O papel da Cultura na ação climática
Estudo aponta que 83% dos brasileiros acreditam que podem se informar e entender melhor sobre mudanças climáticas por meio de atividades e bens culturais
A questão climática parece ter se tornado um dos grandes debates no Brasil atualmente, não só pela histórica realização da COP 30, em Belém, como também pela urgente necessidade de engajamento da população em debates e soluções para a crise ambiental. Para essa missão, existe uma aliada com enorme potencial, que pode levar a discussão para o dia a dia de pessoas comuns, difundindo conhecimento e ampliando o engajamento ao tema: a cultura.
Por meio de filmes, novelas, museus, exposições e de tantos outros bens culturais, a cultura é um agente central na construção de uma sociedade mais resiliente e mobilizada diante das mudanças climáticas. Ela atua como catalisador no enfrentamento do maior desafio deste século, que requer a contribuição de todas as pessoas.
De acordo com os dados da pesquisa inédita “Cultura e Clima – Percepções e Práticas no Brasil”, realizada pela ONG C de Cultura em parceria com a empresa Outra Onda Conteúdo, e apoio técnico da PUCRS, 83% dos brasileiros acreditam que podem se informar e entender melhor sobre mudanças climáticas por meio de atividades e bens culturais. Para sete em cada dez entrevistados, atividades e bens culturais podem ajudá-los a enfrentar a crise na prática – o que evidencia a força da cultura como plataforma de ação. Para 62% dos respondentes, livros, músicas, filmes e museus, além das escolas, foram fonte para mudarem hábitos relacionados a temas ambientais e sociais.
O estudo, em sua segunda etapa, também investigou percepções sobre ações que potencializem a cultura no cumprimento desse papel. A pesquisa evidencia ainda como diferentes grupos sociais apresentam diferentes padrões de frequência e valorização de bens e atividades culturais, a partir de marcadores como gênero, raça e região de moradia. Ou seja, é preciso recorrer a distintas estratégias de mobilização no campo da agenda climática que abordem as diferenças entre as pessoas, com linguagem acessível, adaptada às novas mídias, contextualizada e capaz de alcançar públicos diversos.
A pesquisa, que será lançada durante a COP 30, busca aprofundar a integração entre as agendas cultural e climática para consolidar o reconhecimento do papel transformador da cultura na estruturação de políticas de combate à crise climática.
Além de produzir evidências sobre a interseção entre os dois temas, contribuindo para aprofundar a compreensão sobre desafios e oportunidades, o estudo identificou como as narrativas culturais podem influenciar percepções, comportamentos e atitudes diante da crise, promovendo soluções para o meio ambiente adaptadas aos diferentes contextos brasileiros.

Outro achado do levantamento é a existência de barreiras ao engajamento nas ações climáticas. Destaca-se, nesse contexto, o baixo grau de informação do público sobre as mudanças climáticas: 11% dos respondentes disseram que não tinham nenhum, muito baixo ou baixo conhecimento sobre o tema, enquanto 50,8% afirmaram ter nível médio de entendimento. Já 52% se sentem impotentes diante da capacidade de contribuir para o enfrentamento da crise climática.
Quanto às ações para combater as mudanças climáticas, aproximadamente 25% afirmaram não ter conhecimento de medidas de mitigação e adaptação, nem de organizações e redes que atuam em causas ambientais ou climáticas. Felizmente foi baixo o percentual de pessoas sem interesse.
O fato de mais da metade da população acreditar que não tem poder para agir diante da crise climática revela uma percepção de que o problema é maior do que a capacidade individual de enfrentá-lo, o que evidencia a importância da mobilização social em torno de soluções coletivas. Além disso, a falta de conhecimento da população em geral indica pouca comunicação e educação sobre o papel de cada um na mobilização coletiva por um planeta mais sustentável para todas as pessoas.
A pesquisa “Cultura e Clima – Percepções e Práticas no Brasil” também fez conexões entre as agendas climática e política, e revela que 9 em cada 10 pessoas consideram importante eleger políticos que priorizem sustentabilidade e justiça social. Nas últimas eleições, as propostas climáticas foram decisivas na definição do voto de 43% dos participantes e fator secundário de 36%. Quando olhamos mais especificamente para as pessoas que se identificaram como de direita, 59,6% não consideram as propostas climáticas como um fator na decisão do voto.
Seja pela COP 30, pelas recentes tragédias climáticas e até mesmo pelas eleições para o Executivo e o Legislativo no país e nos estados em 2026, a pauta climática precisa ser reconhecida como um fator decisivo nas urnas. Para o eleitor e para o candidato, os resultados da pesquisa mostram que a cultura é uma plataforma que vai muito além do entretenimento, desempenhando um papel importante – inclusive – na agenda climática atual. Que a cultura seja capaz de fomentar diálogos transformadores sobre o mundo que desejamos construir, assumindo seu papel central na agenda climática, graças à sua potência de traduzir e tornar acessível a complexidade desse desafio. Que ela inspire mudanças profundas de comportamento, refloreste consciências e semeie ideias que gerem um futuro mais inclusivo, justo e sustentável para todas as pessoas.
Mariana Resegue é jornalista e diretora-executiva da C de Cultura; e Eduardo Carvalho é curador de exposições e diretor-fundador da empresa Outra Onda Conteúdo. Ambos são supervisores gerais da pesquisa Cultura e Clima.

