Engolir o choro
Quando a dor deixa de ser um chamado e passa a ser um problema individual, o caminho para a exploração está pavimentado
O choro é a nossa primeira forma de existir no mundo. Antes de qualquer palavra articulada, o corpo se anuncia pelo som. Chorar é convocar presença, pedir cuidado e marcar que algo não está bem. Não é exagero, não é descontrole. É uma linguagem primária. O som do choro organiza o vínculo, cria relação, sustenta a vida.
Pesquisas na área da psicologia do desenvolvimento revelam que a troca de sons e vocalizações entre adultos e crianças constrói os alicerces da ligação humana. Segundo a Teoria do Apego, o choro não é apenas um ruído de protesto, mas a primeira ferramenta de comunicação do bebê, funcionando como um gatilho biológico que “convoca” o adulto para o cuidado (Brewster et al., 1998; Zeskind & Shingler, 1991).
Não reagimos ao choro por acaso. Certas características do som como notas mais agudas, variações na melodia e a intensidade do volume aumentam drasticamente as chances do bebê ser atendido (Dessureau, Olson & Thompson, 1998).
O organismo adulto manifesta uma resposta instintiva anterior a qualquer interpretação racional, desencadeando mudanças fisiológicas imediatas ao ouvir o chamado do bebê. Paralelamente, ocorre um aumento da vigilância, fazendo com que o cérebro concentre sua energia no som, o que torna o apelo praticamente impossível de ser ignorado.
Em algum momento da infância, no entanto, esse som passa a ser corrigido. Não de uma vez, mas através de uma pedagogia invisível e persistente: “Engole o choro”. O corpo, que aprendia a se afirmar pelo som, começa a aprender outra lição: há expressões aceitáveis e ruídos inconvenientes. O silêncio não surge como ausência de som, mas como uma forma disciplinadora de presença. Ele molda gestos, posturas e, principalmente, a percepção de si. Ao repetirmos que “menino não chora” ou que o choro é sinal de fraqueza, ensinamos a criança a esconder o que sente para ser aceita.
O “engole o choro” força a criança a se desligar dos próprios sinais de alerta. Ela para de confiar no que o corpo diz (medo, nojo, desconforto) e passa a duvidar da própria percepção.

A psicanalista Alice Miller (1980) analisou a educação que, alicerçada em castigos e punições, teve como objetivo a obediência incondicional das crianças aos adultos. Um dos componentes centrais dessa pedagogia consiste na repressão dos sentimentos e do choro das crianças.
Na vida adulta, esse silenciamento manifesta-se como uma incapacidade de reconhecer o próprio sofrimento. Sem a consciência do dano que recebeu, a pessoa projeta essa violência reprimida em terceiros, frequentemente nos próprios filhos ou em grupos vulneráveis, perpetuando ciclos sociais de abuso e autoritarismo.
Entre meninos, o silêncio frequentemente se associa à lealdade. Não se fala de sentimentos, mas também não se nomeiam erros, abusos, violências. Há um pacto implícito: calar é proteger o grupo; falar é romper o vínculo. O silêncio funciona como cola social.
Entre meninas, o silêncio assume outra forma. Aprende-se a modular o tom de voz, a não exagerar, a não incomodar. Quando algo atravessa esse corpo – um abuso, um constrangimento, uma violência – a fala é rapidamente deslegitimada. É drama. É exagero. É “mimimi”. O choro perde seu valor de linguagem e passa a ser tratado como ruído.
Quando a dor deixa de ser um chamado e passa a ser um problema individual, o caminho para a exploração está pavimentado.
Há violências que dependem desse silenciamento prévio para prosperar. O abuso sexual infantil é a mais cruel delas. Ele não se sustenta apenas pela força física, mas pelo “Pacto de Silêncio”, uma armadilha psicológica que usa a culpa e a manipulação dos afetos.
No Brasil, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública são devastadores: a esmagadora maioria das violências sexuais contra crianças ocorre no ambiente doméstico, praticada por conhecidos. Isso significa que, ao falar, a criança frequentemente desafia estruturas afetivas e hierarquias de poder. Não é apenas uma denúncia, é uma ruptura de ordem.
Por isso, a resposta que muitas recebem ainda é a suspeita: “Tem certeza?”, “Não foi um mal-entendido?”. Tais perguntas não são neutras. Cada “engolir o choro” é um tijolo nos muros que protegem o agressor.
É nesse ponto que a Lei nº 13.431/2017, a Lei da Escuta Protegida, adquire uma dimensão revolucionária. Ela reconhece que a escuta não pode depender da sensibilidade individual de um adulto; ela precisa ser um compromisso institucional. A legislação estabelece que a criança deve ser ouvida em ambientes acolhedores, por profissionais treinados em técnicas que evitam a sugestão ou a intimidação.
Como explica Karina Figueiredo, da campanha Faça Bonito, em debate promovido pela Cria Coragem, “ela nasce num contexto de enfrentar principalmente a revitimização. Porque, se a gente olha para o sistema de garantia de direitos que o ECA traz, uma criança ou um adolescente que vivia uma situação de violência sexual falava no mínimo oito vezes dessa violência e, a cada fala, ele revivia essa violência. Então ele tinha que falar: contava para a professora, que é o lugar onde eles mais revelam, o que a gente chama de revelação espontânea. Mas ele contava também para o conselheiro tutelar, para o agente de polícia civil, para o promotor, para o juiz e depois para quem estava lá na rede de proteção desse adolescente, dessa criança. E isso era colocar essas infâncias e essas adolescências num sofrimento novamente. E aí a lei veio para dizer: o nosso sonho é que a criança fale uma única vez. E essa fala siga o que a gente chama de circuito da proteção. Ela sirva para responsabilizar o autor ou autora da violência e para proteger a criança.” (CRIA CORAGEM, 2025, 13min29s–14min47s).
A lei organiza dois pilares fundamentais: a Escuta Especializada e o Depoimento Especial. O objetivo central é cessar a “revitimização”, a prática traumática de obrigar a criança a repetir seu relato inúmeras vezes para múltiplos órgãos, revivendo o abuso a cada narrativa. A lei inverte a lógica histórica: não é a criança que deve se adaptar ao rigor do tribunal; é o sistema de justiça que deve se humanizar para alcançar a criança.
Escutar a criança não é apenas acolher sua dor. É interromper a engrenagem que transforma sofrimento em segredo e segredo em repetição. É impedir que a dúvida automática funcione como proteção do agressor.
Quando o choro é acolhido e não corrigido ele retorna ao que sempre foi: um pedido de presença. Uma sociedade que decide escutar de verdade não apenas responde ao trauma; ela começa, finalmente, a desmontar as estruturas que ensinaram seus filhos a calar.
Luiza Akimoto é Co-Diretora e pesquisadora da Cria Coragem. Artista compositora, narradora do podcast Cria História e documentarista da periferia da Brasilândia, São Paulo – SP.
Alexandre Kishimoto é coordenador de pesquisa da Cria Coragem. Antropólogo e documentarista, autor da tese “Nem tudo era japonês – Insurgências negro-indígenas no bairro da Liberdade” (em elaboração na UFABC). É coordenador da Esquisito Filmes.
Cria Coragem é uma iniciativa do Instituto Çarê que apoia e constrói novas narrativas sobre as infâncias, com foco na prevenção e erradicação ativa da violência sexual infantojuvenil. Atua de forma multicanal e transmídia, criando pontes entre diferentes públicos por meio de conteúdos que promovem infâncias protegidas, potentes e felizes, a fim de transformar a forma como a sociedade concebe e cuida das crianças e adolescentes. A equipe é formada por Alícia Peres, Alexandre Kishimoto, Heloísa Feliciana, Julia Rufino e Luiza Akimoto. Saiba mais em criacoragem.com.br.
Fontes
CHANG, R. S., & THOMPSON, N. S. (2010). The Attention-Getting Capacity of Whines and Child-Directed Speech. Evolutionary Psychology, 8(2), 260-274. Disponível em: < https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10480897/ >.
BRASIL, Roseli Zanon. “Para seu próprio bem‟: educação e castigo na obra de Alice Miller. [S.l.]: Universidade Estadual Paulista (Unesp), 13 nov. 2020. Disponível em: < https://repositorio.unesp.br/entities/publication/e6d96c87-9f20-444b-9103-79bdcad07235 >.
BRASIL. LEI Nº 13.431, DE 4 DE ABRIL DE 2017. Disponível em: < https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm >.
ANUÁRIO BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA 2025 / Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: < https://forumseguranca.org.br/publicacoes/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/ >.
CRIA CORAGEM. Cria Debate | EP 01: ECA Digital. E você com isso? São Paulo, 2025. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=oBTQL6YajNc&t=913s >.


Muito esclarecedor. O termo revitimização e o contexto no qual acontece nunca haviam sido expostos com tanta clareza pra mim.
Parabéns pelo texto.