DI: delírio e intolerância
A retórica religiosa, como símbolo, é utilizada para escamotear conflitos que, em sua essência, continuam sendo disputas por poder econômico, político e cultural. O maior trunfo de Mamdani é ter conseguido ganhar a eleição de Nova York furando o império da grande mídia e do “dindim”. E as investidas de Trump têm por objetivo nos lembrar que, por enquanto, a América Latina ainda é o seu quintal
O Renascimento (europeu) é propalado e celebrado como a retomada do espírito racional, criativo e “desenvolvimentista” da Antiguidade (europeia) após o milenar período que se convencionou chamar de Idade das Trevas. Em 1453, a leste, o oriental Império Bizantino foi capturado pelo Império Otomano, sob a liderança do sultão Maomé II. No extremo oposto da Europa, em 1492, os Reis Católicos de Castela e Aragão conquistaram Granada e expulsaram os muçulmanos e os judeus da Península Ibérica, encerrando séculos de coexistência profícua entre os adeptos das religiões abraâmicas. Com a queda de Constantinopla, herdeira direta da cultura greco-romana, os manuscritos clássicos voltaram para a Europa; e, com a expulsão dos mouros, as versões árabes dos antigos originais também ficaram acessíveis aos literatos europeus.
Durante o Renascimento, as inquisições católicas se ocuparam em perseguir, torturar e queimar incrédulos cristãos novos remanescentes, mouriscos e judeus marranos. O fato de a Europa ter se transformado em um continente eminentemente cristão não impediu divisões e sangrentos conflitos religiosos entre católicos e hereges dissidentes protestantes, sempre em nome de Cristo. Enquanto o discurso renascentista exaltava a razão, a liberdade e o humanismo, a prática política e religiosa europeia reafirmava a intolerância e a violência como fundamentos de poder.
A expansão ultramarina dos europeus a partir do século XV permitiu a ocupação das Américas e a emigração de europeus para o “Novo Mundo”. Sob o pretexto de difundir a fé cristã e a civilização, as potências europeias oprimiram os indígenas “selvagens”, de modo a “salvar as suas almas”. Alianças táticas com facções e povos nativos rivais foram estabelecidas para subjugar e exterminar gradualmente tanto povos nômades como sofisticados impérios constituídos – asteca, maia, inca etc. Alianças com ameríndios rivais também foram utilizadas nos combates entre adversários europeus pelo domínio das Américas. Em relação à divisão das Américas e da Ásia entre Espanha e Portugal, sacramentada pelo Vaticano, François Ier declarou – “Le soleil luit pour moi comme pour les autres. Je voudrais bien voir la clause du testament d’ Adam qui m’exclut du partage du monde.” O sol só não brilhava para os indígenas, que não eram herdeiros da Bíblia.
Habitantes da África, igualmente considerados bárbaros e selvagens, foram compulsoriamente transladados para as Américas, oprimidos e escravizados. Enquanto se ocupavam efetivamente com a exploração e o extermínio de povos inteiros, os europeus se empenharam em demonizar as crenças e as religiões ancestrais dos povos das Américas e da África, legitimando espiritualmente a destruição de suas culturas.
No século XIX, após a Revolução Industrial (inglesa), os entrepostos comerciais estabelecidos durante a expansão ultramarina deram lugar à ocupação europeia da Índia, China, Japão e outras nações da longínqua Ásia, que foram submetidas a pressões coloniais, intervenções militares e à imposição de tratados desiguais que garantiam o controle europeu sobre seus mercados e recursos. Com o fim da Era dos Impérios, por obra da Primeira Guerra Mundial, o ocidente acabou por dominar o Oriente Próximo e Médio. E, assim, chegamos ao século XXI, com a China ressurgindo das cinzas, os Estados Unidos alucinados diante da perda de sua hegemonia internacional e o mundo mergulhado em conflitos.
Fenótipos, línguas e nacionalidades se sobrepõem a religiões. Europeus cristãos – brancos dos dois lados do Atlântico – hostilizam católicos e protestantes de origem ameríndia, negra, árabe e asiática, assim como cristãos ortodoxos eslavos (russos etc.), reafirmando hierarquias raciais travestidas de antagonismos culturais. Em muitos casos, judeus, historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, agora passam a ser vistos como europeus em território asiático, em guerra santa contra o Islão. Antigas categorias de fé e civilização se embaralham e se instrumentalizam, servindo eternamente à conquista e manutenção do controle e da dominação. A retórica religiosa, como símbolo, é utilizada para escamotear conflitos que, em sua essência, continuam sendo disputas por poder econômico, político e cultural.
Estava rabiscando este texto quando recebi um e-mail de uma amiga brasileira que tem uma filha morando nos Estados Unidos, casada com um norte-americano – “Até mesmo o estado em que mora está deixando de ser tranquilo e os artistas, amigos de minha filha, estão com medo e todos já compraram armas.” Nos Estados Unidos é possível comprar armas de fogo em alguns supermercados, como o Walmart. Apesar de ter escrito American Revolution, fiquei perplexo e perguntei se os amigos são norte-americanos ou imigrantes. Minha amiga respondeu – “São norte-americanos e minha filha, a única latina deste grupo, não aderiu, disse que não irá comprar arma e não vai fazer aula de tiro. Os amigos artistas continuam sensíveis e generosos, mas parece que esta onda está realmente forte por lá.”
E, aí, vieram as notícias da eleição do jovem Zohran Mamdani à prefeitura da Cidade de Nova York – imigrante naturalizado, filiado ao DSA, Democratic Socialists of America (leia-se comunista, termo proibido nos Estados Unidos), além de muçulmano e pró-palestino – “Deus salve a América”. Contudo, o maior trunfo de Mamdani é ter conseguido ganhar a eleição de Nova York furando o império da grande mídia e do “dindim”.

Mesmo o intelectualizado, impecável e consagrado veículo The New Yorker, aparentemente simpático ao jovem socialista, acabou cruzando os limites para, “inocentemente”, perguntar se Mamdani – educado em bons e onerosos colégios – teria coragem de colocar um filho seu no sistema público de educação; e se não temia ser assassinado na tão violenta sociedade norte-americana. Fazer perguntas de caráter pessoal em meio a discussões políticas é considerado altamente antiético nos Estados Unidos. O interlocutor, nesse caso, diria “you crossed the line”. Mas Zohran, sorrindo, respondeu que, quando tiver filhos, o prefeito de Nova York será ele; e que não pensa na morte. Eric Adams, então prefeito em exercício, não retirou sua candidatura por conta das denúncias de corrupção, declarou ter renunciado à reeleição porque, com as investigações em curso, não poderia contar com o financiamento necessário para uma campanha eleitoral de sucesso.
No Brasil, particularmente, a herança de contradições históricas manifesta-se em novas formas de intolerância. A elite católica, herdeira da tradição colonial, hostiliza os protestantes clássicos e, sobretudo, o novo e crescente contingente de pentecostais e neopentecostais que, por sua vez, demonizam as religiões de matrizes indígenas e africanas. Sob o véu da fé, persistem antigas hierarquias raciais e culturais.
Como pano de fundo, a intolerância é acompanhada por conflitos em relações pessoais e no interior das próprias famílias. O ódio, travestido de virtude moral ou zelo espiritual, revela-se como um espelho que nos remete ao delírio da humanidade – uma humanidade que, ao longo dos séculos, jamais cessou de perseguir o próximo que diz amar. Uranus foi destronado pelo filho que, por sua vez, se encarregou de engolir seus descendentes ao nascer, por temer ser destronado. Édipo exterminou o pai que havia lhe encaminhado prematuramente à morte e seus filhos mataram-se reciprocamente em duelo. Clitemnestra assassinou o esposo Agamenon, deixando o filho em uma sinuca de bico.
Palestino budista, xangô e corinthiano, sigo o lema de Santo Agostinho, “Fazer bem a todos, mal a ninguém”. A intolerância é contagiosa, mas a tolerância também. E, aqui, vou me permitir narrar uma historinha chinesa. Uma mulher não suportava a sogra que morava com o casal e transformava a sua vida em um inferno. Procurou um fitoterapeuta e solicitou uma erva que pudesse matar a velha. O ancião forneceu a droga que deveria ser adicionada à refeição da sogra, com efeito cumulativo. Adicionalmente, orientou-a, por precaução, a se mostrar gentil com a vítima, para evitar suspeitas. A mulher, antecipadamente muito contente com o futuro que a esperava, passou a agradar a velha que, por sua vez, retribuía as suas gentilezas. Depois de algum tempo, a mulher voltou a procurar o fitoterapeuta, desta vez dizendo que tinha mudado de ideia, não queria mais matar a velha. O ancião disse para ela não se preocupar, porque havia receitado um fortificante no lugar de veneno.
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de New York, New York.

