DIÁRIO AFETIVO E MANIFESTO POLÍTICO

Conheça Flávia Teodoro Alves, poeta periférica que constrói trajetória entre literatura, educação e performance

Autora de dois livros de poesia e professora da rede pública, escritora paulistana desenvolve uma obra que dialoga com diferentes linguagens artísticas e experiências da vida urbana

A poeta, arte-educadora e professora da rede pública Flávia Teodoro Alves construiu sua trajetória na literatura a partir da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, onde vive e trabalha há décadas. Autora dos livros de poesia “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (2022) e “Toda reza é tentativa de telecinese” (2023), ela desenvolve uma escrita marcada pela experimentação com a linguagem e pela combinação entre lirismo, observação social e imaginação.

Sua relação com o território em que vive atravessa toda a sua produção. Em 2022, Flávia estreou na literatura com “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (Fábrica de Cânones), livro que reuniu poemas escritos entre 2015 e 2022, período que compreende sua retomada como poeta e um momento pessoal análogo ao movimento político do país. A obra já anunciava os temas que ela aprofundaria em seguida: feminismo, identidade, trabalho, assédio moral e a desconstrução do amor romântico. Em um dos poemas, “ut eros”, Flávia escreve: “tudo que é mulher / é vacuidade / é desobediência / e sangra”.

Em 2023, publicou “Toda reza é tentativa de telecinese” (Caravana Grupo Editorial), livro-irmão do anterior que prolonga suas temáticas e as expande. A obra reúne 40 textos, um para cada ano de sua vida até a publicação, compondo o que a autora descreve como “a história do pós-ruína”. O título, que também é um verso, sintetiza sua visão de mundo: a ideia de que o desejo, a prece e a palavra são tentativas simbólicas de mover o mundo ao redor. A obra ganhou uma versão em espanhol, “Toda oración es un intento de telequinesis”, fruto do programa de traduções da editora, trabalho que Flávia acompanhou de perto ao lado do tradutor Juan Balbin.

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Crédito: Divulgação

Sua trajetória profissional é marcada pela mesma multiplicidade que caracteriza sua obra. Formada em Educação Artística pela FAMOSP (2006), Flávia está em sala de aula desde 2005, quando ingressou na rede estadual de São Paulo. Em 2008, passou a integrar a rede municipal, onde atua até hoje. Em 2017, defendeu sua dissertação de mestrado “Corpoarte: felicidade e resistência” pelo Instituto de Artes da Unesp, sob orientação do Prof. Dr. João Cardoso Palma Filho e da Prof. Dra. Rita de Cássia de Sousa Franco Antunes. Atualmente transita entre a sala de aula, as ruas como performer e atriz — onde também assume a persona @lambe.bem — e a pesquisa acadêmica.

Na conversa a seguir, Flávia Teodoro Alves fala sobre processo criativo, trajetória literária, os desafios de construir uma carreira fora do eixo tradicional do mercado editorial e os próximos passos de sua produção artística.

Você costuma se definir como “escritora periférica”. O que essa identidade significa na sua trajetória e na forma como você construiu sua carreira a partir da Brasilândia?

Acho que a denominação é majoritariamente geográfica.. Obviamente, o lugar onde eu vivo e trabalho há tanto tempo molda minha percepção de mundo. Só que eu não fico parada aqui. Citando Racionais, eu atravesso a ponte. Conheço da ponte pra lá e da ponte pra cá. Então, ser da periferia não informa necessariamente uma única forma, linguagem ou temática da minha escrita. Tem denúncia e resistência, mas também tem fabulação, imaginação, lirismo. Acho que afirmar minha identidade como paulistana da Brasilândia é um dos muitos elementos que fazem de mim uma artista e escritora contra hegemônica.

Em que momento da sua vida percebeu que a palavra deixaria de ser apenas um refúgio íntimo para se tornar também projeto de vida e posicionamento político?

O posicionamento político/poético/estético vem de muito tempo. Desde a adolescência, poesia e luta política se entrelaçam na minha vida. Mas a persona de escritora, com a intenção de profissionalização tem um marco bem nítido. Comecei a desenvolver os primeiros rascunhos de As Cintilantes Memórias de uma Cerejinha em 2017, mais ou menos depois de defender minha dissertação de mestrado. Senti que precisava aprender técnicas do romance, da ficção e também as especificidades da literatura endereçada a crianças e jovens. Em 2018, entrei para a especialização do Instituto Vera Cruz. Foi a partir daí que comecei a construir uma carreira literária.

Como o diagnóstico tardio de autismo com TDAH e altas habilidades, aos 40 anos, reorganizou sua compreensão sobre sua própria trajetória literária?

Acho que entendi finalmente o impulso da escrita. E comecei a perceber o quanto a Cerejinha (que além de personagem é um alter ego) reflete minhas características autísticas e minha jornada neurodivergente sem diagnóstico pelo mundo. Desde o início, já estava tudo lá. Não é uma personagem escrita intencionalmente para ser TEA. Não é do meu feitio criar a partir de roteiros externos. A Cerejinha tem características autistas porque eu sou autista.

Sua obra é frequentemente descrita como um “diário afetivo e manifesto político”. Como você equilibra essas duas dimensões sem que uma anule a outra?

Como eu disse, eu fujo do panfleto. Quando eu era ainda uma jovem militante, aprendi com a Adélia Prado  que a relação da arte com a militância é fluida. Se houver qualquer tipo de hierarquia, a poética se perde. Parto do artivismo, do deboche, da provocação. E também há um trabalho com a linguagem, o que caracteriza a poesia e a literatura, forma de arte em que a palavra é matéria-prima. O mesmo dito em outras palavras: minha militância, minhas utopias, meus ideais, tudo isso faz parte da minha subjetividade, o que motiva minhas ações no mundo. Não tenho como separar.

Seu primeiro livro, “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo”, reúne poemas escritos ao longo de sete anos. O que mudou na sua percepção de si mesma ao transformar esses fragmentos em obra publicada?

Eu adoro esse livro porque ele narra a retomada da minha escrita depois de um período sombrio, horroroso, em que eu não me reconhecia mais. Ele começa neste renascimento e termina na resistência do período da pandemia, época também horrorosamente sombria, mas num âmbito mais geral e político. Não Existe Guarda-chuva é a própria resistência. Foi o que eu percebi primeiro ao ver o livro-corpo impresso, e depois ao ver a repercussão do livro. É como disse a amiga/leitora Virginia Boucault: “esse livro mostra nossas dores, nossos amores, nosso país (que não é nosso, mas um dia vai ser)”.

A apresentação do livro fala em “poética do contrário”. Você se reconhece nessa definição? Contra o quê ou quem sua poesia escreve?

Uma das maiores alegrias desse livro é o posfácio da Lilian. Ela captou justamente minha teimosia e a posicionou em um movimento coletivo, em um momento em que a literatura escrita por mulheres – especificamente a poesia – passava por um momento único, quando todos os livros de poesia indicados ao Prêmio Jabuti de 2021 eram de autoras mulheres. Não escrevo contra nada nem contra ninguém, escrevo a favor de mim e de quem sempre esteve silenciado ou invisibilizado, como eu. Escrevo na contramão.

Você descreve “Toda reza é tentativa de telecinese” como “a história do pós-ruína”. Que ruínas são essas? Elas são pessoais, sociais ou inevitavelmente misturadas?

Como o Toda Reza começa com textos que eu tinha tirado do Não Existe Guarda-Chuva e seguiu com textos novos, mas escritos na mesma chave, ele conta o que sobrou depois da queda livre do primeiro livro. São ruínas pessoais, sociais, profissionais, tudo inevitavelmente misturado.

Acompanhar de perto a tradução da sua obra para o espanhol mudou algo na forma como você percebe a força e a materialidade da sua própria linguagem?

Ser traduzida em vida e ainda poder acompanhar o processo foi um privilégio enorme. O Juan (Balbin, tradutor da Ed. Caravana) mostrou abertura e sensibilidade ao me mostrar opções de tradução, ao indicar perdas de expressões idiomáticas e jogos de palavras (como “dar bandeira”, por exemplo) em alguns versos, e ganhos em outros (“balé de espadas” virou “valet de espadas”). Por mais que espanhol e português sejam parecidos, há especificidades. Toda Oración é ligeiramente outro livro. Já gostava de traduzir meus poemas escritos em inglês, mas ser traduzido por outra pessoa é uma onda completamente diferente.

Você atua como professora da rede pública, performer, atriz e pesquisadora. Como essas frentes dialogam com sua construção de carreira literária?

Primeiro é o entendimento de que literatura é arte. Eu não seria a mesma escritora se tivesse feito letras ou jornalismo. Há escritores e escritoras maravilhosos com formação nessas áreas, mas ser da arte/educação (e particularmente das artes cênicas) foi fundamental para que eu entendesse a arte e a literatura como parte de uma corporeidade completa. A pesquisa acadêmica me levou à reflexão sobre o papel da escrita na minha vida, o que acabou culminando na profissionalização da escrita logo depois. Em sala de aula, sempre trouxe a literatura e a materialidade da palavra próxima da voz, a partir das técnicas do teatro/educação. A palavra como jogo está presente na minha formação de arte/educadora desde o início. Minha atuação multilinguagem na escola (fruto na verdade de uma distorção de como arte/educadores são formados e como tem que atuar na escola básica) me levou a ser uma artista multilinguagem também. Por isso me nomeei como poeta multimeios.

De que maneira o “chão da escola” influencia sua escrita e sua visão sobre literatura como ferramenta de transformação?

Acho que a literatura por si mesma não é ferramenta para nada. O que a minha vivência de arte/educadora me mostra é que o direito à educação e a cultura passa pelo acesso amplo de todos estudantes (mas especialmente os da escola pública) aos bens culturais que a humanidade acumulou até agora, e isso inclui os livros. E a escola pública vai ser o lugar onde muitas crianças vão ter contato com livros pela primeira vez.

Sua dissertação, Corpoarte: felicidade e resistência, investiga a relação entre corpo e criação. Como essa pesquisa impactou sua forma de pensar poesia?

Creio que foi a integração da palavra poética, da literatura a outras linguagens da arte. Eu já tinha esse repertório desde a graduação, mas isso se intensificou muito por causa das parcerias que tive na escola na época no projeto que coordenei com os alunos e depois analisei.

Ser semifinalista do Prêmio Loba Festival teve um peso simbólico especial por ser uma premiação voltada à literatura produzida por mulheres. O que esse reconhecimento representa na consolidação da sua carreira?

A classificação na semifinal do I Loba Festival foi uma grata surpresa. A equipe do festival é composta por jovens mulheres muito competentes e que sabem exatamente o que querem. Elas têm pensado e executado ações de fomento à literatura independente escrita por mulheres, como por exemplo a banca do festival na Praça dos Autores Independentes na Flip. Acredito que mais que o reconhecimento, o que tem sido valioso depois dessa participação no Loba foi a rede de autoras maravilhosas que encontrei nos eventos do Loba. O mais importante é a rede que se cria.

Depois de dois livros publicados, um romance em busca de editora e um reconhecimento nacional, qual é hoje o seu maior desejo de deslocamento — estético ou político — dentro da literatura?

O deslocamento que quero fazer é migrar cada vez mais para a literatura tradicional. Ter a chance de ser agenciada, encontrar boas editoras para os meu livros, com distribuição realmente nacional. Costumo brincar com o rótulo de literatura independente, porque publico independente da vontade do mainstream. Todo escritor quer ser lido, em primeiro lugar.

O que podemos esperar para o futuro da sua carreira? Tem novos livros à vista?

Estou procurando editoras tradicionais (que não cobram pela publicação) para As Cintilantes Memórias da Cerejinha, que foi reformulado com o acompanhamento da Janette Tavano. Enquanto escrevia editais para a Cerejinha, no final do ano passado fechei a trilogia dos primeiros livros de poesia com Canções de Ninar Elefantes, uma plaquette que representa uma evolução no meu fazer poético. Exceto alguns textos, escrevi de um fôlego só uma coleção de textos mais geracionais, brincando com a desilusão do millennial adulto. Ainda é pessoal, mas com um plano mais aberto. Também tenho planos de publicar minha dissertação em uma versão pocket. Por mais que eu tenha subvertido algumas regras da escrita acadêmica, ainda é um texto que carrega essa marca com muitas exigências. Também tenho um projeto de livro ilustrado que foi abortado duas vezes, por irresponsabilidade de outras pessoas. Gostaria muito que ele tivesse uma chance de ser publicado.

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

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