‘LOBO MAU COM DOR DE DENTES’

Um lobo com fome de literatura

Lobo Mau com dor de dente concilia fundo e forma, de modo que o projeto gráfico, assinado pelo próprio autor, não é meramente ilustrativo, mas conta a parte da história que o texto “engoliu”

Uma história com lobo mau não é uma novidade na literatura para crianças, a mais paradigmática delas talvez seja Chapeuzinho Vermelho, que conhecemos em diversas versões, como as de Charles Perrault, a dos irmãos Grimm etc. Nelas, depois de muitas maldades, os lobos malvados são punidos e/ou aprendem finalmente uma lição que os regenera. Os pequenos leitores também saem com algum ensinamento edificante.

Lobo Mau com dor de dente, de Daniel Kondo, como o próprio título anuncia, parece começar pelo final, com o lobo malvado já sendo devidamente punido. Está aí uma boa dica de leitura neste período de férias!

O bicho, um mamífero carnívoro com um dente infeccionado (este mais do que necessário para a sua mastigação), decide, então, procurar ajuda e recorre justamente às suas vítimas – os três porquinhos, a avó de Chapeuzinho Vermelho… –, os quais se dispõem a solucionar seu problema.

Ainda que se encontre numa posição vulnerável, o Lobo Mau segue sendo o Lobo Mau. Curado o dente infeccionado, seus ajudantes se tornam novamente suas vítimas.

Diferentes leituras emergem dessa breve narrativa. Vejamos: um lobo agiria por instinto, de modo que ele não seria bom nem mau, apenas um lobo; os outros é que não entendem a sua natureza e o avaliam segundo seus próprios valores, por isso o consideram mau. Por outro lado, podemos pensar que as vítimas sofrem de Síndrome de Estocolmo, ou seja, criaram vínculos de afeto e confiança com o agressor.

As crianças não interpretarão necessariamente o conto usando a mesma lente do leitor adulto. Outras questões talvez atraiam mais a atenção delas, de antemão, contudo, é impossível prever a sua reação. É sempre bom lembrar que toda leitura é autobiográfica e depende, entre outros fatores, do repertório estético do leitor e do ambiente em que foi criado.

Apesar disso, os adultos, como ninguém ignora, tendem a se colocar no lugar da criança, determinando o que elas gostam e desgostam e o que pensam a respeito do mundo. É como se os adultos não soubessem que, a partir do momento em que os seres humanos abandonam a infância, esta passa a ser um universo desconhecido para eles, como afirmou Cecilia Meireles.

O fato é que, hoje, os livros para crianças parecem seguir uma tendência, imposta talvez pelos programas de governo e pela necessidade de agradar pais e professores, cada vez menos familiarizados com a literatura, que é a de levar o leitor pela mão até um – e um único – final feliz e inspirador.

Os livros de Kondo, entre eles este de que estamos falando, costumam romper com modelos pedagógicos e com a expectativa que se tem de um livro para crianças.

Crédito: Divulgação/Editora Carambaia

Em Pelas frestas e brechas: a importância da literatura infanto-juvenil brasileira, ensaio fundamental de Ana Maria Machado, a escritora recorda que, na década de 1970, em plena ditadura militar, a literatura para crianças que se firmou no Brasil foi marcada pela rebeldia estética e a insistência na emancipação do leitor, estimulando que ele pensasse por si mesmo o mundo, o país e a sociedade. A qualidade dos livros daquela época se devia em parte “à maturidade atingida pela literatura brasileira na segunda metade do século XX, depois de Machado de Assis e Euclides da Cunha, de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, não pode haver dúvida”.

Somou-se a esse fato um investimento oficial em novos livros para crianças que não se vinculava a nenhum mercado específico, pois esse ainda estava em formação.

“Graças a essa história”, conclui Ana Maria Machado, “a literatura infantojuvenil brasileira pôde se firmar na contramão da maioria dos processos paralelos. Enquanto nos Estados Unidos, no Japão ou na Europa um editor que quisesse publicar um livro infantil geralmente partia de uma pesquisa de mercado para escolher um determinado tema (pais separados, troca de dentes, morte de avó etc.) e, em seguida, encomendar um texto a um redator capaz de falar uma linguagem considerada infantil, o editor brasileiro tinha outra situação diante de si. Estava frente a uma verdadeira explosão criativa, que irrompia energia canalizada por quem não admitia se calar e forçava a abertura de brechas”.

O cenário atual no Brasil é claramente outro: por um lado, os incentivos do governo determinam os “temas” (e parece que a literatura é feita apenas de tema) que os autores devem tratar exclusivamente; por outro lado, o mercado mapeia o que é aceito pela sociedade consumidora dessa mercadoria inseparável da educação dos jovens.

A literatura para os adultos também mudou muito no Brasil de lá para cá e, hoje, seguiria, na minha opinião, essa mesma política de escolha temática para agradar o mercado. O que se tem, então, no cômputo final, é uma produção de livros – para todas as faixas etárias – voltada para o mesmo.

Kondo nada contra a corrente e se permite apostar na criatividade e na ousadia, pois, antes de mais nada, ele parece confiar na capacidade de seu leitor, o que é fundamental para a criação de narrativas que fogem do convencional.

Lobo Mau com dor de dente concilia fundo e forma, de modo que o projeto gráfico, assinado pelo próprio autor, não é meramente ilustrativo, mas conta a parte da história que o texto “engoliu”. Vejamos como funciona esse diálogo entre a ilustração e o texto. No desenho, a expressão do lobo doente que solicita ajuda é tristonha, mas já recuperado, seu semblante se torna aterrorizador, aparecendo na sua boca apenas fragmentos das roupas das personagens que se prontificaram ingenuamente a ajudá-lo. O texto informa: “Nhac!” e foi-se mais um. Nem o leitor é poupado da sanha do Lobo.

Ao final do livro, Kondo revela ao leitor as suas referências estéticas. São informações importantes que demonstram que na arte o diálogo entre os artistas é importante e fundamental. Nada é novo, ninguém está inventando a roda, mas pode dar a ela uma nova função.

Se existe um livro que vale a pena ser lido, parafraseando C.W Lewis, autor de Crônicas de Nárnia, é aquele que desperta o interesse do leitor em diferentes épocas e idades, esse é o caso, diria, de Lobo Mau com dor de dente, um livro que já nasce paradigmático.

 

Dirce Waltrick do Amarante é Professora, ensaísta, escritora e tradutora. Autora, entre outros, de Metáforas da Tradução e Interferências: censura, apagamento e outros temas contemporâneos (ambos publicados pela Editora Iluminuras).

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