A reconfiguração do futebol mundial sob o poder dos EUA
A escolha da FIFA por Rússia e Catar desencadeou uma reação estratégica dos Estados Unidos, materializada no FIFA Gate e na reorganização da governança do futebol sob Gianni Infantino, culminando na retomada da centralidade norte-americana na Copa de 2026 e na politização explícita do esporte global
Quando a FIFA criou e entregou um “Prêmio da Paz” a Donald Trump durante o sorteio da Copa do Mundo de 2026, o gesto pareceu, à primeira vista, apenas mais um protocolo diplomático com o país-sede. Mas o que exatamente estava sendo celebrado ali? Um evento esportivo ou a consolidação estratégica dos Estados Unidos no centro da governança do futebol mundial?
Sob a aparência cerimonial, a cena simbolizava o fechamento de um ciclo iniciado em 2010, quando Washington foi derrotado na disputa pela Copa de 2022 e viu o eixo de poder do futebol deslocar-se em direção ao Oriente.
2010: a ruptura da ordem atlântica
Em dezembro de 2010, em Zurique, a FIFA anunciou que a Rússia sediaria a Copa de 2018 e o Catar receberia o torneio de 2022. A decisão contrariava expectativas: a Inglaterra era considerada favorita para 2018, enquanto os Estados Unidos lideravam amplamente as projeções para 2022. Anteriormente, no início do século XXI, a FIFA ensaiava uma diplomacia voltada ao Sul Global. África do Sul (2010) e Brasil (2014) simbolizavam esse movimento. A expectativa era que o ciclo seguinte retornasse ao eixo atlântico tradicional. A escolha russo-catariana rompeu essa lógica e sinalizou uma inflexão multipolar no principal palco simbólico do esporte global.
Anos depois, o ex-presidente da entidade, Joseph Blatter, declarou ao jornal suíço Tages-Anzeiger que o “plano original” seria contemplar Rússia e Estados Unidos como gesto de reconciliação geopolítica, porém uma intervenção do governo francês teria alterado o curso das votações. Blatter acusou publicamente Michel Platini, ex-presidente da UEFA, de agir em articulação com Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França, para favorecer o emirado. A França, interessada em aprofundar sua aproximação estratégica com o Golfo, teria convertido o voto esportivo em instrumento diplomático. Contudo, Blatter buscou se eximir de responsabilidades, atribuindo as irregularidades a falhas institucionais. Reportagens investigativas do Sunday Times revelaram que a FIFA teria recebido quase um bilhão de euros da emissora pública catariana Al Jazeera, supostamente vinculados ao pleito.
Os desdobramentos extrapolaram o futebol: o Paris Saint-Germain – clube de coração de Sarkozy, foi adquirido pelo Qatar Sports Investments em 2011; em 2015, Paris vendeu 24 caças Rafale ao Catar por cerca de sete bilhões de euros. Futebol e indústria militar passaram a compartilhar a mesma equação geopolítica. A escolha catariana produziu efeitos difusos. Narrativas moralizantes emergiram no Ocidente sob o argumento de direitos humanos, mas o impacto mais profundo ocorreu no plano estratégico: Washington havia sido derrotado no principal palco simbólico do esporte global.
O contra-ataque americano
A derrota norte-americana não foi absorvida como mero revés esportivo. Em Washington, a escolha do Catar foi interpretada como deslocamento estratégico do centro de gravidade do esporte global, num momento em que os BRICS ampliavam sua projeção internacional. É nesse contexto que emerge o FIFA Gate. A partir de 2015, o FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos deflagraram uma série de investigações por corrupção envolvendo dirigentes da entidade. Prisões ocorreram em Zurique, delações e acordos judiciais foram conduzidos sob jurisdição americana, ainda que muitos dos fatos investigados tivessem ocorrido fora do território dos EUA. Tratava-se da aplicação extraterritorial do arcabouço jurídico e financeiro norte-americano sobre uma organização privada sediada na Suíça. E o efeito político foi imediato: redes de dirigentes historicamente vinculadas à Europa continental e à América Latina foram desarticuladas. O núcleo de poder que estruturava a FIFA desde os anos 1970 foi parcialmente desmontado.
A derrota de 2010 desencadeou um movimento estrutural de reposicionamento geopolítico. É nesse horizonte que o FIFA Gate emerge, não apenas como escândalo midiático de corrupção, mas como caso paradigmático de intervenção estatal sobre a governança do futebol mundial. Não se tratava apenas de moralização. Tratava-se da projeção do poder regulatório norte-americano sobre uma entidade que operava com relativa autonomia. Assim, o centro de gravidade político deslocou-se novamente para o atlântico norte.
O FIFA Gate funcionou como mecanismo disciplinador: ao submeter a FIFA ao direito penal e financeiro dos Estados Unidos, redesenhou o centro de gravidade do futebol mundial. O que apareceu na superfície como uma cruzada ética traduzia, em níveis mais profundos, uma correção estratégica capaz de recolocar Washington no comando da principal mercadoria cultural do planeta e pavimentar a posição privilegiada que culminaria na Copa do Mundo de 2026 e, na mesma sequência, no controle ampliado sobre o movimento olímpico rumo aos Jogos de 2028.
Do voto à aliança estratégica: França, Catar e a política do futebol
A escolha estratégica pelo Catar, longe de ser episódica, inscreve-se num histórico de tensões: desde a invasão norte-americana ao Iraque, firmemente contestada pela diplomacia francesa no Conselho de Segurança da ONU, as relações entre os dois países tornaram-se uma combinação de alianças estruturais e ressentimentos latentes. No imaginário político norte-americano, a articulação que conduziu a Copa ao Catar somou-se a mais um gesto de deslealdade. A cooperação permaneceu institucionalmente intacta, mas tensionada.
A deterioração do ambiente político refletiu-se também na trajetória de Nicolas Sarkozy que, após deixar o Palácio do Eliseu, passou a enfrentar uma série de processos e investigações por corrupção, tanto no sistema político francês quanto em episódios relacionados ao universo do futebol internacional. Ainda que esses procedimentos tenham seguido trâmites jurídicos próprios, o contexto mais amplo era de crescente fricção estratégica entre Paris e Washington.
Michel Platini, que chegou a ser cogitado como sucessor de Joseph Blatter, também foi implicado nas investigações do FIFA Gate. Diferentemente de outros dirigentes detidos sob jurisdição norte-americana, Platini respondeu perante as instâncias esportivas e a Justiça suíça, o que evidenciou a complexidade e a fragmentação jurídica do caso.
Episódios posteriores, como o AUKUS, que levou a Austrália a romper um contrato bilionário de submarinos com a França, após articulação entre Estados Unidos e Reino Unido, reforçaram esse padrão de fricção estratégica no interior das alianças ocidentais.
Quando a disputa pela Copa de 2026 se materializou, Paris optou por não apoiar Washington, alinhando-se à candidatura do Marrocos.
A nova arquitetura de poder do futebol mundial

A queda de Blatter, em 2015, abriu espaço para a consolidação de um novo regime sob a liderança de Gianni Infantino, advogado e dirigente desportivo suíço-italiano. Sua ascensão representou menos ruptura do que continuidade reorganizada. A agenda da instituição após o FIFA Gate estruturou-se em torno de princípios próximos ao ethos norte-americano: compliance, governança corporativa e financeirização do futebol.
Uma das principais mudanças foi no processo licitatório das sedes da Copa do Mundo, ampliado das 22 cadeiras do Comitê Executivo para as 211 federações nacionais. Embora apresentado como uma iniciativa para a democratização, o modelo reforça rivalidades interestatais e amplia a margem de intervenção governamental. Isso porque a individualização do voto se tornou uma expressão direta da posição política de cada país no sistema internacional. Assim, os governos passam a enxergar e a usar a escolha das sedes como instrumento geopolítico.
Às vésperas da eleição para a Copa de 2026, Donald Trump deixou esse novo campo de poder às claras: ameaçou publicamente, na plataforma X (antigo Twitter), aqueles que não apoiassem os Estados Unidos, insinuando que enfrentariam retaliações americanas em organismos multilaterais como a ONU. Não se tratava mais de neutralidade.
Da neutralidade ao alinhamento explícito
O sorteio da Copa de 2026 visibilizou a transformação da governança do futebol mundial. O mantra segundo o qual “futebol e política não se misturam” perdeu eficácia simbólica e já não funcionava como escudo retórico. A criação do “Prêmio da Paz” entregue a Donald Trump materializou essa inflexão. O gesto foi apresentado como protocolo institucional. Mas sua coreografia indicava algo maior.
Em fevereiro de 2026, durante reunião do chamado Conselho da Paz em Washington, Gianni Infantino participou do encontro ao lado do aparato político do anfitrião. Ali, assinou acordo para financiar a reconstrução de infraestruturas futebolísticas em Gaza – campos, academias e um estádio nacional, avaliados em cerca de 75 milhões de dólares. Por outro lado, a imagem da aliança falou tanto quanto o documento. Infantino usava um boné vermelho com a inscrição “USA” e os números “45-47”, em referência aos mandatos não-consecutivos de Trump. O gesto rompeu com qualquer pretensão residual de neutralidade política que ainda pudesse ser atribuída ao dirigente.
A iniciativa foi apresentada como “uso do futebol como veículo de paz, dignidade e esperança” numa Gaza devastada por dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. A linguagem era humanitária. A encenação, política. Se, por um lado, o anúncio pode ser lido como gesto solidário, por outro, ele se inscreve numa lógica mais ampla: a instrumentalização da Copa do Mundo e das organizações esportivas por agendas geopolíticas e narrativas dominantes, sobretudo quando ancoradas no soft power dos Estados Unidos e na reconfiguração das alianças globais.
A tensão reverberou no próprio sistema esportivo internacional. Integrantes de organismos como o Comitê Olímpico Internacional questionaram a compatibilidade desses gestos com as exigências históricas de neutralidade previstas na Carta Olímpica. Ficou evidente que o FIFA Gate jamais surgiu com a pretensão de “salvar” o futebol da corrupção, mas para sinalizar que a entidade não poderia, doravante, contrariar os interesses geopolíticos dos Estados Unidos sem sofrer consequências institucionais profundas, como ocorrera com a atribuição da Copa de 2022 ao Catar.
A reterritorialização do poder esportivo
A Copa de 2026, a ser realizada na América do Norte (Estados Unidos, Canadá e México), e os Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles, operam como o ponto culminante de um ciclo iniciado no fim de 2010. Washington retoma não apenas a centralidade territorial dos megaeventos, mas também a primazia simbólica e estratégica na governança esportiva global.
Enquanto a China e países do Golfo projetaram poder por meio do protagonismo estatal em investimentos e eventos esportivos, os Estados Unidos mobilizaram seu aparato jurídico, financeiro e cultural para reconfigurar as narrativas e os mecanismos de controle do esporte mundial. Com o FIFA Gate, que não pode ser reduzido a cruzada ética, Trump não inaugurou esse processo. Apenas o tornou ritualisticamente visível. A questão de ordem não é se o esporte é político. Ele sempre foi. O ponto é quem, agora, arbitra as regras desse jogo no palco global.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo nº 2024/13519-9. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.
Elvis Simões Pitoco Da Silva é mestre e doutorando em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e especialista em Geopolítica do Esporte. Integra o NUPERG (Núcleo de Pesquisas e Estudos Regionais), o Grupo de Estudos Gilmar Mascarenhas e o MDF4L (Mundo Dentro e Fora das 4 Linhas).


Ótimo conteúdo, realmente o poder não é neutro. 👏👏