Heleno: o primeiro anti-herói brasileiro
A moralidade clama por jogadores militantes e politicamente corretos, mas a cretinice prefere os polêmicos
Reta final do Campeonato Brasileiro de Futebol masculino. Neste ano, marcado pela polarização Palmeiras e Flamengo – com o Cruzeiro despontando como “terceira via”, observamos alguns movimentos interessantes, sendo o mais notável: a queda de rendimento de um dos clubes mais tradicionais do Brasil, o Santos, e de seu ídolo recente, Neymar Jr. Promessas, reclamações, lesões, falas polêmicas, pedidos para ir à Copa do Mundo de 2026, clima pesado no vestiário, derrotas, cobranças. O ídolo vira antagonista, adentra as polêmicas que misturam seu rendimento no campo e sua vida pessoal, mas há quem o defenda apaixonadamente.
Em meio a tantas páginas de fofocas, para muitos saudosistas e amantes do futebol de 30 anos pra cá, a “qualidade” que falta nos jogadores atuais é a chamada “virtude da polêmica”, aquele marcado pelas entrevistas e declarações explosivas, ou até mesmo pela relação extracampo movimentada. Não, não estou advogando a favor ou sendo defensor de tal particularidade no futebol, mas há uma “queda” do torcedor brasileiro, desde sempre, pelo jogador problemático que, no final das contas, resolve e faz acontecer. O jogador não treina, mas na hora do jogo resolve. As histórias mais folclóricas nascem nesses contextos e fazem nascer inúmeros saudosistas e apaixonados.
Essa relação de amor e ódio encarnados na figura do antagonista, ou seja, dessa figura polêmica que suscita admiradores mesmo dos fatos controversos, não é algo novo. É o vilão, que nos últimos tempos, vem sendo explorado de maneira mais humana e ganhando o apreço popular (no cinema, diversos antagonistas ganhando roteiros próprios e destaque). É o portador do ódio que faz contraditoriamente amar. É amar o ódio, ou o objeto odiado.
Assim nasceu, para o futebol, Heleno, o primeiro de todos os bad boy. O primeiro grande que encarnou a figura “macholina” na primeira metade do século XX. Odiado por muitos pela sua toxidade nas relações pessoais e suas polêmicas dentro e fora do campo, também foi amado por personificar o vilão que, no fundo, a maioria costuma amar. Da torcida adversária recebia vaias, apelidos – sendo o mais famoso “Gilda”, em referência à personagem de Rita Hayworth no filme Gilda, por conta de seu temperamento e comportamento perturbado, além de referenciar sua vaidade. Quanto mais torciam contra, mais Heleno brilhava. Ele se alimentava disso.

Raras são as vezes que enaltecemos os jogadores por suas posições políticas, como Sócrates ou Raí, ou por sua vida particular modesta, ou até mesmo pelo seu bom futebol. Na verdade, espera-se por aquele jogador que realiza todos os nossos desejos mais intrépidos, recalcados, já que nós muitas vezes vivemos à mercê de nossos moralismos. É uma forma de vivenciar no outro aquilo que eu mesmo desejo realizar. Por isso muitos não se incomodam quando um jogador bad boy ou midiático estampa mais a capa das revistas de fofoca do que sua presença nos treinamentos. “Ele vai resolver”, dizem seus defensores.
Quem foi a figura emblemática de Heleno? Quem foi Heleno? A história de Heleno de Freitas não é a clássica história do fenômeno brasileiro que emergiu da miséria das favelas do Rio ou de São Paulo ou da desolação do campo no interior do país. Heleno de Freitas é filho de uma família abastada de São João Nepomuceno, pequena cidade de Minas Gerais onde seu pai era dono de uma plantação de café. Com a morte do pai, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Estudou no Colégio São Bento, um dos mais tradicionais da cidade, além de ter se formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Mas os tribunais foram cansativos demais para Heleno. Ele queria mesmo era curtir a vida boêmia, admirar as paisagens naturais do Rio de Janeiro, viver a vida sem responsabilidade. A única responsabilidade era o prazer. E o Botafogo, seu clube do coração e por onde ele mais jogou, era seu também seu prazer. Durante o dia com uma bola aos pés nos intermináveis torneios amadores locais e à noite nas discotecas e restaurantes, em busca de “prazeres” de vários tipos, sexuais, alcoólicos ou com drogas que começou a experimentar desde cedo. Recebeu o epiteto de “Príncipe Maldito”, destacando seu talento extraordinário e sua trajetória recheada de polêmica e excessos, que o levaram à ruína.
Em pouco tempo se tornou o ídolo absoluto da torcida do Botafogo, que hoje já não carece tanto de referência como outrora, pois vivenciou um ano “Glorioso” em 2024, e sua fama não se limitou ao retângulo verde. Heleno atraía olhares. Olhares dos fanáticos torcedores alvinegros e dos admiradores de sua beleza. Era esteticamente atraente e, juntamente com a popularidade que alcançou, foi alçado à estrela da mídia. Heleno teve alguns adversários, não somente zagueiros e marcadores, mas o álcool e o éter, droga popular na época, levaram-no a perda do controle de si. Seus companheiros de clube sofrem junto. O estrelismo exacerbado de Heleno, principalmente quando os bons resultados não vinham, colocava em xeque sua capacidade diante da mídia e diante dos torcedores. Sua célebre frase “não precisa treinar. O que importa é o que eu faço no jogo”, me lembra um baixinho do jacarezinho, um dos maiores atacantes de todos os tempos, que diferentemente de Heleno teve sua oportunidade de ouro em 1994, coisa que o jogador botafoguense não teve, visto que suas oportunidades foram minadas em 1942 e 1946 pela Segunda Guerra Mundial.
Em 1950, todavia, foi cortado pelo técnico Flávio Costa, que passou maus bocados na convivência diária com o jogador, em especial um, que terminou com uma arma apontada por Heleno contra ele que, pela sorte do destino, falhou quando o gatilho foi apertado. Seu gênio incontrolável levou-o à frustração eterna de não ter participado de Copa do Mundo em casa. Copa essa que, para saudosistas da época (como meu pai Renato Barboza, que é fã declarado de Heleno), foi perdida não por conta do goleiro Barbosa, mas pela ausência do astro botafoguense. Barbosa, inclusive, o goleiro negro crucificado por um crime que não cometeu: a falha que nunca houve, num gol indefensável de Alcides Ghiggia aos 34 do segundo tempo.
Voltando a Heleno. Além da série interminável de vícios pessoais (tabaco, álcool e éter), contraiu sífilis, que influenciou muitos de seus comportamentos. Heleno de Freitas ficou cada vez mais fora de si. Quando voltou ao Brasil, depois de uma excelente atuação no futebol colombiano, era uma cópia desbotada do grande atacante das épocas gloriosas no Botafogo. Assim como o clube da estrela solitária em 2023, que vivenciou um primeiro turno apoteótico e animador, quebrando recordes e, no final, declinou e decepcionou, Heleno foi do céu ao inferno achando que seu auge fosse eterno. Ou, como seu clube de coração naquele fatídico ano, que a boa fase era motivo para não tomar cuidado no restante do campeonato.
Diferente de Heleno, o Botafogo aprendeu com seus erros e deu a volta por cima no ano seguinte, vencendo o Brasileirão, depois de 29 anos, e o inédito título da Libertadores em 2024. Lamentavelmente, seu ídolo galã não teve forças para dar a volta por cima.
De um modo ou outro, Heleno foi o vilão que muitos gostariam de ser ou que muitos queriam ter como referência no futebol. Seu jeito sagaz, suas respostas na ponta da língua, seu charme e sedução fora dos campos, sua vida badalada na zona sul carioca, despertava admiração até dos que não torciam pelo alvinegro. Ele ditava a moda entre muitos homens, tanto na vestimenta quanto na postura. Para muitos, gênio incompreendido, punido pela deusa “fortuna”, que na mitologia romana regia a boa ou a má sorte, por não ter disputado a Copa do Mundo. Justamente isso que na seleção brasileira não vemos. A moralidade clama por jogadores militantes e politicamente corretos, mas a cretinice prefere os polêmicos. Muitos preferem os cafajestes aos evangélicos; os sonegadores aos ativistas. Isso transcende questões de mera opinião: é um problema cultural. Mas um pouco de autenticidade atrai, e isso Heleno tinha de sobra, fora outra boa virtude: era tratado como homem, e não como “eterno menino”. Não há escrito, nem em jornal ou biografias, que referencia o “menino Heleno”. Tanto que Marcos Eduardo Neves intitula seu livro destacando Nunca houve um homem como Heleno.
No final das contas, assim como o Botafogo, Heleno não perdeu a reverência e a paixão daqueles que amam histórias e crônicas futebolísticas. Não sou botafoguense, é bom dizer, mas há coisas que só acontecem com o Botafogo, sendo uma delas ter gerado o primeiro grande ídolo brasileiro: o controverso, polêmico e amado Heleno de Freitas.
Railson Barboza é bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Doutorando e Mestre em Política Social (UFF).
Leia: “Nunca Houve um Homem como Heleno”. Marcos Eduardo Neves, Editora Zahar, 2012.
Veja: “Heleno” – Filme dirigido por José Henrique Fonseca e estrelado por Rodrigo Santoro. 2012.
Documentário: “Heleno de Freitas: Jogador problema ou Gênio incompreendido?” – Audiopedia FUT

