Itamar Vieira Júnior encerra a Trilogia da Terra com Coração sem medo, romance sobre a luta dos trabalhadores urbanos e rurais
A obra lançada no segundo semestre de 2025 é um romance sobre o que permanece vivo mesmo quando a violência extrema atravessa e devasta as pessoas
As três obras que compõem a Trilogia da Terra: Torto Arado, Salvar o fogo e Coração sem medo, compartilham não apenas temas e atmosferas, mas também personagens que atravessam os romances e criam uma trama de continuidades. “Rita Preta é bisneta de Donana, avó de Bibiana e Belonísia. A filha de Carmelita – personagem que desaparece no primeiro romance – reaparece mais adiante, estabelecendo outra linha de continuidade. Da mesma forma, Maria Cabocla é a irmã aguardada de Luzia, presença esperada ao longo de boa parte da narrativa e que retorna em Manaíba. Assim, são histórias costuradas por personagens que se cruzam e se prolongam umas nas outras”, explica o autor.
Além disso, a terra e o rio surgem como elementos centrais nos três livros, revelando o poder que um território exerce sobre a vida de quem o habita. Itamar reflete sobre o vínculo profundo que as pessoas mantêm com os lugares onde nasceram ou foram criadas – espaços que carregam significados impossíveis de serem replicados em outros contextos. Viver, experimentar e construir uma trajetória nesses lugares cria uma ligação duradoura, que persiste mesmo diante das rupturas. É essa relação de afeto com o território, com as casas, com o tempo e com o mundo ao redor que está no cerne da trilogia.
Em Coração sem medo, esse elo se expande para os conflitos do presente, articulando campo e cidade em uma narrativa marcada pela violência, mas também pela resistência. O romance se debruça sobre aquilo que sobrevive mesmo quando a vida é atravessada pela brutalidade extrema – a memória, os laços coletivos e a possibilidade de seguir existindo sem abdicar da dignidade. Ao encerrar a trilogia, Itamar reafirma que a terra não é apenas um espaço físico, mas um campo de luta, pertencimento e permanência. “Acredito que Coração Sem Medo seja uma história incômoda, mas que, ainda assim, carrega algo valioso – talvez uma lição, talvez uma possibilidade de esperança”.

Confira a entrevista completa com o autor:
O título evoca coragem, mas também vulnerabilidade. O que significa ter um coração sem medo no contexto da obra?
O título se revela nas histórias que encontramos neste romance – histórias que falam de algo precioso que resistiu. Ao mesmo tempo em que trata de um tempo presente, aquele em que os fatos ocorrem, sobretudo o desaparecimento de Cid, filho de Rita Preta, o livro também atravessa muitos outros tempos que antecedem esse agora. É um romance que fala daquilo que sobreviveu mesmo quando as pessoas foram assoladas por extrema violência. O que fez com que resistissem a toda ordem de impedimentos e brutalidades? Imagino que tenha sido, também, uma certa dose de coragem. Mesmo quando não havia nada, quando se perdia tudo – a roupa, a casa, a terra –, mesmo quando se perdiam as pessoas que mais amávamos, algo ainda resiste, algo permanece em nós. O título faz alusão justamente a esse algo: um medo que, muitas vezes, não devemos ter para seguir em frente, para conseguir viver.
Quando li o livro, senti que a protagonista carrega a memória e a culpa como elementos centrais de sua construção. Ela parece estar sempre atravessada por um sentimento de culpa, constantemente remetida ao próprio passado. Como esses elementos atravessam o enredo no processo de escrita?
Ela está sempre revisitando o passado. Acho que a vida é, ao mesmo tempo, muito curta e muito densa: à medida que envelhecemos, acumulamos experiências, fatos, memórias, e acabamos fazendo uma espécie de inventário daquilo que conseguimos viver. Sobre todos nós, espera-se sempre mais – e ainda mais quando se trata de determinadas pessoas. No caso de Rita, uma mulher negra que vive para criar os filhos, essa expectativa é constante e desigual. Quando algo dá errado, espera-se que ela assuma a responsabilidade, que carregue a culpa. Essa culpa é algo que muitas vezes trazemos desde sempre, sem nem saber exatamente por quê, e é com isso que ela se vê confrontada.
Essa culpa, é claro, não a define, mas nos permite conhecê-la justamente num momento de ruptura: quando algo que estruturava sua vida – o filho – é arrancado dela, sem grandes explicações. A partir daí, ela precisa lidar com um sentimento que a atravessa como mulher e como mãe, como se não lhe fosse permitido ter prazer, diversão, momentos de vida própria. É como se sua existência estivesse autorizada apenas para uma única função. Nesse contexto, a culpa surge quase como algo natural. Ainda assim, Rita não se deixa capturar por ela: essa culpa não a define, e em algum momento ela consegue, inclusive, se libertar dela.
Ao mesmo tempo, a memória desempenha um papel fundamental. Ela aparece em Torto Arado, aparece em Salvar o Fogo. São três histórias que, embora situadas num tempo presente, estão profundamente ancoradas no legado do nosso passado histórico – no legado colonial e escravista vivido pelo Brasil. Não por acaso, ao menos a primeira e a última narrativas tratam da escravidão moderna, seja no campo, seja na cidade. As três falam de um sistema de exploração que condiciona as personagens a um lugar de subalternidade.
Mas como falar de tudo isso se esses eventos foram projetados e executados no passado? Somos herdeiros desse legado. Por isso, é necessário, de alguma maneira, retornar às origens: escrever sobre essa experiência, sobre essa forma de existir; escrever sobre uma ancestralidade que, se por um lado nos legou sentimentos potentes, por outro também foi uma grande fonte de sofrimento, dadas as circunstâncias históricas. Daí esse movimento constante das personagens em direção ao passado, na tentativa de compreender a si mesmas e o mundo ao seu redor – cada uma à sua maneira, muitas vezes de forma involuntária. Não é exatamente uma busca consciente: o passado vai aflorando de modo espontâneo. E é ali que encontram explicações fundamentais para suas vidas e para o cotidiano. O passado, afinal, torna-se uma fonte de conhecimento e também de conexão com as próprias origens.
Quais elementos unem as três obras que faz parte da Trilogia da Terra?
Do ponto de vista da paisagem, do mundo que essas personagens habitam, a grande metáfora que une os três romances é a imagem de um rio que deságua no oceano. Os rios presentes em Torto Arado – o Santo Antônio e o Tinga – são afluentes do Paraguaçu, que se torna a paisagem central de Salvar o Fogo. Coração Sem Medo, por sua vez, é uma história que se passa cada vez mais próxima da cidade. O Paraguaçu deságua na Baía de Todos os Santos, no oceano – lugar onde essa história maior começou.
É impossível falar da trajetória dessas personagens sem falar da diáspora, já que se trata de uma narrativa que atravessa o passado. Não se compreendem suas origens sem lembrar daqueles que cruzaram o Atlântico e desembarcaram na costa do país. A história realiza, assim, um duplo movimento: avança em direção ao interior e, depois, retorna à cidade, ao ponto de partida. São esses deslocamentos – geográficos, históricos e simbólicos – que unem as três histórias.
A Trilogia da Terra propõe uma crítica ao capitalismo, ao patriarcado e ao colonialismo, ou é antes uma tentativa de narrar a sobrevivência dentro dessas estruturas?
Olha, acho que são as duas coisas. Embora o meu compromisso seja com a ficção, com o fazer literário, essas histórias encontram lastro, um arco, no mundo em que nós vivemos.
E esse mundo é diverso, complexo. Pensando dessa maneira, as histórias falam de um sentimento de pertencimento, de vínculo com a terra, com o território, com a cidade. No caso de Coração Sem Medo, esse vínculo aparece quase de forma antagônica ao modo de vida exploratório inaugurado pela colonização e pelo capitalismo – exploratório em todos os sentidos. Exploratório quando se trata dos sistemas de trabalho que empregam os seres humanos, da escravidão à exploração moderna; e exploratório também em relação ao ambiente em que vivemos, ao mundo transformado em recurso, em mercadoria.
A fazenda onde Rita Preta nasce e onde Carmelita vive é um bom exemplo. Ali moravam muitos trabalhadores. Essas pessoas são seduzidas, retiradas daquele lugar, e a fazenda se transforma em um campo de soja. Em determinado momento da história, a personagem retorna a esse espaço, mas já não o reconhece como o lugar onde nasceu. Onde antes havia um rio, brincadeiras com os irmãos, a convivência com a avó, árvores e referências afetivas – uma paisagem viva –, agora existe algo que não pode ser vivido nem experimentado. No campo de soja não há sombra, não há beleza, não há nada que faça sentido para ela ou que sirva como referência.
Por isso, não diria que a literatura, em si, faz uma crítica ao capitalismo. A literatura representa a vida. E a vida revela as contradições que todos nós vivemos. Muitas vezes estamos tão absorvidos pelo mundo à nossa volta que nem nos damos conta delas. Ainda assim, diria que as personagens e a trama fazem, sim, uma crítica ao capitalismo e ao colonialismo, porque há coisas que não cabem nesse modo de viver. Há coisas que o antecedem: nossos sentimentos, a maneira como nos relacionamos com os outros, a começar pela família.
Na família encontramos pontos de referência, pessoas às quais nos afeiçoamos profundamente. E o mundo também nos apresenta outras figuras que nos conectam pelo afeto, pelo amor, pela convivência. Os lugares onde moramos não são apenas lugares. Quando me mudei da casa que meus pais compraram em 2019 – pouco depois da morte do meu pai –, todos nós saímos dali. Meses depois, voltei para buscar algumas coisas que haviam ficado e fui tomado por um sentimento estranho, um vazio enorme, como se alguém naquela casa tivesse morrido.
Como isso é possível, se a casa é apenas uma construção, apenas matéria? Se, dentro desse sistema, ela é apenas um valor – algo que pode ser comprado, vendido ou alugado? Não é só isso. Ela é muito mais. Esses sentimentos são humanos, nos antecedem. Eles não deixaram de existir por causa do capitalismo nem desse modo exploratório de habitar o mundo inaugurado pelo colonialismo.
É disso que a história trata: dessas permanências, dessas forças que ainda não conseguimos elaborar plenamente, nem definir de forma definitiva e poderosa, mas que existem e atravessam as personagens o tempo todo. É isso que está no centro da história – ou das histórias.
Não é apenas uma casa, não são apenas os tijolos e o valor que o capitalismo atribui a ela. Ela faz parte da nossa vida. É quase como se estivéssemos sepultando alguém. O mesmo vale para a terra. Já morei em muitos lugares fora da Bahia e, neste momento, estou fora dela. Quando surgem imagens e lembranças, sei que não foi uma vida simples – houve dificuldades, traumas. Mas também há memórias de afeto: o perfume, a comida, a paisagem, os sons, a temperatura. Tudo isso nos acompanha. Não há um desligamento completo.
Como foi a construção das protagonistas femininas da trilogia?
Eu sempre falo dessas personagens porque cresci numa casa em que as mulheres eram as protagonistas. Minha mãe, minhas tias – tanto por parte de mãe quanto de pai –, minhas avós e bisavós que pude conhecer eram mulheres atravessadas por um mundo de violência ao seu redor, por uma violência estrutural que conhecemos bem, mas que não se dobravam: reagiam. De alguma maneira, elas se impregnaram no meu imaginário.
Mais tarde, aos 25 anos, fui trabalhar no campo. E, quando cheguei lá, encontrei muitas mulheres que espelhavam aquelas mulheres da minha casa. Havia nelas uma natureza parecida. O país, a sociedade, já viviam um processo de mudança. Vi muitas mulheres ocupando lugares que antes eram reservados aos homens: a presidência de associações de trabalhadores rurais, a liderança de movimentos sociais, cargos de direção nos sindicatos. Era um mundo em transformação, e eu queria retratar esse tempo – esse tempo de mudança.
Tanto que, anos depois, pudemos eleger a primeira presidenta da República. Embora isso não signifique que o mundo tenha mudado de forma definitiva – ainda há um caminho longo e árduo pela frente –, esse fato era um sinal dessas transformações. E eu queria que essas histórias, essas três histórias, refletissem o papel que temos no nosso tempo, no nosso mundo.
Além disso, acredito que sejam narrativas que tento escrever, ainda que de maneira limitada, a partir de um paradigma que chamaria de colonial. As mulheres foram historicamente colocadas em um lugar de subalternidade dentro da experiência colonial – projetada, executada e imaginada pelos homens. Assim, uma narrativa que se propõe a desconstruir a colonialidade é, necessariamente, uma narrativa que devolve protagonismo àqueles que foram subalternizados. Não apenas às mulheres, mas também às pessoas negras e indígenas, como aparece em Salvar o Fogo.
E, além de tudo isso, são histórias que falam da relação que essas personagens mantêm com a terra. A terra, na nossa língua, é uma palavra feminina: a terra. Antes da chegada dos colonizadores a este continente, alguns povos originários cultuavam a terra como uma deusa-mulher, a Pachamama. Creio que tudo isso, em conjunto, conflui para a composição dessas personagens.
O resto vem da observação e da imaginação – muita imaginação. Ainda bem que a literatura é esse lugar de experimentação, onde podemos viver a vida do outro. Um espaço em que exercemos autoridade não apenas quando escrevemos, mas também quando lemos, ao nos colocarmos no lugar das personagens.
Desde Torturado, que é o primeiro livro, você já sabia que ia ser uma trilogia?
Quando iniciei a escrita de Torto Arado, não tinha a ideia de uma trilogia. Mas, por volta da página 150, talvez, percebi o quanto aquela história se desdobrava e ganhava outros contornos. Eu dizia a mim mesmo: essas personagens não vão conseguir chegar à cidade, aqui onde eu estou. Entendi que precisaria seguir outros caminhos, assumir o projeto de narrar aquela complexidade que se apresentava diante de mim.
No início do primeiro livro, comecei com um sentimento muito ingênuo e simples. Queria escrever uma história que retratasse o sentimento de amor – de apego – que vi muitos trabalhadores rurais declararem e viverem em relação à terra. Muitas vezes, eles perdiam essa terra para fazendeiros ou para o Estado; não conseguiam comprovar o domínio e eram obrigados a viver de um lugar para outro. Eu queria narrar essa história, essa história de amor, que era, a princípio, simples e ingênua.
Mas, durante a escrita de Torto Arado, isso se tornou mais complexo. Percebi que o que eu imaginava ser apenas uma história de amor era, na verdade, algo muito maior. Eu estava escrevendo sobre uma dimensão vital da nossa vida: a relação com a terra, com o lugar, com o território. E não apenas das pessoas do campo, mas de todos os seres vivos – não somos apenas os seres humanos. Mas, para não complicar demais, fiquemos com os humanos. Todos os seres viventes estabelecem uma relação com a terra, com o território. Sem terra, não há vida.
Nós, que moramos na cidade, transitamos pelas ruas, vivemos em casas. Não há vida sem que os nossos pés toquem o chão. Não há vida sem o chão que pisamos. Foi essa consciência, reunindo todos esses elementos, que me fez entender que aquele romance se desdobraria.
Tanto que, antes de publicar o livro no Brasil, escrevi uma carta ao editor, Leandro Sarmatz, comunicando que Torto Arado era o início de um projeto maior. A editora acolheu essa ideia, embora eu mesmo não soubesse se conseguiria executá-la como desejava – só o tempo poderia dizer. À medida que o trabalho avançou, fui ganhando a consciência de que isso se realizaria.
Por isso, quando lancei Salvar o Fogo, ele já veio apresentado como a segunda parte do que passei a chamar de Trilogia da Terra. Esse percurso se conclui agora com a publicação de Coração Sem Medo.
Quais foram os maiores desafios para encerrar essa trilogia?
Acho que cada história trouxe um desafio próprio, pois cada uma exige uma forma particular de ser contada. À medida que escrevemos e publicamos com mais frequência, tendemos a nos tornar mais exigentes conosco – e comigo não foi diferente. Fiquei mais rigoroso. Creio que o maior desafio na escrita deste livro foi encontrar o tom adequado para narrar essa história. Primeiro porque se trata de uma história dura, forte, marcada por grande violência. Eu precisava ter delicadeza e cuidado para que o texto literário não se tornasse sensacionalista. Pelo contrário, era necessário preservar certa contenção, alguma elegância, para narrar essa experiência de maneira literária.
Por isso, precisei começar e recomeçar a escrita muitas vezes, experimentando pontos de vista, vozes narrativas e estruturas diferentes. Talvez eu tenha escrito, abandonado e descartado os dez primeiros capítulos umas seis vezes, até finalmente encontrar o tom. Eu sabia que isso fazia parte do processo.
Há livros que fluem com mais facilidade, que parecem se escrever quase sozinhos. Mas, na maioria das vezes, é preciso experimentar até descobrir como aquela história pede para ser contada: em primeira, segunda ou terceira pessoa; no passado ou no presente; a partir de qual perspectiva; se conduzida por uma personagem ou por um narrador. Até que tudo isso se resolva, o que se escreve ainda é experimento – e esse experimento é o próprio processo de escrita.
É preciso, então, ter paciência e atenção para se deixar guiar pelo que precisa ser contado e encontrar a forma adequada de contar. Para mim, isso foi um grande desafio – e ainda bem que foi assim. Que nada esteja resolvido de antemão, que tudo se resolva no próprio ato de escrever.
Durante o processo de escrita dos livros, você teve algum autor ou alguma obra literária como inspiração?
Houve, sim, algumas obras que serviram de inspiração. Em particular, duas tragédias gregas que tratam da mesma personagem sob perspectivas distintas. Uma delas é Hécuba, de Eurípides, que narra a história dessa mãe que deseja vingança pela morte dos filhos na guerra. A outra é As Troianas, também de Eurípides, que aborda essa personagem de maneira diferente.
Além disso, revisitei Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt Brecht. A trajetória de Anna Fierling, o que ela atravessa durante a guerra e a morte de seus filhos, também foi uma fonte importante de inspiração para mim.
Para além dessas peças teatrais – uma da tragédia grega e outra do teatro político do início do século XX –, houve ainda um romance que reli durante o processo de escrita, e que gosto muito, embora esteja fora de catálogo no Brasil: Ana-não, de Agustín Gómez Arcos. O livro conta a história de Ana Paúcha, uma mulher marcada pelo sofrimento, que perdeu o marido e todos os filhos na guerra. Esse romance foi, para mim, uma fonte muito forte de inspiração, à qual retornei durante a escrita do livro.
Para finalizar, há algo que você gostaria de dizer aos leitores sobre Coração Sem Medo e sobre a Trilogia da Terra?
Sobre Coração Sem Medo, eu diria que foi um livro duro, difícil de escrever. É uma obra ancorada no drama – um drama humano, milenar. Basta pensar em quanto tempo atrás foi escrita Hécuba, de Eurípides.
Trata-se, portanto, de uma história universal, mas também profundamente ligada ao nosso tempo. É uma história que atravessa a experiência de muitas mães brasileiras, de mulheres que viveram a ditadura, em diferentes países e contextos. Hoje, esse drama continua a assolar as mães negras das periferias das cidades brasileiras – como as Mães de Acari ou Marli Coragem, uma personagem pouco conhecida, mas que enfrentou a polícia no fim dos anos 1970 e 1980 em busca de respostas pela morte do irmão e, anos mais tarde, do próprio filho.
Esse é um drama humano que atravessa a história da dramaturgia e da literatura, mas que permanece atual. Gosto de lembrar uma frase da Conceição Evaristo, escritora que admiro muito, quando ela diz que não escreve para “ninar o sono da casa-grande”. É mais ou menos isso.
Maíra Oliveira Graça é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

