ENTREVISTA

Ler Kafka sem se render

Michael Löwy fala sobre literatura, espiritualidade e crítica. As respostas revelam mais o observador do que o atravessado

Franz Kafka escreveu como quem sufoca. Seus personagens não gritam – engasgam. Vivem cercados por portas que não se abrem, processos que não terminam, castelos inalcançáveis. Sua literatura é feita de becos, de muros, de silêncios que esmagam. E, ainda assim, há nela algo que resiste. Um fio de insubmissão que não se dobra, mesmo diante do absurdo. É esse fio que o sociólogo Michael Löwy tenta puxar em Franz Kafka – Sonhador Insubmisso. No livro, ele propõe uma leitura política e libertária da obra kafkiana, atravessada por espiritualidades rebeldes, crítica ao autoritarismo e uma recusa – ainda que sussurrada – às engrenagens do capital.

Nesta entrevista, Löwy fala sobre literatura, espiritualidade e crítica. As respostas revelam mais o observador do que o atravessado. Mas mesmo ali, entre os rituais da análise, é possível entrever o gesto que interessa: o de quem insiste em ler Kafka não como um autor do desespero, mas como alguém que, mesmo sem saída, não se rende.

Crédito: Divulgação

Confira a entrevista:

O senhor propõe uma leitura política e libertária de Kafka, que desafia as abordagens mais tradicionais. Mas e quem lê Kafka e só vê tédio, angústia ou burocracia? O senhor acredita que há uma camada de insubmissão que só se revela quando se lê com o corpo, e não só com a cabeça?

Deve-se ler Kafka não só com a cabeça, mas também com o “coração”, isto é, com emoções, afetos e sentimentos. A angústia é um desses afetos, e tem o potencial de suscitar o desejo de insubmissão. Kafka descreve a burocracia não como Weber e os sociólogos – descreve-a do ponto de vista de suas vítimas, ou seja, a partir da perspectiva dos indivíduos desamparados e muitas vezes esmagados pelos “aparelhos” impessoais, surdos e cegos.

Em uma carta de 27/1/1904 a seu amigo Oskar Pollak, Kafka explicava que livros só são interessantes quando são “um soco no crânio que nos desperta (…) um machado que quebra o mar de gelo dentro de nós”. É nesse espírito que se deve ler seus escritos.

No livro, o senhor fala sobre literatura terciária e os caminhos da crítica. Me peguei pensando: será que, perdidos na burocracia da vida – e da própria academia acabamos nos escondendo atrás de bibliografias e títulos para falar daquilo que nos move? Kafka parecia fazer o oposto: falava do que o atravessava, mesmo que por metáforas, mesmo que em silêncio. Até que ponto a academia, com seus rituais e formalismos, pode sufocar a insubmissão que ela mesma tenta estudar?

A academia, com muita frequência, é um sistema de neutralização que “sufoca” a insubmissão”: é o que tem acontecido com uma grande parcela da bibliografia sobre Kafka. São leituras conformistas, que não entendem, ou preferem ocultar, toda a dimensão crítica e subversiva dessa obra. Por exemplo, as relações de Kafka com os círculos anarquistas em Praga são sistematicamente silenciadas na grande maioria das biografias “acadêmicas” do escritor. O exemplo mais flagrante dessa interpretação submissa são as leituras de O processo que supõem a culpabilidade de Joseph K.: afinal, se ele foi julgado e condenado à morte, alguma culpa deve ter!

Felizmente existem exceções que me ajudaram a formular minhas hipóteses. Essas exceções são frequentemente mulheres: Hannah Arendt, Marthe Robert, Rosemarie Ferenczi, Marina Cavarocci-Arbib. Entre os homens, são geralmente figuras exteriores à academia, como André Breton e Walter Benjamin, ou marginais, como Theodor W. Adorno, que foram capazes de criar uma leitura não-conformista.

Kafka escrevia sobre portas que não se abrem, processos que não terminam, castelos inalcançáveis. Mas nunca gritava. O senhor vê o silêncio como uma forma de resistência política?

Entre o grito e o silêncio, existe um espaço para uma prosa sensível, calma, sem muitos adjetivos e ornamentos, mas implacável. É o caso de Kafka. Em sua obra, a resistência pode tomar muitas formas, por exemplo, um gesto. Em O castelo, o personagem de Amália traduz sua rejeição à autoridade rasgando o bilhete obsceno de um alto funcionário, que a intimava a satisfazer seus desejos sexuais. Já em O processo, Joseph K., depois de resistir obstinadamente contra o aparelho judiciário, acaba por se render a seus algozes. A crítica desta submissão voluntária – que ele descreve como “canina” – é a última palavra de Kafka no romance.

O grande escritor da cultura iídiche, Isaac Leib Peretz, em sua novela Bontsche o silencioso (1894), faz de um pobre oprimido, mas sempre silencioso, um verdadeiro santo, recebido com todas as honras no paraíso. Não encontramos na obra de Kafka este tipo de juízo em favor do silêncio.

Kafka tinha uma relação complexa com o judaísmo. O senhor fala em ‘judaísmo libertário’. O que isso significa? Como essa espiritualidade rebelde aparece na obra dele?

A relação de Kafka com o judaísmo é com efeito bastante complexa: é uma combinação singular de distância e identificação, de recusa da religião e de interesse pela espiritualidade.

Eu utilizo o termo de “judaísmo libertário” para designar escritores e pensadores judeus que propõem uma interpretação antiautoritária – com afinidades anarquistas – da tradição espiritual judaica. Como procuro mostrar, Kafka se interessava pela tese, desenvolvida nos escritos de alguns de seus mais próximos amigos – Max Brod, Hugo Bergmann, Felix Weltsch – de que o judaísmo era uma “religião da liberdade”. Utilizo esta hipótese para interpretar a célebre parábola “Diante da lei” (incluída em O processo): para Kafka, o homem do campo fracassou porque não teve a coragem de enfrentar a autoridade do “guardião da lei”. Esta crítica da “submissão voluntaria” é um dos temas centrais da obra de Kafka, tanto em O processo – a propósito da capitulação final de Joseph K. – quanto em O castelo, na descrição do comportamento servil dos habitantes da aldeia em relação aos funcionários do castelo. Mas esta temática já está presente nos primeiros contos, por exemplo, “O veredicto” (1912), onde o filho se submete à condenação absurda do Pai – figura típica do que Kundera chama de “totalitarismo familial” dos primeiros escritos de Kafka – e se joga no rio para se afogar.

O judaísmo libertário de Kafka se nutre não só da espiritualidade judaica, mas também de fontes anarquistas que ele estudou com muito interesse (por exemplo, Kropotkin).

Ao longo da sua obra, o senhor explora espiritualidades que resistem judaísmo libertário, cristianismo rebelde, misticismo utópico. Gostaria de saber: essa dimensão espiritual é algo que o senhor vive pessoalmente, ou ela permanece como campo de reflexão intelectual? E mais: qual o papel que o senhor acredita que a espiritualidade pode ter hoje, num mundo marcado pelo dinheiro que corrompe até a religiosidade? Há uma conexão entre essa burocracia kafkiana e a mercantilização da fé? O senhor vê a espiritualidade como uma forma de insubmissão diante do capital?

Sinto um grande interesse, uma grande admiração, e até mesmo uma certa fascinação por essas formas de espiritualidade subversiva, judaicas ou cristãs (são as que estudei). Mas pessoalmente sou ateu, não cultivo nenhuma crença religiosa e a ideia de “Deus” me é completamente estranha. Dito isso, penso, como meu mestre Lucien Goldmann, que o socialismo marxista também está baseado num ato de fé: o futuro socialista da humanidade não pode ser demonstrado cientificamente, mas é uma aposta (no sentido de Pascal). Mas se trata de uma fé secular, sem transcendência, uma fé histórica e social.

Uma das razões de meu interesse por estas formas de espiritualidade – judaísmo libertário ou cristianismo da libertação – é sua posição radical diante do espírito do capitalismo. Não é, portanto, um interesse puramente acadêmico, mas uma afinidade política. Kafka via o capitalismo como um sistema impessoal de dominação, e de negação da liberdade individual e, portanto, bastante semelhante ao poder impiedoso dos aparelhos burocráticos.

 

Obviamente, no mundo capitalista, a espiritualidade se torna frequentemente uma mercadoria: certas igrejas neopentecostais são um exemplo evidente, mas longe de ser o único.

No Brasil de hoje, cercado por autoritarismos sutis e explícitos, o que a obra de Kafka ainda pode nos ensinar sobre como resistir sem perder a ternura ou a lucidez?

O antiautoritaríssimo de Kafka, sua “sede infinita de liberdade em todas as direções” (carta a Felice Bauer, 19/10/1916), são universais. Podem inspirar seus leitores, “como um machado que quebra o mar de gelo dentro de nós”, a resistir e lutar contra todas as formas de poder autoritário, pessoal ou impessoal, no Brasil como em qualquer parte do mundo. Mas Kafka não dá receitas de como resistir, não propõe estratégias ou táticas de luta. É um escritor, não um líder de partido político.

O senhor chama Kafka de ‘sonhador insubmisso’. Em tempos de cinismo e pragmatismo, sonhar ainda é um gesto político?

Lênin dizia: “É preciso sonhar, com a condição de crer em nossos sonhos”. Obviamente, o sonho pode ser um gesto político. Ernst Bloch utilizou o termo “sonho acordado” (trato disso em meu livro O cometa incandescente – romantismo, surrealismo, subversão) para descrever as utopias de uma sociedade livre da exploração e da dominação. Quanto mais prevalece o cinismo e o pragmatismo, tanto mais cresce a importância de sonharmos com a possibilidade de uma outra realidade. É um sonho que não se poderá realizar sem grandes atos de insubmissão.

Se Kafka estivesse vivo hoje, talvez não escrevesse sobre castelos, mas sobre algoritmos, senhas, filas digitais. O senhor acha que a insubmissão dele sobreviveria ao nosso tempo ou seria engolida pelo excesso de ruído?

O poder hoje não se exerce em castelos, mas continua sendo um sistema implacável de dominação impessoal – utilizando algoritmos e outros instrumentos digitais – que esmaga os indivíduos e destrói a natureza. A insubmissão é mais do que nunca uma necessidade, um imperativo para nossa sobrevivência como seres humanos. A recusa da servidão voluntária, tão importante na obra de Kafka, é mais do que nunca atual – por mais que haja o ruído digital.

 

Tatiana Rute Pontes Lima, é internacionalista, mestra em governança global e formulação de políticas internacionais e produtora de conteúdo digital.

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