Por que a polarização afetiva precisa estar no centro do debate no Brasil
Mesmo reconhecendo assimetrias, a polarização afetiva atua como um véu: ela distorce o olhar, simplifica o país em duas metades e impede que percebamos a complexidade real da sociedade brasileira
Vivemos em um país onde as pessoas deixaram de torcer apenas por times de futebol e passaram a torcer contra os próprios vizinhos. Onde a cor de uma camisa virou senha de pertencimento e o grupo de família se converteu em trincheira. Onde um cidadão pode ser assassinado em sua festa de aniversário diante da família apenas por usar vermelho, e um trabalhador é ridicularizado como comedor de capim apenas por manifestar a sua posição.
A polarização política passou a ser o diagnóstico mais recorrente para explicar o mal-estar das democracias. Dos Estados Unidos ao Brasil, ela se tornou sinônimo de conflito, intolerância e cancelamento. Mas há um equívoco persistente: não é a existência de polos, em si, que ameaça a convivência democrática, e sim o colapso das pontes entre os segmentos que compõem essa sociedade.
Democracias funcionais dependem da diversidade de visões e do confronto civilizado de projetos de país. O que destrói a política é o ódio que desumaniza o outro e converte a diferença em guerra moral. É nesse sentido que a cientista política Liliana Mason cunha o fenômeno da “polarização afetiva”: quando a identidade política define quem merece respeito, confiança e até humanidade.
Nos Estados Unidos, essa dinâmica tem aprofundado divisões raciais, culturais e religiosas, tornando o diálogo quase impossível. Na América Latina e especialmente no Brasil, contudo, a polarização assume contornos próprios, atravessados por desigualdades históricas, racismo estrutural e déficits de representação política.
Aqui, as feridas da exclusão social amplificam as disputas de identidade, e a raiva acumulada vira combustível para o ressentimento entre irmãos. Enquanto isso, quem realmente detém o poder observa de longe, lucrando com o caos que separa iguais e protege os privilégios de sempre. Enquanto uns queimam pontes, outros vendem o combustível. Quem realmente tem o poder não participa da briga: administra o lucro gerado pelo ódio.
O mais grave, porém, é que a polarização afetiva não se limita ao campo das ideias. Ela invade o cotidiano, fragmenta lares e contamina relações que antes estavam fora da disputa política. É quando o vínculo afetivo se rompe porque um parente votou diferente, quando o jantar em família se transforma em trincheira ideológica e quando a empatia cede lugar ao rancor. Esse tipo de polarização não apenas divide o espaço público, divide também o espaço íntimo, aquele onde deveria prevalecer o reconhecimento humano antes de qualquer rótulo de identidade.
Nos casos mais extremos, essa deterioração da convivência se converte em violência política. É a polarização afetiva que dá razão moral ao ódio e legitima atos inaceitáveis. Quando o outro é percebido como inimigo, a agressão deixa de parecer crime e passa a ser vista como justiça. O Brasil tem exemplos dolorosos dessa lógica: um cidadão foi assassinado em sua festa de aniversário apenas por vestir vermelho. Esse episódio, dentre tantos outros, simboliza até onde pode nos levar a desumanização política, quando a diferença de opinião se transforma em permissão para matar.
A polarização afetiva, contudo, não pode ser tratada como um duelo entre dois lados simétricos. Especialmente porque não existem apenas dois polos, muito menos simétricos. Além disso, seria um erro confundir a defesa da democracia com o ataque a ela ou tentativas de golpe de Estado. Há diferenças substanciais de valores, responsabilidades e propósitos entre os diversos campos políticos em disputa. Mesmo reconhecendo assimetrias, a polarização afetiva atua como um véu: ela distorce o olhar, simplifica o país em duas metades e impede que percebamos a complexidade real da sociedade brasileira. A verdade é que o Brasil não está dividido em dois blocos estáticos, mas organizado em diversos segmentos, cada um com suas dores, identidades e visões de mundo. E é justamente essa pluralidade que a lógica do ódio tenta apagar.
É nesse sentido que compreender o que move a sociedade brasileira é essencial; e foi esse o objetivo do estudo que elaboramos por meio da ONG More in Common, em parceria com a Quaest Pesquisa, com base em mais de 10 mil entrevistas realizadas presencialmente a domicílio em 2025.

O Brasil dos invisíveis
O estudo identificou seis grandes grupos na sociedade brasileira. À esquerda, aparecem os Progressistas Militantes (5% da população) e a Esquerda Tradicional (14%), com pautas de justiça social, direitos humanos e combate às desigualdades. No outro lado, estão os Conservadores Tradicionais (21%) e os Patriotas Indignados (6%), mais mobilizados por valores de fé, ordem e família. Entre esses polos, há dois grupos majoritários e desmobilizados: os Desengajados (27%) e os Cautelosos (27%). Juntos, representam 54% da população, a maioria invisível do debate público, formada por brasileiros que não se identificam nem com o petismo nem com o bolsonarismo.
Esses dados revelam um Brasil muito diferente da caricatura de “duas metades em guerra”. A polarização existe, mas ela é concentrada entre minorias mais engajadas. No centro desse espectro, há uma maioria que vive outros dilemas: insegurança econômica, desconfiança das elites e desejo de estabilidade. São cidadãos que valorizam políticas sociais, mas também conservam laços comunitários e religiosos. Estão distantes de temas engajados e exaustos de conviver com a intolerância política até mesmo dentro de seus lares.
Ao contrário do que se costuma dizer, essa maioria não é apática à política. É composta por pessoas que foram afastadas da política, não por indiferença, mas por saturação. São brasileiros que ainda se importam com a vida pública, que possuem opiniões diversas e até bem elaboradas, mas se sentem órfãos de representação. São os “invisíveis” da democracia. E compreender o que pensam é crucial para quem deseja reconstruir o tecido democrático, inclusive dentro do campo progressista.
Superar não é apagar as diferenças
Enfrentar a polarização afetiva não é fazer todo mundo se tornar de centro. Tampouco significa renunciar às convicções ideológicas ou aos movimentos sociais que empurram a história para frente. O que está em jogo é algo mais básico: reaprender a dialogar dentro do campo democrático, reconhecendo que há divergências legítimas entre visões de mundo distintas dentre aqueles que possuem disposição de construir a democracia.
Como tem apontado Pablo Ortellado, compreender a estrutura da polarização brasileira exige entender as relações entre valores, crenças e percepções de mundo que moldam o comportamento político; e não apenas o alinhamento partidário. Em outras palavras, a polarização brasileira não é apenas sobre partidos, mas sobre identidades, afetos e formas de se reconhecer na política.
Superar a polarização afetiva significa retomar a capacidade de ouvir, especialmente os que estão sem voz. Significa fortalecer o campo democrático, sem diluir suas diferenças, mas criando pontes entre os que ainda acreditam no diálogo como ferramenta de transformação.
Até porque, se a polarização afetiva continuar guiando nossos afetos, a política brasileira seguirá distante das necessidades do povo. E quando a maioria silenciosa deixa de acreditar na possibilidade de diálogo, o ruído se torna regra. E vale reforçar: o Brasil não precisa de menos política, mas de uma política capaz de incluir quem hoje se sente à margem da conversa democrática. Escutar é o primeiro passo para reconstruir um projeto comum dentro da democracia.
Ergon Cugler de Moraes Silva é Conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão do Governo Federal. Graduado e pós-graduado pela USP, mestre em administração pública e governo pela FGV e cientista de dados pós-graduado pela Universitat de Barcelona. Atua como cientista de dados no escritório brasileiro da ONG More in Common e como pesquisador CNPq do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/FGV).

