Wallace Armani critica a dominação capitalista nas organizações em ‘Por uma administração socialista’
A obra demonstra como a chamada “administração científica” é uma ferramenta de dominação que permeia todas as esferas da sociedade, das empresas às igrejas
O professor e pesquisador Wallace Armani lança Por uma administração socialista (Editora Diálogo Freiriano), uma obra que propõe uma leitura marxista e revolucionária da Administração. Longe de ser um manual técnico, o livro apresenta uma crítica contundente à chamada “administração científica”, demonstrando como ela se tornou uma ferramenta de dominação presente em todas as esferas da sociedade, das empresas privadas às igrejas, passando por partidos, sindicatos e governos. A partir da crítica da economia política e do materialismo histórico, Armani questiona a neutralidade do campo administrativo e propõe refletir sobre ele sob a perspectiva do socialismo revolucionário.
Resultado de um intenso processo de pesquisa e docência, o livro nasceu das discussões que o autor conduziu como professor da disciplina “Ciências Sociais e Humanas” para alunos de Administração e Ciências Contábeis, além das leituras realizadas em seu doutorado. Em linguagem ensaística e acessível, Armani busca afastar-se dos academicismos para aproximar o pensamento marxista de leitores interessados em compreender a administração como prática social e política. Em suas páginas, o autor demonstra como o discurso neoliberal se infiltrou nas organizações e defende o socialismo como o único meio possível para a emancipação humana.
Doutorando e mestre em Sociologia Política (IUPERJ-UCAM), Wallace Armani é natural de Belo Horizonte e reside no Rio de Janeiro. Graduado em Secretariado Executivo, Empreendedorismo, Ciências Humanas, Ciência Política e Gestão de Partidos Políticos, possui ainda três pós-graduações. É diretor geral da Wallace Armani – Centro de Idiomas e Outros Estudos (CIOE) e editor geral da Editora Simulacro. Hiperpoliglota reconhecido pela HYPIA (The International Association of Hyperpolyglots), Armani é também autor de Impeachment: Sinal de Crise da Democracia (Diálogo Freiriano, 2024) e de obras de ficção científica e ensaios sociológicos publicadas pela Editora Simulacro.
Leia, abaixo, uma entrevista com o autor sobre a pesquisa que inspirou seu livro.
Seu livro Por uma Administração Socialista faz uma análise marxista e revolucionária do campo da Administração. Quais são os principais temas e reflexões que atravessam a obra?
Por uma Administração Socialista é um livro que tem como objetivo central uma análise marxista e revolucionária a partir da crítica da economia política e do materialismo histórico da Administração, conhecida como “administração científica”, dentro do capitalismo e apresentando as condições materiais para refletir esse campo do conhecimento dentro do socialismo revolucionário. O livro não é um manual, mas um instrumento político que demonstra como a Administração não é um campo neutro e como ela é uma ferramenta de dominação de todas as esferas da vida. Atualmente, está presente em todas as organizações da sociedade, como empresas privadas, ongs, partidos políticos, sindicatos, igrejas, escolas, universidades e governos. Por meio de uma gramática neoliberal, se hegemonizou e se espraia discursivamente dentro de todos os ambientes acima mencionados. Por isso, a obra necessária para refletir criticamente tanto este campo do conhecimento quanto as formas de dominação que representa dentro do capitalismo.
Sua formação e trajetória profissional transitam entre o secretariado, a gestão e o pensamento marxista. De que forma essa vivência prática e teórica te levou à necessidade de propor uma leitura socialista da Administração?
Possuo formação acadêmica em Secretariado Executivo, Empreendedorismo e em Gestão de Partidos Políticos. Enquanto doutorando, minha pesquisa se intitula A Escola Politécnica e a Construção do Homo Sovieticus na URSS (1917-1936), dentro de uma perspectiva teórica marxista. Dada a minha formação, conheço um amplo ferramental técnico utilizado dentro das organizações na busca de suas melhorias e desenvolvimentos. Tive atuação na diretoria de algumas instituições do terceiro setor, estou como membro do conselho fiscal pelo segundo mandato consecutivo no Sindmusi-MG (Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais) e sou gestor em minha própria escola de idiomas, a Wallace Armani – Centro de Idiomas e Outros Estudos (CIOE). Ao mesmo tempo, tenho estudado sistematicamente nos últimos anos a literatura marxiana e marxista. Sou comunista e entendo que a crítica ao campo de estudo da administração, dominado pelo ideário neoliberal, se torna necessária para que pensemos o socialismo como o único meio para a emancipação da humanidade na busca do comunismo. Não acredito em reformas pelo capitalismo, muito menos em um “capitalismo humanizado”. Por isso, proponho o presente livro.

Como as discussões acadêmicas influenciaram diretamente a escrita de Por uma Administração Socialista? Como foi o processo de escrita do livro?
Durante o primeiro semestre de 2025, fui professor de uma disciplina intitulada “Ciências Sociais e Humanas” para alunos dos cursos de graduação em Administração e Ciências Contábeis, na UCAM (Universidade Candido Mendes), como estágio supervisionado dentro do doutorado na mesma instituição e ao mesmo tempo, fui aluno das disciplinas “Algoritmo e Reprodução do Capital” e “Seminário de Tese I”. As discussões levantadas nessas atividades me deram base para a confecção do livro e junto com isso, utilizei parte das leituras que tenho feito para a tese doutoral nos últimos dois anos. Assim, reuni condições para a escrita do livro durante todo o primeiro semestre de 2025.
Que mensagens principais você busca transmitir com sua análise em Por uma Administração Socialista?
Mostrar como a Administração não é neutra e muito menos algo somente “técnico”. Demonstrar como ela se manifesta dentro das organizações e impacta diretamente a vida do trabalhador. Apresentar o socialismo como único meio necessário para a emancipação da humanidade em busca do comunismo. Criticar toda forma de dominação do capital e de como leituras da realidade apoiadas em preceitos positivistas, neoliberais e pós-estruturalistas compactuam com a manutenção do status quo e preservação do capitalismo.
O que o novo livro representa para você pessoalmente e profissionalmente?
Este livro é sem dúvida alguma o meu melhor trabalho intelectual até o momento. A escrita dele me permitiu organizar muitas reflexões e observações que já possuía, mas que até então não tinha condições materiais necessárias para a sua concretização. Nesse sentido, ela, a escrita, aprofundou e ampliou ainda mais a minha visão sobre as mazelas do capitalismo e da possibilidade de sua total aniquilação. Sinto-me após o término do livro e de sua publicação, muito mais preparado crítica e reflexivamente para estabelecer um diálogo com a sociedade, na disputa por corações e mentes, e para conviver e debater o contraditório.
Como sua bagagem literária e acadêmica influenciou a construção de Por uma Administração Socialista?
O livro anterior, pela Editora Diálogo Freiriano, foi o fruto da minha dissertação de mestrado em Sociologia Política. Tenho também, publicados pela Editora Simulacro, três livros ficcionais dentro do gênero de ficção científica e dois não ficcionais, que discutem sociologicamente a ficção científica. Além disso, escrevo também textos acadêmicos para publicação como artigos em periódicos e como capítulos de livros. Sem dúvida alguma, todo esse trabalho intelectual previamente realizado deu as bases para que a escrita de Por uma Administração Socialista fosse possível.
Em Por uma Administração Socialista, você adota uma escrita ensaística. Por que escolheu esse gênero e como ele se adequa ao propósito político do livro?
Para a escrita dessa obra, adotei uma escrita ensaística e que fosse acessível a uma ampla camada da sociedade. Tenho duas publicações, pela Editora Simulacro, dentro desse gênero, que são: A Humanidade em Ruínas: Uma Análise Sociológica da Desintegração Social da Ordem em The Walking Dead (2025) e Sociologia e Ficção Científica: Uma Reflexão Teórica sobre o Imaginário Social e a Construção de Realidades Possíveis (2024). Além disso, lido com este gênero há pelo menos 5 anos.
Quais são as principais influências artísticas que influenciaram a sua escrita e a produção desta obra?
Na música, Richard Wagner (1813-1883), Arnold Schoenberg (1874-1951), Karlheinz Stockhausen (1928-2007) e Elliot Carter (1908-2012). Na literatura, Hermann Hesse (1877-1962). No cinema, Sergei Eisenstein (1898-1948), Fritz Lang (1890-1976), Charles Chaplin (1898-1977) e Stanley Kubrick (1928-1999). No pensamento, Karl Marx (1818-1883), o qual é a principal influência para a confecção do presente livro.
Como começou a perceber a potência da palavra escrita na sua vida? E como costuma organizar sua rotina de escrita?
A escrita me acompanha desde a adolescência, mas é na fase atual de minha vida que a instrumentalizo profissionalmente. Comecei a escrever ainda no ensino fundamental e minhas primeiras manifestações literárias se deram por meio da poesia. Não sou possuidor de rituais para a preparação para a escrita e durante a elaboração de um novo livro, me dedico diariamente o máximo que consigo. Levando em conta as minhas outras atividades, que não são poucas.
Quais são os seus projetos atuais de escrita?
Para 2026, trabalharei em um novo livro ensaístico intitulado Por uma Universidade Socialista, que será um desdobramento de Por uma Administração Socialista. O livro atual possui 7 capítulos e o próximo contará com 12. Farei uma dura crítica ao papel das universidades e da ciência na contemporaneidade. O capítulo final de Por uma Administração Socialista aborda a questão da educação, mas irei além disso. No primeiro semestre de 2026, estarei como pesquisador de doutorado sanduíche no Instituto de Filosofia da Academia Russa de Ciências, em Moscou, Rússia, para dar continuidade para a minha pesquisa doutoral. Provavelmente, cuidarei desse novo livro ao voltar de lá, ou quem sabe, possa já iniciar os primeiros escritos.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

