Não confunda masculinista com psicanalista
Recentemente, algumas mulheres psicanalistas vieram a público denunciar violências de gênero, assédio moral e sexual e episódios de misoginia vivenciados dentro do campo psicanalítico
Já nos anos 1970, Hélène Cixous nos alertava sobre o devastador projeto de destruição dos corpos femininos ao afirmar que “ao fim da época do Falo, as mulheres terão sido ou aniquiladas ou elevadas à mais alta e violenta incandescência” (Cixous, 1975). É duro pensar que essa afirmação segue se atualizando e se demonstrando extremamente necessária enquanto alerta ainda hoje, pois a cada novo ato misógino e machista toda a problemática da violência de gênero se modifica, em uma atualização sem fim que se desdobra como espiral de violência, com seus efeitos nefastos e irreparáveis.
Sabemos que, historicamente, as mulheres vêm sendo portadoras de más notícias. Há décadas, mulheres feministas chamam atenção para o que não vai bem na sociedade: violência, exploração e vilipêndio de todos os corpos que diferem dos ideais compulsórios de raça, classe e gênero e, assim, são tomados enquanto abjeto no social. (Butler, 2018). Recentemente, algumas mulheres psicanalistas vieram a público denunciar violências de gênero, assédio moral e sexual e episódios de misoginia vivenciados dentro do campo psicanalítico. Essas vozes, inicialmente desarticuladas, transformaram-se em um coro potente, através do qual mulheres analistas e analisandas têm podido escancarar o que vinha sendo silenciado há mais de um século: a psicanálise, como outros espaços do social e áreas do saber, também não é um lugar seguro para mulheres cis e trans.
O movimento tomou corpo e chegou a proporções surpreendentes, com uma mobilização coletiva de mulheres que se organizaram em grupos de trabalho de intervenção jurídica e junto a instituições, de acolhimento, de estudo teórico e de disseminação de informações. Muitos psicanalistas homens também se somaram ao movimento. Demonstraram seu apoio público, aproximaram-se, passaram a pensar em sua implicação nesse fenômeno tão devastador. Contudo, nem todos se dispõem a, de fato, escutar o que uma mulher tem a dizer – embora se digam psicanalistas e, por consequência, trabalhem com a escuta. Ainda assim, não deixa de ser significativo que seja ela quem anuncie, uma vez mais, a má notícia: no interior de um campo que se pretende fundado na escuta, é a tentativa de silenciamento que se impõe.
Um deles, em particular, provavelmente ao se ver exposto por algumas mulheres a quem violentou, decide, em uma tentativa de se defender das denúncias, reiterar sua posição de ódio às mulheres. Através de um texto que tentou fazer circular em grupos de WhatsApp do meio psicanalítico acadêmico, busca atacar a dissertação de mestrado de uma dessas mulheres. Um texto anônimo, sem assinatura em nome próprio, pois sabemos que misoginia e covardia frequentemente andam juntas.
No meio acadêmico, estamos sujeitos e sujeitas a críticas, pois entendemos que isso possibilita o avanço da ciência e contribui para os pontos de embate no meio científico, principalmente quando se trata de temas interseccionais como a violência de gênero pela perspectiva do feminismo, como é o tema da dissertação em questão. Temas como esse são especialmente complexos, mantendo-se vivos e em movimento, o que os transforma, inclusive, em campos de disputa. O movimento feminista se desdobra em diferentes ondas (Garcia, 2015) geradas a partir das reivindicações de mulheres, que se modificaram ao longo do tempo, porém também a partir de interpelações e questionamentos provenientes da luta de classes e dos movimentos antirracista e LGBTQIAPN+, por exemplo.
Isso posto, entende-se que não só o movimento feminista comporta em sua história a possibilidade de transformações e revisões, mas também que é importante que siga sendo um espaço aberto a críticas e novas interpelações. Porém, apenas quando vierem de forma ética, honesta e com consistência teórico-prática-científica, o que não é encontrado em absoluto no infame texto mencionado.
Esse texto apócrifo, que é desonesto por excelência ao não apresentar autoria, presta-se a buscar destruir a trajetória clínica e de pesquisa de uma psicanalista que trabalha com mulheres em situação de violência há vários anos e que relata parte dessa experiência em sua dissertação de mestrado. A dissertação, intitulada Sub-versões do falo: interrogantes sobre o lugar do feminino no discurso capitalista (Vigil, 2024), foi um trabalho de campo orientado por dois professores doutores de renome com titulação, qualificação e relevância no meio acadêmico, além de examinada por uma banca composta por professoras doutoras que são referência na psicanálise brasileira, no que tange a temas como violência de gênero, feminismo e clínicas públicas de psicanálise, dentre outros. A dissertação foi defendida dentro da universidade pública, aprovada por unanimidade e indicada à publicação.

O anonimato, aqui, não é acidental: ele opera como posição de enunciação, aquela de quem se autoriza a deslegitimar outras formas de pensar sem colocar em perspectiva a sua própria. Quem seria esse autor “misterioso”? Ou se trata de uma autora? Psicanalista não poderia ser, pois alguém que escuta sujeitos, de forma ética e implicada, que escuta o sofrimento psíquico de outrem, não se esconde no anonimato. Fala em nome próprio.
Sabemos que alguns homens denunciados, ao serem responsabilizados pelas violências que cometem, parecem se perder no próprio desespero de tentar se defender. O(a) autor(a) do texto acaba por não só ignorar todas as questões supracitadas como, também, a desrespeitar os trabalhos e a trajetória desses e dessas pesquisadoras que acompanharam essa dissertação, seja na posição de orientadores seja na posição de integrantes da banca examinadora. Ora, um homem que se autoriza a encurralar e beijar uma mulher à força, mesmo escutando diversos “nãos”, também se sente autorizado a criticar a dissertação de uma colega pesquisadora mesmo sem nenhuma consistência teórica acerca do tema dessa dissertação – ou a convencer outras pessoas a fazer o trabalho sujo por ele. Até aí, nada de novo.
O problema se agrava quando esse homem autora se nomeia analista e assim é reconhecido por (alguns) pares. Não se trata apenas de uma posição individual, mas de um regime de legitimação. No entanto, como sugere a psicanalista feminista Rosane Pereira, em uma fala recente no podcast Mirante, do Observatório de Psicanálise, talvez seja preciso, nesses casos, supor menos “psicanalista” nessas pessoas, pois o que está em jogo não é apenas o conteúdo de uma fala, mas a ética que a sustenta. Seria possível uma psicanálise anônima? Se a psicanálise se pretende uma prática situada, o anonimato aparece aqui como tentativa de neutralizar – ou mesmo apagar – as violências que o próprio gesto reinscreve. Nesse sentido, o texto em questão, ao contrário da dissertação que pretende desqualificar, não contribui para a psicanálise enquanto práxis, mas opera como uma tentativa de silenciamento – um gesto que se aproxima do que se poderia nomear como um feminicídio epistêmico, ao visar a destruição da produção de uma mulher pesquisadora.
Como já mencionado, a academia é espaço público de debate, no qual ideias são confrontadas a partir de pesquisas orientadas, avaliadas e submetidas ao escrutínio coletivo de estudiosos e estudiosas. É nesse horizonte que situamos nossa posição: a de um debate que só pode ser público e coletivo. Críticas são não apenas aceitas, mas necessárias a qualquer pesquisador ou pesquisadora comprometida – desde que sustentadas por responsabilidade ética e relevância científica e metodológica.
Aos autores do texto, que tentam se esconder no próprio anonimato, deixamos o convite para que venham a público debater conosco, de modo a avançarmos na discussão interseccional de um tema tão complexo e sensível quanto a violência de gênero. Enquanto psicanalistas, sustentamos que é precisamente neste espaço, do laço social, que se pode produzir algum deslocamento frente à violência. Apostamos que, se se tratar de alguém com aporte teórico e vivência clínica e de intervenção nesse fenômeno, será um debate bastante profícuo.
Lívia Maciel Vigil é psicanalista e mestra em Psicanálise: clínica e cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Supervisora na Associação Projeto Gradiva – atendimento psicanalítico gratuito a mulheres em situação de violência
Referências
Butler, J. (2018) Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. (16ª ed.) Civilização Brasileira.
Cixous, H. (2022). O Riso da Medusa.Bazar do Tempo. (Obra original publicada em 1975)
Garcia, C. C. (2015) Breve história do feminismo. (3ª ed.) Claridade
Vigil, L. M. (2024) Sub-versões do falo: interrogantes sobre o lugar do feminino no discurso capitalista. [Dissertação de Mestrado em Psicanálise: teoria e clínica – Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. Repositório da UFRGS. https://lume.ufrgs.br/handle/10183/282439


A psicanálise, que a princípio deve ser um recanto seguro para se tratar a delicadeza dos afetos, não pode permitir de forma alguma qualquer forma de abuso. A realização, manutenção e encobrimento de qualquer forma de abuso é crime e deve ser denunciado. Quando praticado por alguém com consciência de seu lugar de suposto saber, e da vulnerabilidade que esse lugar promove em quem está em analise, é inadmissível e da ordem da perversão. Como psicanalista há 20 anos, entendo que é parte do trabalho cuidar de forma ativa e inabalável da ética da profissão, e isso incluí identificar e denunciar qualquer situação de abuso, mesmo dentro dos próprios portões.