeiros LAD, Okada LM, Ferrari G, Zeng H, et al. Transition towards cancer mortality predominance over cardiovascular disease mortality in Brazil, 2000–2019: a population-based study. The Lancet Regional Health – Americas. 2024 Nov;39:100904.
[v] Ferreira RCG, Guedes SC, Moreira RDS. Maternal mortality in Brazil: spatio-temporal analysis between 2000 and 2019. Rev Bras Saude Mater Infant. 2024;24:e20230231.
[vi] Scheffer M, Almeida C de J, Cassenote AJF, Dias IWH, Moreira JP de L, Sousa J, et al. Demografia Médica no Brasil 2025. Caetano M, editor. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2025.
[vii] Massuda A, Dall’Alba R, Chioro A, Temporão JG, Castro MC. After a far-right government: challenges for Brazil’s Unified Health System. The Lancet. 2023 Mar;401(10380):886–8.
[i] World Health Organization. Building health systems resilience for universal health coverage and health security during the COVID-19 pandemic and beyond: WHO position paper. Geneva: World Health Organization; 2021.
[ii] Donabedian A. Evaluating the Quality of Medical Care. The Milbank Memorial Fund Quarterly. 1966;44(3):166–203.
[iii] Castro MC, Massuda A, Almeida G, Menezes-Filho NA, Andrade MV, De Souza Noronha KVM, et al. Brazil’s unified health system: the first 30 years and prospects for the future. The Lancet. 2019 July;394(10195):345–56.
[iv] Paim J, Travassos C, Almeida C, Bahia L, Macinko J. The Brazilian health system: history, advances, and challenges. The Lancet. 2011 May;377(9779):1778–97.
[v] Brazil. Ministry of Health. Health and Environmental Surveillance Secretariat (SVSA). Mortality Information System (SIM) and Live Birth Information System (Sinasc).

