TERRITÓRIO BRASILEIRO

Cartografias das desigualdades no Brasil: do território agrário ao digital

Entre florestas e plataformas digitais, disputas por terra, poder e soberania revelam permanências e transformações na organização do território brasileiro

Do fruto ancestral consumido há séculos por povos indígenas e ribeirinhos da Amazônia a produto global associado a academias, dietas e franquias. O açaí percorreu uma trajetória marcada por transformações profundas. O que antes era alimento do cotidiano, preparado de forma artesanal e integrado à cultura alimentar amazônica, tornou-se mercadoria altamente valorizada, uma commodity global impulsionada por plataformas digitais e estratégias de marketing, uma cadeia produtiva que envolve desde novas formas de processamento até estratégias de mercado que redefinem seu significado para diferentes públicos.

Por trás dessa expansão emergem tensões que conectam tradição e tecnologia em um debate mais amplo sobre direito à comunicação, poder econômico e território. As técnicas ancestrais de coleta e produção convivem – e muitas vezes são substituídas – por processos industrializados e dinâmicas digitais que moldam narrativas sobre o açaí na internet. “O açaí é uma estrela na cultura alimentar de milhares de pessoas na região, especialmente no Amapá, no Pará e no Amazonas, estados que são os principais exportadores. A demanda aumentou, mas a agricultura familiar não lucra com isso, quem lucra são as indústrias, as big techs e ‘o marketing roxo’, como eu tenho chamado esse comércio superfaturado”, explica Thiane Neves Barros, doutora em ciência da comunicação e pesquisadora em tecnologia.

Nesse cenário, a disputa não é apenas econômica, mas também simbólica de quem controla os dados, as imagens e as plataformas digitais passa a influenciar como o fruto é percebido, consumido e reconhecido no Brasil e no mundo Para Thiane, a relação entre tecnologia e território, na Amazônia, é inseparável das vivências e saberes das comunidades tradicionais, que historicamente já desenvolvem suas próprias formas de inovação – ainda que fora do escopo do que convencionalmente se chama de “tecnologia digital”.

Segundo ela, essas tecnologias ancestrais – ligadas à agricultura, ao manejo da floresta e às práticas culturais – formam uma base sólida sobre a qual as tecnologias digitais passam a atuar. “Quando chegam as tecnologias digitais, isso se soma ao que já existe”, afirma. O resultado pode ser um processo de potencialização mútua, mas também abre espaço para riscos e danos, especialmente quando há imposições externas ou ausência de diálogo com os territórios.

Do campo à nuvem: concentração de terras, dados e grilagem digital

Esse paralelo entre terra e dados revela uma lógica comum: a acumulação baseada na exploração. Se no campo há concentração fundiária, no ambiente digital há concentração de informação e controle tecnológico. Em ambos os casos, o território – físico ou virtual – permanece como espaço de disputa. O Mapa do Brasil Agrário de 2025, elaborado por Eduardo Paulon Girardi, destaca zonas de tensão, onde grandes empreendimentos agrícolas avançam sobre áreas historicamente ocupadas por populações tradicionais. Nessas regiões, o crescimento do agronegócio ocorre acompanhado por aumento da concentração de terras e pela intensificação de disputas territoriais.

O caso da Gleba Tauá, na região do Matopiba, que abrange áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, marcada por conflitos judiciais e denúncias de grilagem, reflete esse padrão realizado em outras regiões brasileiras como Centro-Oeste. A Gleba Tauá é terra da União Federal, na qual vivem atualmente cerca de 80 famílias camponesas, e a cada dia sofre com o avanço do agronegócio e a devastação e violência trazidas por esse modelo predatório. Um caso emblemático e que se assemelha a muitos outros pelo Brasil.

Além da dimensão fundiária, o avanço do agronegócio incorpora novas tecnologias digitais em suas dinâmicas de expansão. Em outro mapa, intitulado Territórios da Internet desenvolvido pela Coding Rights em parceria com a Rede Transfeministas de Cuidados Digitais, evidencia que a internet não é neutra e está integrada a cadeias globais de produção. Máquinas automatizadas, drones e softwares de gestão agrícola transformam o campo em um ambiente altamente mecanizado e digitalizado. Embora aumentem a produtividade, essas tecnologias também ampliam desigualdades, ao favorecer grandes produtores e dificultar a permanência de pequenos agricultores e comunidades tradicionais em seus territórios.

Esse cenário no uso de tecnologias digitais é evidenciado também na gestão territorial brasileira, como o georreferenciamento e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que tem gerado efeitos ambíguos. Se por um lado essas ferramentas ampliam a transparência e o monitoramento ambiental, por outro têm sido apropriadas em práticas irregulares, dando origem ao fenômeno conhecido como “grilagem digital”. Para a professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Karina Kato, no Brasil, onde persistem problemas estruturais como a sobreposição de cadastros e a fragilidade na verificação da origem das terras, “a digitalização pode acabar reforçando distorções já existentes”.

Criado como um instrumento de regularização ambiental, o Cadastro Ambiental Rural baseia-se na autodeclaração dos proprietários. Na prática, porém, passou a ser utilizado como referência fundiária em diversas políticas públicas, incluindo acesso a crédito e programas de regularização. Segundo Kato, isso ocorre sem a devida checagem da cadeia dominial do imóvel – ou seja, da origem e da legalidade dos títulos de propriedade. Abrindo espaço para registros que não correspondem à realidade, permitindo que áreas públicas ou tradicionalmente ocupadas sejam declaradas por terceiros. Estudo do Center for Climate Crime Analysis (CCCA) com apoio da Repórter Brasil mostrou casos de imóveis que alteravam o perímetro declarado para retirar embargos, desmatamentos e sobreposições com áreas protegidas.

A situação se agrava em regiões de expansão da fronteira agrícola, onde o aumento do valor da terra intensifica a especulação fundiária, como o exemplo trazido da Gleba Tauá. Nessas áreas, a lógica do CAR – centrada na propriedade privada e na autodeclaração – facilita o registro indevido de terras públicas, muitas vezes ocupadas historicamente por comunidades tradicionais que não possuem títulos formais. Kato destaca que “esse processo pode ganhar aparência de legalidade ao se apresentar como ação de preservação ambiental. No entanto, na prática, contribui para a apropriação ilegal de terras e para o agravamento de conflitos territoriais, frequentemente marcados por violência e exclusão social”, afirma.

Arte: Intervozes

Conectividade como serviço essencial, mas ainda não um direito

A digitalização e uso de tecnologias no setor do agronegócio provoca novos desafios para lidar com conflitos agrários e demonstra avanços significativos na infraestrutura de internet no Brasil nos últimos anos, porém o país ainda enfrenta profundas desigualdades no acesso à conectividade – especialmente entre regiões urbanas e rurais e entre diferentes faixas de renda. A redução no custo médio por dado trafegado e a expansão de pontos de troca de tráfego não foram suficientes para garantir acesso universal e equitativo à internet.

O Brasil construiu uma das maiores malhas de conectividade da América Latina. O ponto de troca de tráfego operado pelo NIC.br, em São Paulo, é hoje o maior do mundo, enquanto Fortaleza se consolidou como um dos principais hubs globais, atraindo cabos submarinos e data centers com conexões diretas aos Estados Unidos. Esses avanços contribuíram para a queda no custo do tráfego de dados ao longo da última década. No entanto, a melhoria da infraestrutura não se traduziu automaticamente em inclusão digital. Para Oona Castro, diretora de Desenvolvimento Institucional do Nupef, fatores históricos, como o modelo de privatização das telecomunicações nos anos 1990, influenciaram o cenário atual.

“As desigualdades não apenas se articulam – elas produzem desigualdade diretamente”, avalia Oona. À época, o território brasileiro foi dividido entre operadoras responsáveis por regiões específicas, o que aprofundou assimetrias já existentes. O Sudeste, por exemplo, herdou redes mais densas, enquanto regiões como Norte e Nordeste enfrentam maiores desafios de expansão até hoje. Em duas décadas (2005-2025), a proporção de lares urbanos brasileiros com acesso à internet passou de 13% para 85%, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios realizada desde 2005 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). “Mas isso não se traduziu em acesso universalizado, tampouco em condições iguais de acesso. Essa diferença ainda ocorre no Brasil e prejudica exatamente a população de renda mais baixa e aqueles vivendo longe dos centros urbanos”, destaca Oona.

Atualmente, o problema se manifesta quando moradores de áreas rurais e regiões remotas frequentemente pagam mais caro por serviços de pior qualidade. “Há poucos anos, comunidades no interior do Maranhão chegavam a pagar entre R$ 600 e R$ 700 por mês por conexões via satélite com franquias limitadas de 80 GB e velocidades de até 20 Mbps. Em contraste, usuários em centros urbanos já tinham acesso a planos ilimitados com velocidades superiores a 100 Mbps por valores muito menores”, exemplifica Oona. A falta de infraestrutura de backhaul – redes intermediárias que conectam antenas locais ao backbone principal – é um dos principais entraves nessas regiões.

Em áreas da Amazônia, por exemplo, a ausência de estradas e a predominância de rios tornam a instalação de fibra óptica um desafio logístico e econômico até hoje. A Rede Nacional de Pesquisa passou a última década buscando desenvolver soluções para levar conexão a todos os municípios da região norte, mas quem acabou entregando o serviço de Internet acessível à população que vive na floresta e em áreas rurais afastadas das sedes dos municípios foi uma solução privada e estrangeira, já amplamente conhecida no Brasil.

Essa solução para as comunidades que anteriormente estavam sem conectividade, passa a concentrar nas mãos de uma empresa estrangeira a promoção do acesso à internet na região norte do país. “A proximidade e alinhamento de (Elon) Musk com agendas da extrema direita e o presidente estadunidense Donald Trump reforça preocupações sobre interesses estratégicos externos incidindo sobre infraestruturas essenciais em territórios como a Amazônia”, alerta Oona. Cortes na internet, como estratégia de guerra, já é uma realidade no mundo.

A dependência de uma única empresa não se limita a uma questão técnica ou de mercado, “mas se projeta como um tema de soberania, governança e autonomia sobre dados, redes e decisões que impactam diretamente populações já historicamente vulnerabilizadas”, analisa Oona, a exemplos do apagamento da história do açaí no Amazonas ou os drones que pulverizam agrotóxico em comunidades de agricultores familiares em várias regiões do interior do país. Em São Benedito do Rio Preto, no Maranhão, oito comunidades quilombolas foram pulverizadas, em 2025, por aeronaves durante mais de 15 dias consecutivos, comprometendo a saúde das famílias e sua soberania alimentar.

O agronegócio amparado muitas vezes por políticas de Estado promove estratégias digitais a partir do que Evgeny Morozov, pesquisador bielorusso, denomina de tecnosolucionismo, ou seja, simplifica questões estruturais e transfere responsabilidade da ação coletiva para ferramentas automatizadas. Assim como Thiane Neves apresenta em sua pesquisa sobre a cadeia do açaí. “A plantação, a árvore, a forma de colher o açaí, de retirar o suco e as formas de inserção do açaí no cotidiano alimentar. Bem como o destino dado às sementes, que viram ‘de um tudo’. Essa combinação predatória dos algoritmos que apresentam o açaí como uma commodity, sem oportunizar que haja diversidade dessa narrativa. Uma vez estava procurando no YouTube sobre métodos de fazer uma peconha e me deparei com “peconhas” já semi industrializadas em nome da segurança de quem sobe nas árvores”, descreve.

Sem direito à comunicação, incidência territorial fica limitada

Por outro lado, a tecnologia pode ser usada como serviço para a defesa de bens coletivos. “Não é alguém que me contou. Eu vivo isso na pele”, relata Sally Nhandewa, comunicadora indígena de Japorã e assessora de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), região de fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, onde também ocorre práticas de arrendamento ilegal e pulverização de agrotóxico. Com o uso das tecnologias, situações de violência ganharam repercussão imediata, alcançando públicos diversos e ampliando a pressão por respostas das autoridades. Segundo Sally, dar visibilidade às violações é uma forma de denúncia e também de proteção. Essa contradição nos usos das tecnologias embasa necessidades a serem superadas.

Oona Castro “defende que a superação dessas desigualdades exige políticas públicas mais coordenadas, investimentos em infraestrutura adaptada às diferentes realidades territoriais e modelos regulatórios que incentivem a universalização do acesso”. Sem isso, alerta, o avanço tecnológico continuará ampliando desigualdades e negando o acesso à internet e exercício da cidadania a uma parcela significativa da população brasileira.

Revisitar e reorganizar as políticas públicas em direitos digitais é necessário porque a internet é uma infraestrutura como água e energia. “Mesmo em territórios distantes, comunidades conseguem acompanhar, em tempo real, discussões no Congresso Nacional e decisões do Supremo Tribunal Federal que impactam diretamente seus direitos”, destaca Sally. Para os comunicadores indígenas, a internet e os dispositivos móveis se tornaram aliados estratégicos na defesa dos territórios e na ressignificação da luta dos povos originários no Brasil.

E se, conforme questiona Thiane, “não temos tecnologias próprias e livres, se não temos tecnologias autônomas, como voltar os olhos para nós mesmos?”. O Marco Civil da Internet (Lei nº12.965/2014), a “Constituição da Internet”, já traz diretrizes importantes para as garantias da neutralidade da rede e responsabilidade de provedores, por exemplo, porém necessita de efetividade. Programas federais como Wi-Fi Brasil, Nordeste e Norte Conectado, para citar alguns exemplos, utilizam serviços privados para sua execução.

Por mais que o uso de ferramentas livres seja realidade como o Tiwa, um projeto de serviços internet criado pelo Nupef e que entidades da Rede Global por Resiliência Digital – como Fundacion Acceso, Derechos Digitales e SocialTic mantêm máquinas virtuais no Tiwa com serviços autônomos para suas organizações, a adesão massiva às ferramentas proprietárias ainda prevalece. “As compras governamentais e corporativas, as contratações de nuvem e ferramentas de videoconferência continuam quase sempre sendo de softwares proprietários (Microsoft Teams, Google Drive e Meet, Zoom, emails de Google e Microsoft)”, lembra Oona.

A melhoria dos serviços de redes livres e autônomas requer investimento em recursos humanos e infraestrutura, além de uma visão de médio e longo prazos. “Infelizmente o imediatismo e o pragmatismo não estratégicos contribui fortemente para o não desenvolvimento de conhecimento e tecnologias nacionais e livres que deem conta de atender a demanda nacional e de interesse público. Essa tendência vai se acentuar fortemente com o uso de inteligência artificial”, alerta Oona.

A incorporação de tecnologias digitais precisa também estar ancorada em objetivos políticos claros, como a redução das desigualdades fundiárias e o fortalecimento de formas mais sustentáveis e inclusivas de relação com a terra. “O principal desafio é fazer com que as tecnologias digitais se fortaleçam – e não fragilizam – a governança territorial e ambiental no Brasil. Sem esse direcionamento, há o risco de que a conectividade e a digitalização apenas reforcem assimetrias já existentes. Ao mesmo tempo, as tecnologias devem ser orientadas para a garantia de direitos. Elas podem contribuir, por exemplo, para a gestão das terras públicas não destinadas, apoiando sua destinação para fins previstos na Constituição, como a reforma agrária e a preservação ambiental”, recomenda Karina.

 

Esse artigo faz parte da série “Relatório Direito à Comunicação 2025”, produzido pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. O relatório, divulgado anualmente, traz reflexões, análises e contribuições para o debate ligado ao direito à comunicação, a partir dos principais fatos que marcaram o Brasil.

 

Raquel “Baster” da Silva Santos é jornalista e educadora popular. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e associada ao Intervozes.

 

Referências:

BARROS, Thiane de Nazaré Monteiro Neves. Um breve debate sobre colonialismo digital e Amazônia sob um olhar afrodiaspórico. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO NORTE, 22., 2025, online. Anais […]. São Paulo: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2025. Disponível em: https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/regional/20/3379/04232025000439680858c74ade2.pdf. Acesso em: 12 abr. 2026

GIRARDI, Eduardo Paulon. Uma versão atualizada do mapa “Brasil Agrário”. Revista NERA, Presidente Prudente, SP, v. 28, n. 3, e11141, jul./set. 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1806-675520252811141. Acesso em: 12 abr. 2026

MOROZOV, Evgeny. La locura del solucionismo tecnológico. Traducido por Nancy Viviana Piñero. Buenos Aires: Katz Editores, 2016.

TRAMAS. Big Tech, Big Agro, Big Money: tecnologias de expulsão e impactos da digitalização da monocultura brasileira – caso Matopiba. Disponível em: https://tramas.digital/pt/casos/matopiba/. Acesso em: 12 abr. 2026.

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