Como um país que odeia pessoas LGBTs está lucrando com a cultura queer
Os leques estão na rua, na propaganda da Copa do Mundo de Futebol, nos grandes festivais. Mas quantas pessoas LGBTs fazem parte destas campanhas?
A caminho de um festival, em um aplicativo de transporte, o motorista me pergunta: “você não quis ir ao show da Shakira? Meu sobrinho foi para lá vender leques e já lucrou mais de R$30 mil com isso”. Não perguntei a sexualidade do sobrinho dele, mas, possivelmente, é um rapaz heterossexual, pois a maioria dos vendedores de leques em grandes eventos que frequento são homens héteros, por incrível que pareça. E aqui a gente tem um diagnóstico de um país dissimulado. O Brasil é, há décadas, o país que mais mata pessoas LGBTs no mundo inteiro. A contradição: é também o país que segue usufruindo da cultura queer para lucrar.
Mas este tipo de paradoxo não está somente nas ruas, nos grandes eventos. Está também em outros espaços, principalmente, no mercado de trabalho. Não adianta nada grandes empresas de fast food dizerem que são diversas, mas nenhum gerente destas redes ser um homem gay, uma mulher lésbica ou uma pessoa trans. Um estudo da Gestão Kairós, de 2022, revela que, no Brasil, apenas 5% das pessoas LGBTs fazem parte de times de liderança nas empresas.

Além disso, segundo um estudo inédito deste ano intitulado Quanto custa a exclusão LGBTI+ no mercado de trabalho no Brasil, do Banco Mundial, juntamente com o Instituto Matizes, o Instituto Mais Diversidade e outras organizações parceiras, estima-se que mais de R$ 94,4 bilhões “vão para o ralo” quando entraves são colocados para que pessoas desta comunidade não consigam entrar no mercado de trabalho formal e prosperar. Ou seja, a comunidade LGBT+ é lucrativa e importante para movimentar o PIB brasileiro em cerca de 0,8%. Onde está o erro deste cálculo? No preconceito estrutural que ainda se esforça para manter à margem talentos queer.
Os leques estão na rua, na propaganda da Copa do Mundo de Futebol, nos grandes festivais. Mas quantas pessoas LGBTs fazem parte destas campanhas? Quantas delas estão no set de filmagem trabalhando, na organização dos grandes eventos, na linha de frente de equipes dentro das empresas, em cargos de gerência ou coordenação? Um país que retroalimenta suas mazelas tem pouquíssimas chances de se desenvolver.
E o que essas pessoas fazem quando são deixadas de lado do fluxo de renda do país? Elas mesmas vão lá e criam suas oportunidades. Um estudo do Sebrae, de 2025, mostra que 3,7 milhões de pessoas LGBTs já lideram seus próprios negócios, e cerca de 62,69% são MEIs.
Pensar em políticas públicas é fundamental, mas antes disso, existe um gap em um setor chave para mudar de fato a estrutura: a educação. Muito se foi discutido sobre educação sexual nas escolas, mas os livros de biologia ainda falam de forma muito superficial sobre sexualidade e outros temas dentro das salas de aula. Enquanto isso, a indústria pornográfica está tendo impacto direto no aumento do número de feminicídios no país.
Uma pedra, quando lançada em um lago parado, cria ondulações que ali antes não existiam. É um momento oportuno para fomentar reflexões acerca de um Brasil mais coeso e menos difuso. Hipocrisia, entraves políticos e religiosos são pilares estratégicos para levar um país à ruína.
Luiz Vieira é jornalista, observador da sociedade e pensador das contemporaneidades.

