Jones Manoel e a esperança da Revolução Brasileira
Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, o político e historiador analisa a conjuntura brasileira na atualidade

Jones Manoel é historiador, político, professor, comunicador e militante, oriundo da favela de Borborema, em Recife. Ele encontrou nos estudos o que seria a sua profissão. E, posteriormente, construiu uma carreira em prol de uma nova frente de luta brasileira. Autodeclarado marxista, leninista e comunista, Jones se tornou uma das principais vozes da esquerda radical brasileira ao se filiar ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), um partido sem registro formal.
Na época de estudante na Universidade de Pernambuco (UFPE) e professor em um cursinho popular, ele ajudou mais de 30 jovens a entrar em faculdades de Recife. “Eu tinha um senso progressista de mudar o mundo a partir da educação; porém, no decorrer do processo dos estudos, eu fui vendo que essa percepção era limitada”, confessa.
Ele ainda complementa que: “na transição dos 20 para os 21 anos, para mim ficou muito claro que era fundamental ter uma militância política visando a disputa do poder político. A partir daí, eu decidi atuar em um movimento estudantil e começar a minha vida de militante”.
Com 36 anos, Jones enfrenta neste ano as eleições para a Câmara dos Deputados, afiliado ao PCBR, em parceria democrática com o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Em camiseta vermelha, ele conversa com o Le Monde Diplomatique Brasil sobre a sua filiação com o partido socialista em 2026 e analisa a profundidade do cenário político brasileiro diante da incerteza.
A seguir, confira a entrevista na íntegra.
Em 2025, foi anunciado que o PSOL tem interesse em lançá-lo como deputado federal. Como isso pode impactar na sua eleição, agora com um partido político?
O PCBR é um partido, inclusive já está em mais de 22 estados, mas ele não tem registro eleitoral ainda. Desde 2016, a legislação eleitoral brasileira vem passando por uma série sucessiva de modificações e tem ficado mais difícil legalizar uma nova organização política.
Por não haver possibilidades de fazer uma frente da esquerda radical em uma candidatura presidencial, o PCBR decidiu fazer uma filiação democrática ao PSOL e me lançar candidato a deputado federal em Pernambuco, por uma tática eleitoral, a partir do pressuposto de que seria muito importante, para o movimento comunista brasileiro e para toda a classe trabalhadora, ter um deputado comunista.
Partindo da premissa que o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) não pratica a sua política comunista, a gente pode dizer com tranquilidade que a gente não tem um deputado comunista no Congresso Nacional há mais de 30 anos [último deputado eleito do PCB foi Roberto Freire em 1986]. Isso mostraria outras possibilidades de um fazer político revolucionário usando o espaço institucional para organizar a classe, para aumentar o nível de consciência, para fazer denúncias, mobilização e pautar de maneira permanente, também nos espaços institucionais, um projeto de revolução brasileira.
A gente está em negociação interna com o PSOL, há várias de suas correntes que já manifestaram entusiasmo e concordância com esta filiação democrática, porque inclusive ela ajuda o PSOL a crescer do ponto de vista da sua bancada parlamentar. Vale lembrar também que o PSOL nunca elegeu um deputado federal pelo Nordeste, então há a possibilidade de ser a primeira vitória eleitoral para o Congresso Nacional, o que também é muito significativo.
Mas a eleição para deputado federal é uma muito concorrida; aqui em Pernambuco, por exemplo, o quociente eleitoral é 200 mil votos. A gente tem expectativas muito positivas de um resultado eleitoral que vai fazer história no debate político e eleitoral brasileiro. Voltaremos a ter um comunista no Congresso Nacional.
Você diz em podcasts e entrevistas que considera concorrer à presidência no futuro, quais seriam as suas principais propostas?
Essa era a minha vontade pessoal. Não era meu objetivo concorrer a deputado em 2026, eu fui convencido pelos debates internos do PCBR. Historicamente no Brasil, o povo tem uma perspectiva muito presidencialista, sabe-se o nome do presidente, mas o nome do deputado ou senador não é lá muito relevante. O debate político eleitoral é centralizado na figura do presidente e a campanha presidencial tem um papel muito importante na pedagogia política. A gente tem certeza que uma campanha de esquerda radical, tocando os principais temas vividos pela classe trabalhadora, apontando a dimensão da crise capitalista que a gente vive no Brasil e no mundo e da falência da democracia burguesa, ou seja, uma proposta antissistêmica de esquerda, teria muita, mas muita adesão.
A gente já vê isso, inclusive, em outros países, vale destacar os resultados da eleição legislativa da França, e, na boca do monstro, o novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, com um discurso abertamente socialista, criticando os bilionários, defendendo o povo palestino e os serviços públicos universais. Então, a minha equipe faria um debate centrado num conjunto de reformas populares, radicais e estruturais que apontassem na direção da revolução brasileira.
Não que a gente ache que dá pra fazer revolução na democracia burguesa, mas dá para aumentar o nível de consciência crítica, agitar, politizar e arrancar conquistas imediatas para o povo. Evidentemente, no âmbito desta entrevista, não dá pra resumir todos os pontos do debate, mas cito três que acho muito importantes: as relações de trabalho atualmente, o controle nacional das riquezas naturais e a qualidade dos serviços públicos.
Todo trabalhador sente que trabalha cada vez mais, em empregos piores e ganha cada vez menos. Então, há um elemento da qualidade, de como os salários não crescem, e sem perspectiva de progredir, já a aposentadoria e a velhice são cada vez mais incertas. Isso tem um elemento de mobilização ampla na classe trabalhadora.
Do mesmo jeito que há amplas repercussões na classe trabalhadora, é importante debater sobre o controle nacional e popular das riquezas naturais do Brasil. O Brasil é um país autossuficiente em petróleo, mas a gasolina continua sendo uma fortuna. Assim como esse país é o detentor da segunda maior reserva de terras raras do mundo, que é palco de uma disputa global entre Estados Unidos e China, a gente não tem nenhum projeto nacional de gestão e uso das terras raras. Em um país tão rico em petróleo, e minérios críticos, com a disponibilidade absurda de terra, de sol, de água, por que a gente paga tão caro no combustível? Por que a gente não consegue industrializar nossos recursos naturais estratégicos?
O preço dos alimentos é um absurdo e a gente tem uma degradação da alimentação do brasileiro a partir da explosão do consumo de ultraprocessados. Não se tem um debate sobre a reforma agrária no Brasil, sobre um planejamento do uso do solo, ou um zoneamento econômico territorial do uso do solo no Brasil.
O sistema de saúde, o SUS, por sua vez, tem que ser valorizado e defendido, mas tem as suas precariedades. A classe trabalhadora hoje vai para o plano de saúde porque o SUS não atende às suas expectativas, mas uma melhora e uma ampliação quantitativa e qualitativa do serviço oferecido pelo SUS ia ter um impacto imediato inclusive no consumo, na geração do emprego. Já a educação brasileira vive um verdadeiro colapso. Há uma demanda da classe trabalhadora por melhora substantiva dos serviços públicos.
Infelizmente, não terá um candidato de esquerda radical nas eleições de 2026. O que é uma pena, porque do lado da direita você vê ‘50 tons de direita e extrema direita’, são 7 ou 8 candidatos colocados. Do lado da esquerda, você só tem o Lula. Isso é ruim para o próprio debate público, porque a sociedade brasileira vai se acostumando com a ideia de que parece que a direita que está certa, porque tem mais opções e é mais apoiada. Por mais que no voto isso não signifique a vitória deles, acho que é uma vitória ideológica, porque vai se normalizando o absurdo. A existência de figuras como Zema, Caiado, Aldo Rebelo, vai ajudar a naturalizar aquele candidato da extrema direita ou da direita como alguém até racional ou moderado, se comparado com os outros candidatos.
Em 2026, o Lula vai candidatar-se apenas com outros candidatos de direita, como você acha que isso vai impactar a democracia?
Eu acho que vai ser muito ruim para o Brasil, porque o debate vai ser favorecido pela direita. Eu acho que vai ser um debate centrado nessa ideologia neoliberal de responsabilidade fiscal, de corte de gastos, de Venezuela e de Cuba e de corrupção. Nenhum dos temas fundamentais do país vão ser tocados.
A tônica ideológica do debate [em 2026] vai ser dada pela direita. Muita gente no Brasil acredita que o resultado eleitoral define a correlação de forças políticas. Quando na verdade não. A tendência da consciência da massa trabalhadora é ir para onde estão indo os debates políticos.
A compreensão dos problemas da realidade e suas soluções é muito importante para definir os rumos políticos do país. Mas o Lula e o PT são incapazes de pautar um programa político à esquerda. Por quê? A meu ver, o partido elabora um governo neoliberal, mas que procura ter algumas políticas públicas que atendam às necessidades pequenas e imediatas da classe trabalhadora.
Veja a política de defesa nacional do governo. O Brasil tem uma doutrina militar e Forças Armadas que estão subordinadas aos Estados Unidos. Ele importa 90% do seu equipamento de defesa de países membros da Otan. A estrutura de organização das forças armadas no Brasil é pensada para combater o inimigo interno — leia-se, trabalhadores e trabalhadoras —, não para fazer a defesa nacional. Em 2026, o Lula vai fazer discursos formais sobre soberania, mas em seu quinto mandato, não existe mais dúvidas que dali não sai nenhum projeto soberano, nacional e popular para pensar desenvolvimento de ciência e tecnologia, pensar reindustrialização no Brasil e uma política séria para o complexo econômico e industrial da saúde; para fazer uma verdadeira revolução educacional e cultural no Brasil.

Por que o Brasil não vê um projeto a longo prazo?
Eu acho que o maior problema que está colocado é que a burguesia brasileira não tem um projeto de país soberano e autônomo. A classe dominante brasileira já está muito bem ambientada a uma dependência, a uma subordinação na divisão internacional do trabalho, uma subordinação política, econômica, militar, institucional, tecnológica aos Estados Unidos. Um projeto soberano do país só vem da classe trabalhadora. A maioria das organizações políticas de esquerda que lideram e hegemonizaram a classe trabalhadora é que, leia-se principalmente o PT, não tem projeto de país. E eu acho que a gente não tem direito à inocência, é o quinto governo petista. O presidente Lula é líder da esquerda brasileira há quarenta anos.
Como os debates online auxiliaram a expansão de suas ideias de esquerda?
Os debates na internet se enquadram muito dentro da definição clássica da tradição comunista, da diferenciação entre ‘agitação’ e ‘propaganda’. A gente poderia dizer que ‘propaganda’ é a produção e difusão de muitas ideias para poucas pessoas. Seria aquela elaboração com mais densidade teórica que acaba que nem toda a classe trabalhadora vai ter acesso, vai conseguir consumir de imediato. Já a ‘agitação’ seria, nas palavras do Lênin, poucas palavras para muitas pessoas. Seria aquele elemento mais agitativo, a palavra de ordem, o slogan, a mensagem rápida e simples de ser compreendida pelo maior número possível de pessoas. Historicamente, no meu canal, eu venho fazendo propaganda, debates teóricos mais densos com autores e autoras de livros, conceitos e categorias. Isso teve um impacto positivo, continua tendo. Há anos, mas eu sinto a necessidade de reforçar o elemento de ‘agitação’ a partir da comunicação digital.
O Brasil, infelizmente, consome muito o que é tendência cultural nos Estados Unidos. E eu me dei conta dessa tendência dos debates online nos Estados Unidos, de ‘esquerda versus direita’. Quando eu decidi entrar nesses debates que chegaram ao Brasil, foi a partir de uma aposta comunicacional e política que isso teria grande repercussão e sucesso. Essa repercussão ajudou a tornar o trabalho mais conhecido, em sentido amplo, os livros, textos, vídeos no canal, palestras, e acabou dando muito certo. Quando você usa ferramentas de busca de redes, você vai ver que 2025 foi o ano em que eu fui mais citado, comentado e buscado nas redes sociais de toda a história da minha militância.
Queria saber se você gostaria de se pronunciar acerca da exclusão de suas contas no Instagram e Facebook?
Eu acho que está muito claro, e o governo Trump nesse sentido ajudou nisso, a compreender o caráter político das big techs. As big techs são grandes monopólios capitalistas, sediados nos Estados Unidos, ligados de maneira orgânica ao interesse estratégico do imperialismo estadunidense. Elas têm lado. Inclusive, existem várias pesquisas comprovando que há uma predisposição da governança algorítmica a circular mais conteúdos de direita e de extrema direita que conteúdos de esquerda. O caso do genocídio contra o povo palestino deixou muito claro como várias contas que circulavam informações críticas a Israel e positivas em defesa do povo palestino tiveram alcance reduzido ou banido. Esse episódio para a gente foi muito didático, para mostrar o lado político, para quem tem dúvida, das big techs.
A minha equipe iniciou um processo judicial que está correndo até hoje, porque a gente não tem uma explicação formal da Meta sobre o que aconteceu. Estamos com um processo judicial, não só cobrando a explicação formal, como uma indenização.
Por fim, quais obras de esquerda você recomendaria para os leitores do Diplô se prepararem para as eleições em 2026?
No meu canal, no Farol Brasil, eu lancei uma lista de dez livros que você precisa ler para 2026. Dessa lista, eu vou citar só dois livros aqui, que eu acho importantes para a gente pensar temas que vão ser importantes na conjuntura brasileira. Acho que o primeiro livro é o livro da Clara Mattei, A ordem do Capital: como os economistas inventaram a austeridade e fortaleceram o fascismo, publicado pela Boitempo.
É um livro que destrincha o que é a essência do programa neoliberal de austeridade que é praticado pelo governo Lula, também defendido por Tarcísio, por Zema, por Caiado, por Ratinho Júnior. Nesse sentido, eles têm uma concordância fundamental no marco da macroeconomia. Esse livro é muito bom.

O segundo livro é o livro do Clóvis Moura, A dialética radical do Brasil negro, que é um livro que pensa a formação social brasileira em longa duração histórica e debate a questão racial na formação do capitalismo dependente brasileiro. O livro reflete sobre por que o Brasil padece historicamente e segue com altíssimos níveis de desigualdade.
Eu acho que a maioria do que se chama de esquerda brasileira perdeu a capacidade de fazer formação política, fazer formação teórica, de difundir de maneira didática, sem perder a profundidade, conceitos, categorias que são muito importantes. A gente precisa dar cada vez mais atenção à teoria, à formulação, ao estudo, a pensar o Brasil no longo prazo. Eu fico muito, mas muito assustado quando percebo que muita gente quer resumir a realidade brasileira a um mero debate eleitoral do momento.
Existem problemas muito mais profundos do que essa epiderme de debate “bolsonaristas versus petistas”. Em última instância, isso não cria esperança de futuro para o Brasil. Isso não delineia um projeto de país que, para a gente, é a Revolução Brasileira. É a conquista do poder pelos trabalhadores. Mas isso não resolve os problemas fundamentais do Brasil.
O que eu recomendaria? Eu recomendo para as pessoas estudarem, para as pessoas lerem. A gente precisa da densidade teórica. A direita é mais simples, é mais direta. Trabalhar com meme, com fake news. Para quem quer manter a ordem dominante, quem quer manter o status quo, você não precisa de reflexão, porque está dado. É só reproduzir. Para quem quer transformar radicalmente a realidade, acho que precisa necessariamente navegar em águas mais profundas e avançar no entendimento crítico das pessoas.
*Regina Lemmi é jornalista em formação pela Universidade de São Paulo (USP)

