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Três lições que as sementes crioulas podem nos ensinar sobre as crises climáticas

Sobreviventes de séculos de história, crises, enchentes, genocídios e expansão territorial, as sementes evoluem com os seres humanos desde que o mundo é mundo. Em um século marcado pela crise climática, este artigo traz reflexões ecológicas a partir da lógica da semente

Introdução

Sementes crioulas, sementes da paixão, sementes comuns, heritage ou heirloom seeds, nomes diferentes para a mesma coisa: as sementes que são cultivadas por gerações, adaptadas ao ambiente que se encontram, com grande diversidade genética. São rústicas, antigas, patrimônio da humanidade, resultado de séculos de trabalho camponês e indígena. Essas sementes só estão aqui hoje porque alguém as plantou todos os anos e as compartilhou, passou adiante. Em geral, elas são armazenadas nas casas das famílias que as cultivam ou em bancos de sementes comunitários. Além destes, também são armazenadas em bancos de germoplasma nacionais e internacionais, de maneira institucionalizada, com recurso financeiro e pesquisa científica. Antigamente, toda agricultora era guardiã de sementes. Hoje, essa figura é rarefeita e cada vez mais importante para o nosso futuro. Esse artigo discute alguns pontos importantes sobre sementes crioulas, nosso sistema alimentar e a adaptação à crise climática.

Figura 1: Variedades de milho crioulo. (Foto: Roberta Castorina)

De acordo com a IPK (Leibniz Institute of Plant Genetics and Crop Plant Research), instituição alemã que abriga um dos maiores bancos de sementes do mundo, mais de 6 mil espécies vegetais eram cultivadas como comida pela espécie humana. Hoje, cerca de 200 espécies são consideradas relevantes para nossa alimentação, e somente 9 delas respondem por mais da metade das lavouras do mundo. São elas a cana de açúcar, milho, arroz, trigo, batata, feijão, dendê, batata doce e mandioca. Essa configuração onde poucos tipos de alimentos dominam o sistema alimentar do mundo inteiro se torna possível a partir da dinâmica dos impérios alimentares. Apesar das promessas inovadoras da globalização de conectar mundos e culturas, nunca na história da humanidade fomos tão homogêneos e nossas lavouras tão parecidas. Nossos pratos refletem cada vez menos nossas ricas biodiversidades locais. Os impérios alimentares são formados por poucas empresas, donas de muitas outras empresas que dominam o setor, fazem pressão para neutralizar as culturas alimentares locais e padronizam a alimentação no mundo.  Esse fenômeno faz as grandes corporações expandirem o monocultivo para cima dos ecossistemas locais e disponibiliza para a população uma alimentação muito restrita em diversidade. Mesmo em regiões imensamente biodiversas como o Brasil, a população em geral se sustenta com poucos tipos de alimentos. Existem centenas de variedades de milho, feijão e arroz, mas hoje nosso sistema alimentar está baseado em poucas variedades de cada uma delas. Quantas variedades de milho, mandioca e abóbora estão disponíveis para o brasileiro cotidianamente?

Nos Estados Unidos, estudos indicam que já foi perdido 90% das variedades crioulas. Foram perdidas, por exemplo, mais de 6 mil variedades de maçã de 1800 para cá. E não porque não eram bons cultivares, mas porque suas produções foram descontinuadas por motivos socioeconômicos. Ora porque as famílias agricultoras que as cultivavam foram para a cidade, ora porque passaram a produzir pelo pacote tecnológico da Revolução Verde, preferindo sementes híbridas e transgênicas, ou porque perderam os cultivares em alguma intempérie e já não havia nenhum outro guardião de semente com a variedade para recuperá-la, e assim, ela é perdida para sempre. No caso, milhares delas (RAFI, 83). São por cenários dramáticos como esse que a história de Tom Brown ficou tão famosa, o guardião de sementes que preserva mais de mil variedades de maçã.

Nas Filipinas foram perdidas milhares de variedades de arroz. Na China, no último meio século, as sementes crioulas de trigo caíram de 1300 variedades para 500. De milho, 9 mil variedades foram perdidas[1]. Na Colômbia, das 800 variedades de batata registradas, apenas 7 são a base da produção[2]. Nos Estados Unidos, o estudo da Rural Advancement Foundation International (RAFI) de 1983 compara catálogos de sementes comerciais. Em 1903, eram 497 variedades de alface. Oitenta anos depois, eram 36 (Figura 2). Quantas histórias, cores, texturas, nutrientes e sabores perdemos quando o número de variedades cai de algumas centenas para dezenas? É esse o cenário apocalíptico, e bastante invisível quando moramos em grandes centros urbanos, que nos encontramos atualmente. Para onde foram todos esses cultivares?

Figura 2: Erosão das variedades dos cultivares nos EUA. (Fonte: RAFI, 1893)

De acordo com o Terceiro Relatório da Food and Agriculture Organization (FAO) sobre a biodiversidade para alimentação e agricultura lançado em 2025, o número de iniciativas e programas que conservam variedades crioulas “on-farm” (vivas, no campo), aumentou, e são hoje cerca de 1.100 iniciativas rastreadas pela FAO em 81 países. Além disso, tem-se registro de cerca de 850 bancos de germoplasma nacionais e 13 bancos internacionais. O Svalbard Global Seed Vault, na Noruega, foi criado para ser uma reserva de segurança dos demais bancos nacionais e é conhecido como o “banco de sementes do fim do mundo”. O Brasil já enviou suas coleções nacionais, e recentemente, um grupo de agricultores de Ibarama, no Rio Grande do Sul, fez a primeira remessa de sementes oriunda de uma associação de guardiões.

Até 2022, 41% da coleção armazenada “ex situ” (em bancos de semente) já havia sido duplicada e enviada à Svalbard. Essa porcentagem corresponde apenas às coleções de sementes “ortodoxas”, aquelas que suportam serem secas até um grau mínimo de umidade para conservar sua viabilidade, como os grãos de feijão. Por sua vez, as sementes “recalcitrantes” não podem ser secas e armazenadas por longos períodos pois perdem sua viabilidade, assim como espécies que se propagam por tecido vegetal como ramas de batata, mandioca e bananeira. Para essas espécies, sua forma de preservação é estarem vivas no campo a partir de matrizes, plantas “mães” que produzem boas ramas, boas mudas. Esse é um dos motivos pelo qual apenas armazenar sementes não garante que elas estejam aqui no futuro, elas precisam estar vivas em seus ambientes locais.

Estas iniciativas citadas pelo Terceiro Relatório da FAO caracterizam espécies vegetais, sementes, seus modos de utilização, manutenção e conhecimento tradicional associado. Em geral, a figura dos guardiões de sementes, os territórios dos povos tradicionais e os bancos de sementes comunitários são a principal forma de conservação da biodiversidade local. Comunidades de agricultores e povos originários são os mais envolvidos neste tipo de atividade. Ainda muitas coleções não têm armazenamento duplicado e se encontram apenas nos seus bancos de sementes originais, o que deixa as variedades vulneráveis, e também as pessoas e culturas que dependem delas.

Desastres ambientais estão cada vez mais comuns no Brasil e no mundo, consequência direta das mudanças climáticas, o que tem aumentado a demanda por pacotes emergenciais de sementes em lugares recentemente afetados. Foi o caso da enchente no Rio Grande do Sul, em 2024, com mais de 120 municípios em estado de emergência, e que teve suas lavouras levadas pela água. A iniciativa Sementes da Solidariedade, ação emergencial direcionada a camponeses depois do desastre, destinou mais de 80 mil quilogramas de sementes para comunidades de agricultores, quilombolas e povos indígenas. A ação foi articulada pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e mais de 20 organizações e movimentos sociais aliados, auxiliando mais de 5 mil famílias a reconstruírem seus roçados. Foram distribuídos kits com sementes, árvores nativas, frutíferas e ramas de batata e mandioca.

Três lições das sementes para a crise climática

  1. Multiplicar, para além de conservar. Embora os bancos de armazenamento sejam de extrema importância para conservar as coleções, as variedades precisam estar vivas em campo para que possam adaptar-se continuamente às condições presentes. A variedade genética das sementes é importante demais para ficarem restritas aos grandes bancos de armazenamento institucionais. Elas precisam estar rodando entre os povos, entre aqueles que as cultivam e tem suas vidas enraizadas nelas. Por isso a importância de preservar na prática, a partir do uso, da multiplicação das variedades, de produzir mais do que se recebeu. Dessa maneira, pegamos esse cenário dramático onde nos restam poucas variedades comparado há um século, e podemos, da forma possível, correr atrás do prejuízo.

Existem diversas maneiras de incentivar o uso de sementes crioulas, como programas de acesso e distribuição, incentivo à pesquisa, institucionalizar feiras e políticas ligadas à agroecologia, mas ressalto que a diversidade, no fim, precisa mesmo é voltar ao prato das pessoas. Essas sementes precisam voltar às feiras e aos mercados para estarem disponíveis para maior grupo de consumidores: nas cidades. No México, tortillerias tradicionais compram milhos coloridos de agricultores vizinhos para fazerem as seculares tortillas coloridas. Milho roxo dá tortilla roxa, milho esmeralda dá tortilla esmeralda. É o comércio popular e local incentivando o plantio de milhos crioulos, nativos do território. É bebendo de experiências vizinhas que podemos vislumbrar um caminho, um futuro possível também para nós, não porque precisamos inventar a roda, mas porque precisamos resgatar algo que sempre existiu, sempre esteve por aqui, mas desapareceu nos últimos cem anos.

 

  1. Dar para receber. A lógica da semente é a lógica da abundância. Uma semente de milho pode produzir uma espiga, que produzirá centenas de novas sementes. É de pouco em pouco que se pega sementes com vizinhos ou nas feiras de sementes feitas pelas comunidades tradicionais. Depois de receber um pouco de sementes e multiplicá-las até conseguir um número considerável, adaptá-las, sabe-se que é necessário compartilhar essas sementes com os vizinhos, voltar às feiras, presentear um parente ou uma visita, porque é assim que se garante a semente no futuro. Isso porque, se acontece alguma coisa com a sua coleção, com seu armário, com sua lavoura, ou mesmo com o banco de germoplasma nacional, dependemos dos outros nesse momento. Aquela semente que foi compartilhada lá atrás pode agora, retornar, e assim a trama de guardiões de sementes se fortalece novamente. Não foi com poucos guardiões que essas sementes chegaram vivas até aqui hoje, e sim com o trabalho de milhares de pessoas e comunidades tradicionais por algumas centenas de anos, dando continuidade a cada estação.
Figura 3: Variedades de milho pipoca. (Foto: Roberta Castorina)
  1. Variedade genética é leque de resposta. É um recurso para lidar com a infinidade de possibilidades que a vida pode nos proporcionar, inclusive e, principalmente, com as crises. As sementes crioulas têm genes mais rústicos e variáveis, sobreviveram a mais histórias, mais crises, enchentes e secas. As sementes que existem hoje no nosso continente são sobreviventes históricas de séculos de genocídio e de apagamento das culturas tradicionais americanas. Além de sobreviverem a todo tipo de ataque sociocultural, ainda passaram por muitas, friso, muitas intempéries.  É com esse leque genético de quem já passou por muita coisa que elas têm essa capacidade tão boa de adaptação e rusticidade. Além de terem variedades especificamente adaptadas à algumas condições, como algum milho mais resistente à seca e uma abóbora mais resistente a pegar o tempo no campo.

É necessário lembrar a história da grande fome na Irlanda. Devido a falta de variedade genética das batatas que se cultivava, e a batata era o cerne alimentar daquela população, um fungo dizimou as colheitas. Esse fungo também estava presente nas Américas, mas não foi tão devastador como na Europa, devido a grande variabilidade das batatas, nativa do nosso continente. Essa crise na Irlanda ocasionou a emigração em massa e milhares de mortos, ligados especificamente ao modo que se arranjava o sistema alimentar. Quando se tem muitas variedades, uma delas pode se manifestar mais adaptada à uma condição específica. Por isso, variabilidade genética é recurso para adaptação ao ambiente e suas oscilações.

Conclusão

As sementes crioulas carregam uma tradição de resistência. Estão conosco desde tempos imemoráveis. Guardam os genes bons para a seca, os genes bons para as enxurradas, para vários tipos de fungos. São sobreviventes que podem nos lembrar da fantástica história da nossa sociobiodiversidade. E entenda, elas sobreviverão a mais este conjunto de crises não porque esta crise climática não é urgente, porque é, mas porque resistirão a mais esta tormenta. Foi assim que o milho, o feijão e a batata chegaram até aqui. Foi assim que a mandioca chegou até aqui. E a mandioca vencerá. Nenhum problema complexo e sistêmico pode ser endereçado a partir de uma resposta simples. Programas de proteção às sementes crioulas estão longe de ser a única resposta às ameaças constantes às nossas biodiversidades, mas certamente é um dos caminhos necessários e que precisa do devido encaminhamento e valorização.

 

Alícia Ganzo Galarça é cientista social (UFRGS) com especialização em Agroecologia (IFRS). Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) e é representante do INCRA na Comissão de Produção Orgânica do Rio Grande do Sul (CPOrg-RS). É Analista em Desenvolvimento e Reforma Agrária (INCRA), mãe, pesquisadora e tem uma trajetória junto de agricultores ecologistas e guardiões de sementes no Rio Grande do Sul.

 

Referências

CASTRO, M. Resistimos para subsistir: mujeres rurales diversifican el cultivo de papa para recuperar el territorio. Comestible, 2025. Disponível em: https://comestible.info/resistimos-para-subsistir-mujeres-rurales-diversifican-el-cultivo-de-papa-para-recuperar-el-territorio/. Acesso em: 24/04/2026.

CORBARI, M. RS: ‘Sementes de Solidariedade’ alcança mais de 5 mil pequenos agricultores atingidos pelas enchentes. MPA Movimento dos Pequenos Agricultores. 2024. Disponível em: https://mpabrasil.org.br/noticias/rs-sementes-de-solidariedade-alcanca-mais-de-5-mil-pequenos-agricultores-atingidos-pelas-enchentes/. Acesso em: 10/04/2026

Rural Advancement Foundation International. Protecting the Food Ark. Rafi. 2011. Disponível em: https://www.rafiusa.org/protecting-the-food-ark/.Acesso em: 16/04/2026

SIEBERT, C. Food Ark. National Geographic. Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/magazine/article/food-ark. Acesso em: 16/04/2026

FAO. 2019. The State of the World’s Biodiversity for Food and Agriculture, J. Bélanger & D. Pilling (eds.). FAO Commission on Genetic Resources for Food and Agriculture Assessments. Rome. 572 pp.

FAO. 2025. The Third Report on The State of the World’s Plant Genetic Resources for Food and Agriculture. FAO Commission on Genetic Resources for Food and Agriculture Assessments, 2025. Rome. https://doi.org/10.4060/cd4711en

XU, S; CAO, C. Historical transitions of seed breeding in China: From socialist cooperation to joint research. Journal of Rural Studies, Volume 115, April 2025.

 

[1] XU, S; CAO, C. Historical transitions of seed breeding in China: From socialist cooperation to joint research. Journal of Rural Studies, Volume 115, April 2025.

 

[2] CASTRO, M. Resistimos para subsistir: mujeres rurales diversifican el cultivo de papa para recuperar el territorio. Comestible, 2025. Disponível em: https://comestible.info/resistimos-para-subsistir-mujeres-rurales-diversifican-el-cultivo-de-papa-para-recuperar-el-territorio/. Acesso em: 24/04/2026.

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