ENTREVISTA

Dia Nobre: “Eu não queria colocar a violência no centro; queria que a voz dessas mulheres ganhasse destaque”

Boca do Mundo é o romance de estreia de Dia Nobre, autora que também é historiadora. Ao construir a narrativa, Dia mobiliza não apenas sua formação acadêmica – que lhe dá rigor, contexto e profundidade – mas também as vivências que carrega desde a infância. Esses dois elementos se entrelaçam de maneira orgânica: a pesquisadora e a mulher que cresceu observando o mundo se encontram na escrita, dando ao livro uma densidade sensível e, ao mesmo tempo, enraizada na realidade social que retrata

O primeiro romance de Dia Nobre, Boca do Mundo, traz como seu tema central a interseção entre violência, memória e cura. A autora constrói uma narrativa que, embora centrada na dor, recusa-se a estetizar o sofrimento: seu foco está nas vozes das mulheres que vivem, atravessam e reelaboram a brutalidade cotidiana. Em vez de transformar a violência em espetáculo, a historiadora revela suas nuances, suas permanências e, sobretudo, o modo como as mulheres criam estratégias de sobrevivência em meio a ela. Além disso, o livro traz referências religiosas e místicas da região nordestina, que guia o leitor até o final da história.

Boca do Mundo é a obra escolhida pela Amora Livros para o mês de novembro. O clube de assinatura, dedicado à literatura contemporânea escrita por mulheres no Brasil e no mundo, tem como missão ampliar a visibilidade de autoras e fortalecer suas narrativas.

Na entrevista, Dia Nobre ressaltou a relevância de ler personagens femininas criadas por mulheres. Para ela, ainda falta complexidade às figuras femininas quando escritas sob olhares masculinos: “É como se às personagens femininas faltassem camadas – como se não pudessem ser complexas. Se não são o objeto sexual, viram a megera, a vilã; se não isso, são reduzidas ao papel da vítima.”

O livro acompanha a trajetória de quatro mulheres que se encontram em uma encruzilhada – um dos símbolos centrais da narrativa. Para a autora, quando mulheres se reúnem, revela-se uma força coletiva capaz de enfrentar e resistir às violências impostas pela sociedade patriarcal. “Abigail chega primeiro e funda o povoado; depois nasce Hermínia; Urânia já existe desde sempre; e, por fim, Tereza chega ao lugar. É quando as quatro se encontram que a história realmente começa a ganhar movimento”, explica a Dia.

Crédito: Divulgação

Confira a entrevista:

A obra é seu primeiro romance. O que a moveu a escrevê-la?

Sou historiadora de formação e trabalhei muitos anos na área de história das mulheres – inclusive minha tese de doutorado trata de uma mulher apagada da história. Nos últimos anos, meu interesse tem se voltado para a relação entre invisibilização e violência. Foi a partir disso que surgiu a ideia de contar a história de uma mulher que tenta se reconstruir e narrar a própria trajetória, apesar da violência que sofre.

Escolhi como tema a violência doméstica – que, na verdade, é violência de gênero – porque, no livro, ela aparece de diversas formas. A narrativa começa com Tereza, uma personagem que sofre agressões domésticas e foge dessa situação. Além de ser um assunto que atravessa minhas pesquisas, acredito que ainda é pouco abordado na literatura nacional, ou muitas vezes tratado de forma excessivamente gráfica. Eu queria deslocar o foco: não enfatizar a violência em si, mas evidenciar a voz dessas mulheres.

Embora a violência de gênero seja o pano de fundo, o livro trata de como as mulheres se organizam para reconstruir sua própria história, recuperar sua voz e retomar o controle sobre seus corpos. Considero fundamental falar mais sobre isso – não apenas expondo a violência e revitimizando essas mulheres, mas destacando como elas conseguem retomar o controle sobre si e sobre a narrativa de suas vidas.

A religiosidade e as narrativas do Cariri influenciaram sua escrita?

Sim, totalmente. Fiz faculdade no Cariri – minha graduação em História é pela URCA, a Universidade Regional do Cariri – e comecei pesquisando a história das mulheres dentro da religião, a partir da figura da Beata Maria de Araújo. A própria região é marcada por muitas cosmogonias e mitologias, fortemente inspiradas pelas comunidades indígenas cariris. Existe uma dimensão cosmológica muito presente, algo quase místico.

A religiosidade permeia tudo: não apenas práticas afro-indígenas, mas também o catolicismo, muito forte ali, sobretudo por causa das romarias ao Padre Cícero. Não tem como dissociar minha experiência como mulher caririense da minha forma de escrever – esse universo alimenta meu repertório e influencia as histórias que escolho contar.

Boca do Mundo se passa no sertão de Pernambuco, mas é, na verdade, um sertão ficcional, criado a partir das minhas vivências no Cariri e no sertão pernambucano. São sertões muito diferentes – modos de vida, climas, sotaques, fauna e flora distintos – mas ainda assim, sertões. A partir dessas experiências, construí um território próprio. Vivi no Cariri até os 23 anos, depois morei oito anos no sertão de Pernambuco, e agora estou no leste de Minas. São vivências múltiplas que vão alimentando a minha escrita.

Durante sua formação como leitora, a representação das mulheres escrita por homens era algo que a incomodava?

Bastante. Era muito difícil me identificar, especialmente nas obras escritas por homens. Acho que as mulheres são frequentemente retratadas a partir do que eles imaginam que deveríamos ser – como deveríamos agir, pensar ou nos comportar. Quando falamos de mulheres LGBT, que é o meu caso, enquanto mulher bissexual, essa representação praticamente não existe. E, sem representação, não há identificação.

Mesmo em obras nordestinas muito importantes, como as de Jorge Amado, que trazem personagens femininas marcantes como Tieta e Gabriela, ainda percebo construções estereotipadas. A Gabriela, por exemplo, é objetificada; seu papel está muito ligado ao desejo que desperta, e isso limita sua complexidade enquanto personagem. Para mim, é muito difícil encontrar referências de identificação na literatura escrita por homens, porque a mulher costuma aparecer sempre nesse lugar do “outro”, um reflexo da própria estrutura machista e patriarcal da sociedade, que tende a nos vitimizar, objetificar ou vilanizar.

É como se às personagens femininas faltassem camadas – como se não pudessem ser complexas. Se não são o objeto sexual, viram a megera, a vilã; se não isso, são reduzidas ao papel da vítima. Não consigo pensar em autores homens que me influenciaram nesse sentido de pensar a identidade feminina na literatura. Gosto muito de Lúcio Cardoso, que tem personagens femininas fortes, mas o que me interessa nele é sobretudo a construção narrativa, e menos a representação das mulheres.

Nós, mulheres, somos complexas e múltiplas, mas ainda vemos muitos desses estereótipos repetidos, sobretudo nas novelas. A mulher inteligente e bonita, por exemplo, quase sempre precisa ser a vilã. Ninguém é inteiramente bom ou mau, e o mesmo vale para as personagens femininas – não podem ser apenas a “boazinha”, a “coitadinha” que suporta tudo ou a “megera” absoluta. Temos muitas camadas, e poucos autores homens conseguem capturar essa complexidade.

De que maneira Urânia nasce da ideia de que o espaço também narra?

Quando comecei a pensar no livro, eu não queria um espaço que funcionasse apenas como cenário. Queria um espaço vivo. Sou historiadora e, na História, aprendemos que o senso comum costuma reduzir o campo apenas ao tempo – cronologia, eventos –, mas a História também é feita de espaço. O espaço influencia os acontecimentos e se relaciona constantemente com o tempo. Essa relação aparece no livro o tempo inteiro: um jogo entre tempos – futuro, passado, um tempo onírico, um devir – que se articula com um espaço igualmente mutável.

Urânia, o povoado, surge para mim como um personagem ativo. Não é apenas o lugar onde as coisas acontecem: ele intervém nos acontecimentos, se mistura às personagens e transcende a ideia de território. É um espaço habitado, mas também dotado de personalidade. Por isso, ele narra – porque tem voz própria, porque se metamorfoseia. Urânia se transforma numa serpente que envia sinais às personagens; se transforma num ser encantado que aparece nos sonhos de uma delas, porque precisa se apresentar de algum modo.

A ideia inicial era justamente falar desse sertão, dessa terra complexa, que interfere continuamente na vida de quem a habita. Urânia nasce como essa terra que fala, que vive a história junto com as personagens e que, por isso, também conta.

Elementos do imaginário ancestral do sertão – como as pedras encantadas, os seres místicos e, sobretudo, a serpente – estão presentes na obra. Que papel essas histórias têm na construção da narrativa?

Eles são fundamentais. Quis trabalhar sempre nesse limiar entre o natural e o sobrenatural. E isso me leva inevitavelmente às minhas raízes: nasci em um lugar onde se fala de pedras encantadas, de serpentes que vivem sob altares de igrejas. A Caatinga, bioma onde vivi nos últimos oito anos, em Pernambuco, é repleta de serpentes – é onde se encontra a maior variedade de espécies do Brasil. Para mim, elas são animais particularmente interessantes.

O que mais me atrai na serpente é o fenômeno da ecdise, a troca de pele. Quando pensei nesse animal que se transforma, que abandona uma pele e renasce, vi uma metáfora muito potente para as mulheres da narrativa: mulheres que deixam para trás um passado de violência e constroem novas histórias para si. A serpente, portanto, é um eixo central. Não apenas um símbolo, mas um guia da narrativa.

No cristianismo, ela aparece como figura demonizada – aquela que tenta Eva, aquela sobre cuja cabeça Nossa Senhora pisa. Mas, em outras tradições, é sagrada, justamente pela capacidade de adaptação e resiliência. A serpente sobrevive nos ambientes mais adversos e atravessa praticamente qualquer bioma. A troca de pele, para mim, traduz exatamente esse movimento de resistência e renovação que eu queria dar às personagens.

Por isso, os elementos mágicos, místicos ou fantásticos – dependendo de quem olha – funcionam como chaves de leitura. Eles permitem pensar a história dessas mulheres nesse espaço onde natural e sobrenatural se misturam, onde matéria e imaginação dialogam. A própria Beata Maria de Araújo, que estudei no doutorado e que foi apagada pela Igreja, retorna no livro como santa popular: algo impossível no plano do real, mas possível na ficção, onde eu podia reparar, reinventar e jogar com essas ausências.

As figuras encantadas também surgem como guias simbólicos. O buraco – a “boca do mundo” –, a pedra colocada sobre ele para esconder algo, tudo isso remete à tentativa de deixar o passado para trás e construir uma nova cidade, um novo futuro.

Qual é a importância da encruzilhada para a história?

A encruzilhada representa o encontro dessas quatro mulheres. Quando imaginei um povoado construído no meio de uma encruzilhada, pensei primeiro na força simbólica desse elemento. No cristianismo, a cruz remete a Cristo, ao sofrimento e à ideia de redenção. Nas religiões de matriz africana, a encruzilhada é um ponto de energia e poder, onde caminhos se abrem, desejos podem se realizar e trabalhos são oferecidos a Exu para pedir bênçãos e abertura de caminhos.

Esse simbolismo guiou muito a construção da narrativa – sobretudo a ideia do encontro. A terra que fala, que é praticamente uma personagem, atua também como esse espaço onde as mulheres se cruzam e criam uma rede de apoio para reconstruir suas histórias.

A encruzilhada, portanto, é a metáfora da potência que surge dos encontros entre mulheres. Quando mulheres se reúnem, existe uma força coletiva capaz de enfrentar e resistir às violências impostas pela sociedade patriarcal. Penso muito nessa energia compartilhada – nessa união como prática de luta e de reinvenção.

A figura de Hermínia, desde o próprio resumo, aparece como “a santa das espancadas”. Isso é muito forte. Como você chegou a essa expressão?

A Hermínia é inspirada numa figura histórica pouco conhecida: Maria Isabel da Conceição. Ela foi assassinada pelo marido em 1929, na Serra de Reriutaba, no norte do Ceará. O crime ocorreu diante do filho, e o corpo foi jogado ladeira abaixo. Naquela mesma ladeira, as mulheres da região – estamos falando do início do século XX – começaram a deixar mensagens, flores, pedidos de graça e a fazer orações. Com o tempo, Maria Isabel tornou-se conhecida como “a santa da ladeira das pedras”. A maior parte dos pedidos dirigidos a ela vinha de mulheres que buscavam proteção contra a violência masculina.

Eu estava pesquisando casos de feminicídio quando encontrei esse episódio e fiquei profundamente tocada. Trata-se de um culto popular que praticamente desapareceu hoje, mas que foi significativo ao longo do século XX e cuja origem é justamente a violência brutal que essa mulher sofreu. A partir dessa história, quis criar Hermínia – não como uma reprodução literal, mas como uma personagem que nasce dessa inspiração.

No livro, Hermínia é chamada de “santa das espancadas” porque, para as mulheres do povoado, ela representa essa força protetora. Mas existe uma chave importante aí: para ela mesma, Hermínia não é santa alguma. Ela está presa em um looping angustiante, revivendo continuamente o dia de sua morte, acreditando que todos os homens que mata são o marido que a assassinou. Ela reconhece as mulheres que a procuram porque as vê como espelhos de si mesma. Já para quem crê, para as mulheres devotas, ela se torna santa porque atende – ou parece atender – seus pedidos.

Eu queria mostrar como um culto pode nascer de baixo, da própria experiência coletiva das mulheres que sofrem violência. A devoção à santa das espancadas se forma sem que o nome de Hermínia seja mencionado – há até um tabu em relação a isso; Abigail, por exemplo, evita associar diretamente a figura da santa à filha. Essa construção da santidade pelas próprias mulheres revela também a força da fé como recurso de enfrentamento.

Ao mesmo tempo, essa dimensão sobrenatural funciona como denúncia da insuficiência das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Temos a tipificação do feminicídio, medidas protetivas, redes de atendimento, códigos e números de emergência – mas até que ponto tudo isso funciona sem um processo mais profundo de transformação social?

A eficácia dessas políticas depende, primeiro, da promoção real da igualdade de direitos entre homens e mulheres; segundo, de uma educação que não se limite ao letramento, mas que inclua educação sexual, educação para a equidade e para o reconhecimento do patriarcado como estrutura que ainda organiza a vida social. Apesar de avanços, persiste a ideia de inferioridade feminina – expressa em desigualdade salarial, barreiras na carreira, pressão reprodutiva, heterossexualidade e maternidade compulsórias.

Sem educação que permita às mulheres compreenderem que são donas de seus corpos e de suas histórias – e sem que meninos também aprendam novos modelos de masculinidade – qualquer política pública se torna insuficiente. A violência continua crescendo. As denúncias aumentam, mas quantas delas se resolvem de forma adequada?

Precisamos refletir muito sobre como educar nossas crianças, meninas e meninos, para construir uma sociedade em que haja, de fato, igualdade de direitos e onde essa lógica de superioridade masculina seja desfeita. Sem isso, o Estado segue aquém – e as estatísticas continuam falando a verdade que preferiríamos não ouvir.

O que você aprendeu com esse livro como escritora e o que você espera que os seus leitores aprendam com ele?

Acho que o meu maior desafio ao escrever este livro foi passar de uma escrita acadêmica para uma escrita literária. Foi nele que aprendi, de fato, a fazer literatura. Como professora e acadêmica há quase vinte anos, eu tinha o impulso de explicar tudo minuciosamente, justificando cada ponto. Precisei aprender a deixar espaços para que o leitor também se comunicasse com o texto, para que o livro não se tornasse pedagógico ou didático demais.

Foram quatro anos de escrita – um exercício muito importante para que eu me expressasse em outra linguagem, não mais a acadêmica, mas a literária e ficcional. Embora o livro tenha muitas inspirações históricas e meu repertório como historiadora esteja presente, ele exigiu outro tipo de abordagem. Fiz diversas pesquisas sobre a cronologia dos acontecimentos, sobre a caixinha, sobre a fruticultura irrigada. Grande parte desse estudo não aparece diretamente no livro, mas foi fundamental para a construção do enredo e do ambiente narrativo.

O Boca do Mundo me ensinou a escrever literatura nesse sentido: a confiar mais na narrativa e menos na explicação.

Quanto aos leitores, espero antes de tudo que gostem do livro. Para mim, literatura precisa tocar – e desejo que esta história alcance muitas pessoas, especialmente muitas mulheres.

 

Maíra Oliveira Graça é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

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