SEM O CAMPO, NÃO HÁ TRANSIÇÃO JUSTA

O dinheiro existe: falta chegar à ponta

Enquanto a COP 30 discute créditos de carbono, satélites e rastreabilidade digital, a maior parte do dinheiro continua parada em estruturas burocráticas e quem realmente produz segue fora das decisões

A COP 30, em Belém, promete marcar uma nova era de compromissos climáticos. Entre eles, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, anunciado com US$ 25 bilhões para apoiar ações de preservação e sustentabilidade[1]. O volume impressiona, mas o histórico preocupa. Em décadas de financiamento ambiental, poucos programas conseguiram fazer o dinheiro chegar a quem realmente produz e preserva.

Nos últimos 20 anos, mais de US$ 230 bilhões[2] foram comprometidos globalmente em fundos verdes e climáticos[3]. Ainda assim, menos de 10% chegou à produção rural ou à recuperação direta de áreas agrícolas[4]. O motivo? Gestão ineficiente, intermediação excessiva e falta de controle na ponta.

A história mostra que o mundo não precisa de mais promessas, e sim de mecanismos que tornem o investimento rastreável até a ponta. O desafio não é captar recursos, é garantir que eles gerem impacto real no campo. Sem mecanismos claros de transparência e controle por propriedade, os recursos se perdem em consultorias, intermediações e estruturas burocráticas, enquanto o produtor, que está na base e poderia gerar o maior impacto, continua sem acesso.

Enquanto a COP 30 discute créditos de carbono, satélites e rastreabilidade digital, a maior parte do dinheiro continua parada em estruturas burocráticas e quem realmente produz segue fora das decisões. A representatividade dos produtores rurais nas discussões da COP é mínima[5], mesmo sendo eles os principais agentes da preservação e da segurança alimentar mundial.

Esse descompasso não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, de cada dólar gasto com comida, apenas US$ 0,16 chega ao produtor[6]. Na União Europeia, essa fatia é de 25%, e no Brasil, de menos de 20%[7]. Ou seja, o dinheiro até circula, mas não chega à ponta, seja o produtor da floresta amazônica, do cerrado ou de uma região agrícola consolidada. A lógica é a mesma nos fundos ambientais: muito discurso, pouca entrega.

Crédito: Jonas Pereira/Agência Senado

É nesse ponto que o debate sobre transparência, rastreabilidade e controle precisa evoluir. O problema não é a tecnologia, mas como aplicá-la para fazer o recurso chegar onde realmente importa. Muito antes de cobrar, é preciso desenvolver, apoiar e conectar — e isso começa com uma gestão feita por propriedade, com dados verificáveis, acessíveis e aderentes à realidade do campo.

A própria Regulamentação Europeia (EUDR), que entra em vigor em dezembro de 2025, é clara ao exigir que produtos agrícolas sejam comprovadamente livres de desmatamento no nível da propriedade. No caso da pecuária, exigir rastreabilidade por animal é inviável para a maioria dos pequenos produtores e apenas transfere o custo de conformidade para quem já atua dentro da lei.

A prova de que os recursos existem é que o próprio consumidor já demonstrou disposição para pagar mais por produtos que valorizam a origem, a ética e a transparência. O problema é que esse valor não chega a quem produz.

Pesquisas recentes reforçam essa tendência global. Um estudo internacional de 2025 mostrou que os consumidores estão dispostos a pagar, em média, 34,5% a mais por produtos provenientes de cadeias curtas e transparentes[8]. Nos Estados Unidos, o levantamento IFIC 2024 revelou que 72%[9] dos consumidores consideram a transparência sobre origem e práticas de produção um fator determinante de compra, e 65% afirmam que pagariam mais por alimentos produzidos de forma ética e sustentável. No Brasil, uma pesquisa da UNESP em parceria com a MDPI (2021) mostrou que a maioria dos consumidores gostaria de ter acesso a informações sobre quem produz e estaria disposta a pagar mais por isso. Já na Europa, o movimento Km 0[10] confirma a mesma lógica: quanto menor a distância entre produtor e consumidor, maior o valor percebido e o preço aceito.

A sustentabilidade não nasce apenas da preservação das florestas, que começa também na forma como consumimos e valorizamos quem produz perto de nós. Comprar de produtores locais é uma das ações mais simples e poderosas para transformar o sistema: gera impacto real, mensurável e imediato.

Modelos bem-sucedidos já existem e começam pelo simples ato de comprar local. Valorizar a produção regional é uma das formas mais eficazes de reduzir emissões, gerar impacto social e reter riqueza no território.

Estudos mostram que fortalecer cadeias regionais gera impacto direto em três frentes: ambiental, econômica e social. Um relatório da MDPI aponta que comprar de produtores locais pode reduzir em até cinco vezes as emissões de carbono associadas ao transporte. Já um estudo da Universidade de Oxford indica que, a cada R$1 gasto com produtores locais, cerca de R$ 0,68 retornam à economia regional. Além disso, o fortalecimento dessas cadeias ajuda a consolidar comunidades, reduzir desperdícios e manter empregos.

A COP 30 será lembrada não pelo valor dos fundos, mas por como e para quem esses recursos foram aplicados. Sem o campo, não há transição justa. E sem remuneração adequada, não há sustentabilidade real. Como dizia Goethe, nada é mais difícil de ver do que é simples.

 

Valmir Rodrigues atua há mais de 25 anos na certificação. Fundador da WQS Group, que se tornou uma das maiores certificadoras das Américas, com mais de 3 mil clientes nos Estados Unidos e 5 mil no Brasil, México e Chile, apoiada por uma rede de mais de 300 auditores e técnicos. Fundador e CEO da My Trusted Source (MyTS), plataforma digital dedicada à gestão, auditoria e transparência nas cadeias produtivas.

[1] Fundo Florestas Tropicais para Sempre – US$ 25 bilhões Fontes: Reuters (20/11/2024), Carbon Brief, The Guardian.

[2] OECD – Climate Finance and the USD 100 Billion Goal (2024 Update).

[3] OCDE, 2024

[4] OECD 2024, Climate Policy Initiative (CPI 2023).

[5] IPES-Food – COP30 Briefing (2024); UNFCCC Observer Groups (2023–2024)

[6] USDA – Food Dollar Series (2024 Edition).

[7] USDA, Cepea/USP, Comissão Europeia

[8] Short Food Supply Chains – SFSC

[9] International Food Information Council – Food & Health Survey 2024.

[10] EU Joint Research Centre (2023); FAO Europe Farm-to-Fork Strategy (2023–2024).

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