Histórias que atravessaram o tempo e ainda precisam ser contadas
No dia 16 de abril, o Brasil celebra o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto. Este é um momento de homenagear não apenas os seis milhões de judeus brutalmente assassinados nos campos nazistas, mas também as inúmeras histórias que, por muito tempo, sobreviveram em silêncio. Tornar essas lembranças públicas é imperativo para preservar a memória e assegurar que esses relatos continuem sendo contados, especialmente em um contexto em que o antissemitismo, longe de ser apenas página da história, ressurge com força em diversas partes do mundo.
No dia 16 de abril, o Brasil celebra o Dia Nacional da Lembrança do Holocausto. Este é um momento de homenagear não apenas os seis milhões de judeus brutalmente assassinados nos campos nazistas, mas também as inúmeras histórias que, por muito tempo, sobreviveram em silêncio. Tornar essas lembranças públicas é imperativo para preservar a memória e assegurar que esses relatos continuem sendo contados, especialmente em um contexto em que o antissemitismo, longe de ser apenas página da história, ressurge com força em diversas partes do mundo.
O Holocausto deixou marcas profundas em todos nós. Aprendi cedo que o mundo podia ser cruel. De um dia para o outro, subitamente meu pai deixou de estar conosco. Foi deportado para os campos de trabalho. Eu e minha mãe passamos a viver escondidas, envoltas por um medo constante e por silêncios que pesavam como pedras. Eu era apenas uma criança obediente que, mesmo sem compreender totalmente a magnitude da situação, guardava no peito um aperto que não se desfazia.
À medida que a guerra avançava e a perseguição se intensificava, passei a viver longe da minha mãe. Ela me enviou para o interior da França e fui de esconderijo em esconderijo, sempre esperando pelos raros encontros que ela, com imenso sacrifício, conseguiu providenciar. Troquei de casas, adotei outro sobrenome; assim nasceram novos medos, mas também coragem. Uma coragem que só compreendi agora, até então eu acreditava estar apenas sobrevivendo.

Foi na casa da madame Niná que mais encontrei acolhimento, ali permaneci até o fim da guerra. Ela, uma senhora italiana que vivia no interior da França com seus três filhos já adultos, me recebeu como filha, oferecendo cuidado e proteção quando tudo ao redor desabava. Às madames Ninás do mundo, deixo minha eterna gratidão: por seus gestos de humanidade, nos devolveram um pouco de esperança e nos guardaram a vida.
Quando a guerra terminou, meu pai retornou magro, debilitado, quase irreconhecível, pesando apenas 29 kg, mas com a coragem intacta. Depois de recuperar a saúde, deixar a Europa foi o primeiro passo rumo a uma nova vida. Mudamos para o Brasil quando eu tinha oito anos; aqui encontrei, finalmente, um pai e uma mãe acolhedores e ternos. O que vivemos lá fez-se um silêncio que parecia proibido romper. Ainda assim, nunca deixei de sorrir: a ânsia de pertencimento era tanta que, em três meses, já falava português.
Sempre relutei em contar minha história. Até que diante das perguntas de meus netos sobre aquele tempo, compreendi a urgência de ajudá-los a entender o que realmente aconteceu durante o Holocausto.
Hoje, aos 87 anos, meu livro está concluído. Minha filha assumiu a missão de traduzir em palavras o que vivi. Foram inúmeras conversas, cicatrizes reabertas, documentos intocados por décadas, objetos e fotografias que nos ajudaram a dar mais profundidade à obra.
O propósito transcende o legado. Este livro é um chamado às futuras gerações para que guardem na memória o preço pago quando o ódio, a intolerância e a ignorância se abrigam e para que jamais reproduzam, em gesto ou palavra, as feridas do passado.
*Charlotte Wolosker, sobrevivente do Holocausto
Este artigo foi escrito por Charlotte Wolosker com o apoio da filha, Silvia Wolosker, autora do livro ‘La Petite Charlotte: Memórias de dor e Raízes de amor, que conta a história de sua mãe durante o Holocausto.

