Como reduzir a desigualdade de gênero e promover sistemas alimentares justos e sustentáveis?
As Nações Unidas declararam o ano de 2026 como o Ano Internacional das Mulheres Agricultoras. O objetivo da organização é destacar o papel fundamental que as mulheres desempenham nos sistemas alimentares, bem como as persistentes desigualdades de gênero. É necessário conhecer a realidade das mulheres nos sistemas alimentares globais para que se possa planejar ações para a redução da desigualdade de gênero. Contudo, o empoderamento de mulheres e meninas visando melhorar suas condições socioeconômicas, bem como de suas famílias e comunidades, depende, principalmente, de políticas públicas e da atuação consistente da sociedade em nível local
A situação das mulheres nos sistemas alimentares
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) define mulheres agricultoras como todas aquelas que trabalham nos sistemas agroalimentares, independentemente de suas funções ou segmentos dentro das cadeias de valor, abrangendo uma diversidade de categorias de trabalhadoras. A FAO destaca que as mulheres possuem um papel importante para a garantia de segurança alimentar e nutricional e para a melhoria dos meios de vida de suas famílias e comunidades. Contudo, sua contribuição não é reconhecida e as desigualdades de gênero limitam seu acesso a recursos, oportunidades e à tomada de decisões[1].
A proposta de tornar 2026 o Ano das Mulheres Agricultoras vem na sequência da publicação de dois importantes relatórios pela FAO que abordam a situação das mulheres nos sistemas alimentares. O primeiro deles, de 2023, intitulado The status of women in agrifood systems (O status das mulheres nos sistemas agroalimentares) foca nas desigualdades estruturais que afetam as mulheres no setor agroalimentar.
Essas desigualdades são evidentes no que se refere a emprego e renda, sendo que as mulheres constituem uma parcela significativa da força de trabalho agrícola, mas seus papéis são frequentemente marginalizados. Elas recebem apenas 78 centavos para cada dólar que um homem ganha em atividade agrícola assalariada. Quanto ao acesso aos recursos, há uma desigualdade no acesso à terra, ao crédito, à insumos agrícolas, tecnologias e serviços de extensão. As propriedades agrícolas sob gestão feminina apresentam uma produtividade 24% inferior àquelas administradas por homens.
Em relação às horas de trabalho, as mulheres têm uma carga de trabalho de cuidado não remunerado significativamente maior, o que limita suas oportunidades de educação, emprego e participação política. Além disso, as mulheres são mais vulneráveis a choques e crises, como na pandemia de COVID-19, em que 22% das mulheres perderam seus empregos em setores de sistemas agroalimentares fora da agricultura, em comparação com apenas 2% dos homens[2].
O relatório The unjust climate (O clima injusto) de 2024, aprofunda a análise de como a crise climática impacta as populações rurais, com foco em dados e evidências concretas de 24 países e destaque para o impacto sobre as mulheres rurais. O relatório demonstra como eventos climáticos extremos afetam desproporcionalmente a renda das mulheres.
Em países de baixa e média renda, o estresse por calor causa uma redução de 34% na renda total de lares chefiados por mulheres, em comparação com os chefiados por homens. Anualmente, isso representa uma lacuna de renda de 37 bilhões de dólares em todo o mundo. O relatório traz ainda que em 4.164 ações climáticas analisadas em 24 países, apenas 6% mencionam mulheres. Além disso, durante eventos climáticos extremos, as mulheres tendem a aumentar suas horas de trabalho semanais em relação aos homens, o que pode agravar a já desproporcional carga de trabalho (FAO, 2024).
Os relatórios revelam que a desigualdade de gênero é um fator central na vulnerabilidade das mulheres rurais. Ambos os documentos ressaltam que o empoderamento feminino é necessário para alcançar a segurança alimentar e nutricional e a resiliência econômica e climática. Além disso, trazem que as mulheres agricultoras demonstram uma capacidade de adaptação notável, mas enfrentam grandes desafios para que essas ações se traduzam em melhorias significativas.
A invisibilização do trabalho feminino na agricultura
As mulheres representam cerca de 40% da força de trabalho nos sistemas alimentares[3]. Atividades como o cultivo de ervas medicinais, frutas e hortaliças, são comumente executadas por agricultoras, com ênfase na produção para o consumo da própria família. A importância das mulheres na conservação da biodiversidade e no repasse dos conhecimentos produtivos também é evidente (CHAVES; CASTRO; MENEZES, 2018).
O trabalho feminino na agricultura não se limita às atividades produtivas de plantio, colheita, manejo de animais e processamento de produtos agrícolas, mas inclui o trabalho de cuidado e de reprodução social (cuidado com a família, com a alimentação e afazeres domésticos). O trabalho de cuidado não remunerado realizado por mulheres e meninas contribui com mais de 10 trilhões de dólares para a economia global a cada ano[4].
Além disso, as mulheres rurais frequentemente são líderes comunitárias e assumem atividades de organização e de participação em sindicatos, cooperativas, associações e movimentos sociais (CHAVES; CASTRO; MENEZES, 2018; LIMA; JESUS, 2017).
No entanto, o trabalho feminino é invisibilizado e as atividades exercidas pelas mulheres tendem a ser consideradas como mera ajuda aos homens. A persistente desigualdade de gênero no meio rural é base da invisibilização e subalternização do trabalho das mulheres e, por sua vez, se assenta em padrões socioculturais definidos historicamente. A invisibilidade se reflete muitas vezes na escassez de dados sobre o trabalho feminino na agricultura, nas dificuldades de acesso à terra e ao crédito, em políticas públicas e na percepção social (LIMA; JESUS, 2017; FAO, 2023).

As mulheres agricultoras no Brasil
No Brasil, apenas 18,7% dos estabelecimentos agropecuários são geridos por mulheres, com uma parcela ligeiramente maior entre as unidades familiares. Apesar do acesso desigual, as mulheres tendem a demonstrar cuidado com a terra onde se produz. Elas apresentam uma menor tendência ao uso de agrotóxicos e maior propensão ao uso de adubos orgânicos em relação a adubos químicos (RODRIGUES et al., 2021; HORA et al., 2021). Com isso, nota-se uma maior predisposição feminina na transição de modelos de produção convencionais para modelos mais sustentáveis de agricultura, o que as coloca em posição não só de zeladoras da saúde de suas famílias, como também, da saúde de sua terra e do meio ambiente (LIMA; JESUS, 2017).
Dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2017) e da CONAB (2019) revelam que boa parte da produção de estabelecimentos geridos por mulheres é destinada ao autoconsumo e a políticas públicas de alimentação e nutrição. Nos estabelecimentos dirigidos por mulheres, 54,1% da produção é destinada ao consumo próprio, enquanto 45,9% à comercialização, ao mesmo tempo que nos estabelecimentos dirigidos por homens há praticamente uma inversão das proporções (IBGE, 2017). Esses dados demonstram a importância das mulheres na promoção da segurança alimentar e nutricional no país, ainda que grande parte de sua produção voltada ao autoconsumo permaneça não registrada, não declarada e, portanto, invisibilizada nas estatísticas oficiais.
Ações para a superação da desigualdade de gênero
Construir sistemas alimentares sustentáveis é essencial para promover a segurança alimentar e nutricional, a mitigação de efeitos de mudanças climáticas e a resiliência econômica. Apesar da persistente desigualdade de gênero no meio rural, as mulheres têm um papel fundamental na transição para modelos mais justos e sustentáveis de sistemas alimentares. Este papel se mostra na produção de alimentos, especialmente para a subsistência e para o consumo de populações mais pobres, na preservação da biodiversidade, na difusão de práticas agrícolas sustentáveis e na organização social.
Para promover equidade de gênero no meio rural e potencializar a contribuição feminina para sistemas alimentares sustentáveis são fundamentais políticas públicas e ações de acesso à terra, ao crédito e a insumos; apoiar redes de mulheres e sua participação social; criar condições reais de educação e de trabalho digno. Programas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por meio de concessão de crédito ou escoamento da produção, possibilitam geração de renda e autonomia das mulheres (SOUTO; BARRETO; CANAVESI, 2024). A regularização fundiária, como o Programa Nacional de Reforma Agrária, especialmente quando adota medidas de igualdade de gênero como a inclusão do nome das mulheres na titulação da terra, reconhecendo-as como sujeitas de direitos na reforma agrária, promove maior segurança jurídica, tornando-as protagonistas do processo de produção rural. Vale ressaltar que essas mudanças tiveram forte influência das reivindicações de movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de movimentos feministas rurais como a Marcha das Margaridas[5] (BRASIL, 2003; BUTTO; HORA, 2008).
É importante, ainda, adotar abordagens transversais e interseccionais que considerem o gênero em todas as etapas, desde a concepção até a implementação, em todas as políticas de combate à desigualdade de gênero e promoção da agricultura sustentável (MATOS, 2023).
A agroecologia é uma importante solução técnica e social, sendo uma estratégia de produção que fortalece a resiliência e pode contribuir para o empoderamento feminino (LIMA; JESUS, 2017). Contudo, a desvalorização da mulher no âmbito rural se torna ainda mais evidente ao se observar as falhas na implementação de políticas públicas agroecológicas voltadas à questão de gênero (LEÃO; VIEIRA, 2022) e a necessidade de maior incentivo e suporte às mulheres dentro do movimento agroecológico (LIMA; JESUS, 2017).
As ações que promovem empoderamento e autonomia financeira, como oficinas, feiras e conselhos participativos, também contribuem para fortalecer sua atuação e ampliar sua presença em processos decisórios (VIEIRA et al., 2019; ALENCAR; LUNAS, 2024; GOMES; FERRANTE; WHITAKER, 2019). No entanto, a inclusão produtiva e econômica, por si só, não soluciona as desigualdades estruturais. É imprescindível que o reconhecimento do papel da mulher venha atrelado à valorização e à partilha do trabalho reprodutivo – as tarefas domésticas e de cuidado –, historicamente tratado como secundário, mas que constitui o alicerce da agricultura familiar. Sem a divisão desta carga, a emancipação se torna uma sobrecarga.
A participação das mulheres nos espaços coletivos e organizativos tem sido fundamental para o reconhecimento social, a valorização do seu trabalho e a consolidação de uma identidade política própria (CHAVES et al., 2018; MENDONÇA; MARQUES, 2018; COSTA; JURIATTI, 2021; CÂMARA et al., 2024). O protagonismo feminino é uma força política e social essencial para promover mudanças, sendo importante valorizar e estimular o papel de liderança das mulheres em movimentos sociais e organizações.
São evidentes os obstáculos existentes para o empoderamento das mulheres rurais. No entanto, as organizações de mulheres e projetos de desenvolvimento sustentável com enfoque na questão de gênero têm mostrado a possibilidade das ações protagonizadas por mulheres impulsionarem a ressignificação e valorização de suas atividades e, consequentemente, ampliarem sua contribuição para sistemas alimentares mais justos e resilientes.
Marisa Alice Singulano é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Maria Cristina Passos é professora do Departamento de Nutrição Clínica e Social e do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Nutrição da Universidade Federal do Ouro Preto.
Nicole Cristina Vieira é graduanda em Nutrição pela Universidade Federal de Ouro Preto.
Referências
BUTTO, Andrea; HORA, Karla. Mulheres e reforma agrária no Brasil. In: BUTTO, Andrea (org.). Estatísticas rurais e a economia feminista: um olhar sobre o trabalho das mulheres. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2008.
BRASIL. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Portaria INCRA/P nº 981, de 2 de outubro de 2003. Dispõe sobre a titulação conjunta nos assentamentos do Programa Nacional de Reforma Agrária. Brasília: INCRA, 2003.
CHAVES, A. R. S. A busca pela ascensão feminina no PDS Virola Jatobá, Anapu-PA. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 26, n. 1, e42742, 2018.
FAO; UN WOMEN. The status of women in agrifood systems. Roma: FAO, 2024. 296 p. Disponível em: https://doi.org/10.4060/cc5060en. Acesso em: 21 jan. 2026.
LEÃO, Benicio Abel da Silva Andrade; VIEIRA, Vanessa da Silva. Agroecologia e relações de gênero: políticas públicas para agricultura familiar sustentável no território de identidade do sisal. In: XXVI Seminário de iniciação científica da UEFS, Feira de Santana, n. 26, 2022.
LIMA, Márcia Maria Tait; JESUS, Vanessa Brito de. Questões sobre gênero e tecnologia na construção da agroecologia. Scientiae Studia, São Paulo, v. 15, n. 1, p. 115-144, 2017.
MENDONÇA, Gabriela Mariano; MARQUES, Paulo Eduardo Moruzzi. Protagonismo feminino na agricultura agroecológica: estudo de uma organização de controle social no assentamento Milton Santos. Retratos de Assentamentos, v. 21, n. 2, 2018.
RODRIGUES, H. E. et al. Mulheres na agricultura familiar: uma análise no estado do Pará. Guaju, Belém, v. 7, n. 2, p. 234-263, 2021.
SOUTO, Marília C.S.M.; BARRETO, Cristiane G.; CANAVESI, Flaviane C. Políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional no empoderamento de mulheres agricultoras. Revista Brasileira de Agroecologia, Brasília, v. 19, n. 3, p. 309-332, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.33240/rba.v19i3.53880. Acesso em: 10 maio 2024.
[1] https://www.fao.org/woman-farmer-2026/about/es (Acesso em 21/01/2026)
[2] https://www.fao.org/gender/the-status-of-women-in-agrifood-systems (Acesso em 26/01/2026)
[3] https://www.fao.org/woman-farmer-2026/en
[4] https://www.fao.org/woman-farmer-2026/en
[5] Marcha das Margaridas – Mobilização nacional de mulheres trabalhadoras rurais realizada periodicamente em Brasília.

