RENEE NICOLE GOOD

Por que o ICE deve ser compreendido como terrorista?

A morte de Good é um exemplo extremo de como agências federais com poderes amplos e vagamente delimitados podem empregar força letal contra populações civis sem responsabilização transparente – e de por que qualquer cidadão sensato afirma que essas agências operam de maneiras que aterrorizam comunidades

Em 7 de janeiro de 2026, Renee Nicole Good – mãe, poeta e residente de Minnesota, de 37 anos – foi morta a tiros por um agente do ICE em Minneapolis. Good não era uma criminosa violenta; de acordo com múltiplos relatos de testemunhas e vídeos, ela estava desarmada dentro de seu veículo durante uma grande operação federal de fiscalização migratória quando um agente disparou várias vezes, a matando. Pessoas que denunciam e pessoas que defendem esse assassinato recorrem ao termo “terrorismo doméstico” para explicar essa situação tenebrosa.

O terrorismo doméstico consiste em atos violentos e criminosos cometidos por indivíduos ou grupos para promover objetivos ideológicos; é impertinente debater quem, nesse cenário, é o verdadeiro terrorista. Good resistia pacificamente às ações de agentes de uma instituição ideológica que comete crimes violentos para instalar o medo em contingentes marginalizados da sociedade americana – e enfrentou a fúria letal deles.

A morte de Good é um exemplo extremo de como agências federais com poderes amplos e vagamente delimitados podem empregar força letal contra populações civis sem responsabilização transparente – e de por que qualquer cidadão sensato afirma que essas agências operam de maneiras que aterrorizam comunidades. Com razão, sua morte desencadeou protestos generalizados nos Estados Unidos.

O papel do ICE na sociedade contemporânea dos Estados Unidos é comparável a diversas formas de policiamento estatal cuja violência é estruturalmente tolerada e normalizada, como a Polícia Militar nas favelas brasileiras e as Forças de Defesa de Israel (IDF) na Palestina. Essas instituições operam com autoridade expansiva, pouca supervisão civil e utilizam força letal de maneira desproporcional contra comunidades marginalizadas, contribuindo para padrões de medo e repressão, e não de segurança.

No Rio de Janeiro, operações da Polícia Militar em favelas resultam em massacres recorrentes, com disparos indiscriminados e alto número de vítimas civis. Essas operações equivalem a punições coletivas que aterrorizam moradores e afetam de forma desproporcional populações negras e pobres. Na Palestina, a ocupação, a proteção a colonos e as políticas de bloqueio conduzidas pela IDF produziram ampla destruição e numerosas mortes de civis, muitas vezes sem mecanismos transparentes de responsabilização, reforçando assimetrias estruturais de poder e aterrorizando comunidades.

Esse padrão indica não eventos isolados, mas uma violência sistêmica inerente às estruturas de policiamento. O ICE, uma agência federal responsável pelo controle migratório, realiza operações muito além da fronteira dos EUA e emprega táticas agressivas que instilam medo, causam ferimentos e resultam em mortes em comunidades imigrantes – e, como se vê, muito além delas.

Crédito: U.S. Immigration and Customs Enforcement/Flickr

Violência de Estado é terror

Defensores do ICE enfatizam seu mandato legal para aplicar as leis de imigração. Oponentes argumentam que, quando agências de fiscalização utilizam força avassaladora sem responsabilização, o efeito é o terrorismo de Estado – isto é, o uso sistemático da violência por agentes governamentais para controlar, intimidar ou reprimir populações civis. Essa compreensão chama atenção para o impacto aterrorizante sobre comunidades que vivem sob a ameaça constante de uma força descontrolada.

O assassinato de Renee Good se tornou um ponto de inflexão porque ocorreu durante uma operação que vinha aterrorizando moradores de Minneapolis por semanas. Assim como a militarização policial nas favelas brasileiras é criticada por fomentar um clima de medo e violência extrajudicial, as operações da IDF resultam em mortes de civis que traumatizam a população palestina. Enquanto isso, as operações domésticas do ICE, conduzidas com supervisão local limitada, produzem terror e trauma entre imigrantes e o público em geral.

Controle Comunitário como Antídoto

National Alliance Against Racist and Political Repression (NAARPR) defende estruturas que enfrentam diretamente essa ameaça de terror ao colocar a supervisão civil e a ‘responsabilização’ (combata à impunidade) no centro do policiamento e da fiscalização. Uma supervisão real exige participação comunitária, transparência e poder para moldar políticas e disciplinar as forças de segurança.

A Campanha pelo Controle Comunitário da Polícia da NAARPR exemplifica essa abordagem ao exigir que as comunidades – e não apenas os conselhos internos dos departamentos – tenham autoridade para supervisionar operações policiais, orçamentos e processos disciplinares. Ao democratizar o controle da segurança pública, esses movimentos buscam reduzir a violência e ampliar a responsabilização, garantindo que as agências não operem como forças de coerção sem regulação.

Grupos como o Eye on Surveillance integram a infraestrutura da sociedade civil que pressiona pela existência dessa supervisão, exigindo transparência das polícias e dos operadores de vigilância, e conectando comunidades a seus direitos e a iniciativas de política pública capazes de criar estruturas formais de responsabilização.

Essa rede pesquisa como sistemas de vigilância, do reconhecimento facial ao ‘policiamento preditivo,’ são implantados sem consentimento público e sem transparência adequada, frequentemente direcionados a populações vulneráveis à violência policial.

Sejam as operações do ICE, as operações policiais militarizadas no Brasil ou as tecnologias de vigilância utilizadas pela IDF e globalmente, a dinâmica subjacente é a mesma: agências equipadas com poder estatal e recursos tecnológicos agem sem consentimento comunitário, produzindo terror. Mecanismos de supervisão civil e transparência enfrentam isso ao submeter o policiamento e a vigilância ao controle público, em vez de deixá-los nas mãos de burocracias de fiscalização isoladas.

De Minneapolis ao Rio de Janeiro, até Gaza e zonas de conflito ao redor do mundo, a violência de Estado sob o pretexto da segurança cria ambientes em que civis são aterrorizados pelas próprias forças que deveriam protegê-los.

Reconhecer que agências como o ICE e forças policiais militarizadas podem agir de maneiras que aterrorizam comunidades não é mero recurso retórico; é um chamado à transformação estrutural. Defensores do controle comunitário da polícia e da supervisão civil oferecem alternativas concretas ao poder estatal descontrolado, exigindo transparência, responsabilização e governança democrática do policiamento.

Se quisermos viver sem o medo da força estatal arbitrária e letal, as estruturas de supervisão devem estar enraizadas nas próprias comunidades, com poder para moldar políticas, impor disciplina e assegurar que a fiscalização sirva à segurança pública – e não à repressão e ao terror.

 

Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. Ela é autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos pela editora P9.

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