CONFLITO ENTRE OS VENCEDORES E OS PERDEDORES DO CAPITALISMO

‘Bugonia’ é o retrato de um mundo dividido entre o neoliberalismo progressista e a fúria dos perdedores

tema fundamental do filme é o conflito estruturante entre os vencedores e os perdedores do capitalismo, encenado luta corpórea entre os protagonistas, pavimentando o caminho para o desfecho do longa

Na noite de ontem, a cerimônia do Oscar confirmou uma de suas tradições mais consistentes: a aversão a obras que expõem as vísceras do próprio sistema que sustenta a premiação. Assim como o brasileiro O Agente Secreto, Bugonia, de Yorgos Lanthimos, acumulou indicações, mas saiu de mãos vazias, talvez por recusarem o maniqueísmo liberal. O resultado da Academia é provável sintoma de autodefesa da elite hollywoodiana.

A crítica cultural mainstream viu em Bugonia apenas o esperado: uma sátira sobre a era da desinformação, na qual homens brancos radicalizados por teorias da conspiração de extrema-direita sequestram uma CEO farmacêutica. É uma leitura confortável que reafirma a divisão moral do mundo entre a “civilização” (racional, científica, democrática) e a “barbárie” (o submundo da internet misógina).

Os analistas de maneira geral qualificaram Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) como “incels” ou “conspiracionistas tóxicos”. Mas, ao olhar apenas por esse prisma – verdadeiro, mas incompleto –, a intelectualidade inadvertidamente absolve a personagem Michelle Fuller (Emma Stone). Eles condenam a violência “bárbara” do sequestro manual, enquanto ignoram a violência “civilizada” das patentes farmacêuticas e da exclusão econômica que a executiva representa.

Bugonia não deixa de ser um alerta sobre fake news e sobre o ressentimento de gênero. Mas o tema fundamental é o conflito estruturante entre os vencedores e os perdedores do capitalismo, encenado luta corpórea entre os protagonistas, pavimentando o caminho para o desfecho do filme.

Crédito: Divulgação

A CEO e o neoliberalismo progressista

Fuller, raptada sob a acusação de ser uma alienígena reptiliana que planeja destruir a Terra, é a encarnação perfeita do conceito de “neoliberalismo progressista” cunhado por Nancy Fraser. Ela não é um barão fordista clássico. Ao contrário: é sofisticada, usa a linguagem da diversidade e sua empresa provavelmente tem metas agressivas de ESG – sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança.

Fraser define esse fenômeno como a aliança entre os setores mais predatórios do capital, como finanças, Big Tech e grandes farmacêuticas, e os movimentos sociais liberais. O pacto é claro: o sistema oferece inclusão simbólica e representatividade no topo, enquanto mantém a exclusão material na base.

A diversidade que a CEO vende em seus discursos convive bem com a venda de fármacos que adoecem e com trabalhadores que se machucam em serviço – como a empacotadora colega de Teddy – e que sequer podem ver isso como violação de direitos. Fuller opera nessa lógica. Para o sistema, ela é a modernidade. Mas para os captores ela é um monstro.

Os sequestradores e a estagnação secular

Teddy e Don são classificados pela protagonista como “doentes mentais”. Esse rótulo é fácil, mas a análise materialista de Robert Brenner e Dylan Riley nos oferece uma chave melhor: eles são o sintoma da estagnação secular.

Vivemos há décadas um período de baixo crescimento estrutural. O bolo parou de crescer. Nesse jogo de soma zero, a produção cede lugar ao “capitalismo político”, no qual o lucro depende de subsídios estatais e extração de renda, e não de inovação. Nessa nova arena, a competência técnica e a certificação universitária tornam-se as únicas armas capazes de disputar o excedente econômico, desvalorizando radicalmente o trabalho comum.

Essa mudança na matriz de acumulação gera uma cisão profunda na classe trabalhadora. De um lado, a fração credenciada (com ensino superior) se agarra à meritocracia e aos valores cosmopolitas para manter seu status. Essa fração associa-se à elite – muitas vezes progressista, representada por Fuller, que chega a dizer, como se confirmasse a tipologia: “Sou graduada em química e em psicologia”.

Do outro, a fração não-credenciada (a maioria da população), vendo seu padrão de vida ruir, recorre a identidades primárias – nacionalismo, localismo ou teorias da conspiração – como forma de proteção. Eis aí Teddy, que responde: “O seu capital não tem valor para nós”. Ali, ele decreta a falência da meritocracia: o diploma, a ciência e o status corporativo da CEO, moedas valiosas na ‘civilização’, não têm poder de compra no mundo dos deserdados.

Ordem democrática global alienígena

A executiva representa uma elite que humilha a classe trabalhadora em duas frentes: economicamente, por meio da predação corporativa, e simbolicamente, por meio do desprezo cultural. O ressentimento que decorre disso assume forma explícita no discurso de Teddy, quando ele rejeita toda a linguagem liberal: “Não há regras. Não há livre mercado. Não há sistema jurídico. Não há Congresso. Não há América. Não há ordem democrática global. Então não fale comigo como se eu fosse um merda!”.

A direita radical cresceu reciclando o léxico paleoconservador e sequestrando a crítica econômica que a esquerda abandonou: a denúncia contra a globalização, os acordos de livre-comércio e a ganância corporativa. Mas Teddy vai além: decreta que o contrato social – a “América” – já não existe mais.

Essa percepção não é totalmente equivocada, tampouco a queixa material apresentada pelos sequestradores – a sensação de que a Big Pharma é monstruosa, associada à crítica geral ao modelo neoliberal. Em Bugonia, e frequentemente na vida real, porém, eles articulam um diagnóstico correto por meio de uma gramática errada: uma conspiração reptiliana.

Uma leitura fiel à realidade situaria as raízes de seu sofrimento nas desigualdades estruturais do capitalismo. A resposta da extrema direita, contudo, produz álibis funcionais que desviam a atenção da luta de classes: a culpa recai sobre o politicamente correto, o feminismo, os imigrantes… ou os alienígenas.

A Armadilha da “Alegria”

Se a fúria de Teddy expressa uma crítica econômica distorcida, a resposta de Fuller revela os limites do liberalismo contemporâneo, ao tentar “educar” seus algozes, apelando à razão e à empatia corporativa. Essa postura ecoa uma confiança tecnocrática mais ampla, visível em boa parte da política liberal atual – a que Matthew Karp identifica, por exemplo, na campanha presidencial de Kamala Harris, cujo mote era “alegria”. O lema foi recebido como contentamento com o status quo. Para quem experimenta a política desde um lugar de marginalidade e aperto econômico, entretanto, essa postura das elites soa menos como esperança e mais como escárnio.

Como aponta grande parte das ciências sociais hoje, a extrema-direita sequestrou o sentimento de rebeldia e insurgência. O progressismo, ao se tornar a guardião das instituições, da ciência oficial e da etiqueta corporativa (o “bom tom”), empurrou a estética da contestação para o colo da extrema-direita. Os bandidos do filme são grotescos, violentos e delirantes? Sim. Mas eles são os únicos em cena que tentam, ainda que da forma mais errada possível, derrubar a estrutura de poder. Já a CEO quer mantê-la: “Você não pode me derrotar, porque você é um perdedor. E eu sou uma vencedora. E a vida é assim.”

Paralelos

A vitória de Donald Trump em 2016 encontrou eco na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. De modo semelhante, a invasão do Capitólio em Washington, em 2021, foi seguida pela destruição das sedes dos três poderes em Brasília por apoiadores bolsonaristas em janeiro de 2023.

Também a dinâmica encenada no filme se reproduz aqui. Uma pesquisa recente de opinião pública identificou a consolidação de um segmento “progressista”, altamente escolarizado, focado em pautas identitárias e de governança global, mas perigosamente isolado das classes populares, semelhante à caracterização do Partido Democrata feita por Karp a partir da categoria “esquerda brâmane” de Thomas Piketty.

Do outro lado, surgem os nossos próprios Teddys e Dons. O cientista político André Singer descreve esse grupo como o “pé na porta”: setores intermediários cuja tragédia é o duplo abandono – “ricos” demais para acessar programas sociais amplos e pobres demais para alcançar a estabilidade da elite. É a base clássica do bolsonarismo.

Hoje, porém, o cenário brasileiro diverge parcialmente do norte-americano: Bolsonaro encontra-se preso, e Luiz Inácio Lula da Silva governa em uma coalizão democrática de centro-esquerda. Além disso, desde meados de 2025, Lula tem sinalizado direção definitivamente distante da esquerda brâmane, voltando-se a todos os segmentos das classes trabalhadoras: retomou o enfrentamento com o rentismo, propondo reformas tributárias progressivas e focando na reindustrialização e na redução do custo de vida. Nesse sentido, parece reconhecer aquilo que a CEO de Bugonia ignora: desarmar a barbárie exige mais do que “educar” os sequestradores; exige desmontar o sistema de exclusão que os produziu.

Monstros do Interregno

Bugonia é a perfeita representação do interregno capitalista descrito por Wolfgang Streeck. Trata-se daquele momento gramsciano em que “o velho morreu e o novo não pode nascer”. É nesse claro-escuro que surgem os monstros. E o filme é, literalmente, a encenação dessas aberrações (ou da alucinação coletiva sobre eles) que ocupam o vazio deixado pela política.

A conclusão da obra sugere que o novo não pode nascer, e que, no fim, vencem as ficções paranoicas. Mas no mundo real não existe a Galáxia de Andrômeda para culparmos. Precisamos construir, aqui na Terra, uma saída política para esse labirinto. Ao contrário da CEO, a esquerda não pode se dar ao luxo de apenas temer ou desprezar os “loucos”. O antídoto para a barbárie não é a etiqueta corporativa ou a defesa do status quo, mas a construção de uma nova maioria material capaz de secar o pântano onde os monstros se alimentam.

 

Marina Basso Lacerda é doutora e pós-doutora em Ciência Política, pesquisadora da UnB e da USP, autora do livro O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro, finalista do Prêmio Jabuti.

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