Jack London, sociólogo
É inspirando-se na própria vida – a de um andarilho que se tornou escritor de sucesso – que Jack London compôs seu romance Martin Eden (1909). Frequentemente associado à aventura, aos espaços abertos e à vida selvagem, o escritor revela na obra um aguçado senso social. Ele descreve o fenômeno da migração de classe com uma acuidade e uma profundidade que os sociólogos não deveriam desprezar
Foi a bordo do Snark, o veleiro que mandou construir a alto custo, que, do verão de 1907 a fevereiro de 1908, Jack London (1876-1916), já rico e famoso, escreveu Martin Eden entre Honolulu e Papeete. O livro, que traça a difícil ascensão social de um jovem marinheiro californiano, é geralmente percebido como uma “autobiografia romanceada”. Apesar de diferenças significativas em suas trajetórias, Jack London e Martin Eden passam, em poucos anos, de uma posição econômica e culturalmente dominada no espaço social para uma posição dominante: a de escritores ricos e consagrados. Francis Lacassin descreve a biografia de Jack London como “o retumbante sucesso de um filho do povo”, e Chantal Jaquet vê em Martin Eden a “ilustração perfeita” de uma “metamorfose” corporal e cultural que faz de um indivíduo “o contrário do que ele era”.[1] Hoje, Martin Eden e Jack London figuram, de fato, no repertório dos arquétipos ideais…

