COLÔMBIA

A memória nas urnas: para onde vai o voto da revolta?

Para onde vai o voto do Estallido?

É natural que a cada ciclo eleitoral os países passem por mudanças. No caso colombiano, neste intervalo, o país se transformou por completo. Existe uma Colômbia antes e depois do Estallido Social de 2021, um dos processos de mobilização popular mais importantes da história recente da América Latina. Neste mês de maio, completam-se cinco anos das greves gerais que tomaram o país – do Caribe à Amazônia e ao Eje Cafetero – e é também no último dia deste mês que os colombianos retornam às urnas para traduzir em voto as expectativas que seguem abertas.

As mobilizações surgiram como reação a uma proposta de reforma tributária, mas rapidamente se expandiram a ponto de escancarar o esgotamento político, econômico e social que a Colômbia carrega há décadas. As forças policiais do então presidente, Iván Duque, responderam com a violência brutal que permeia a história do país contra as juventudes populares que assumiram a linha de frente dos protestos. O saldo foi de ao menos 80 mortos.

As eleições seguintes, realizadas exatamente um ano após as grandes greves gerais, levaram ao poder pela primeira vez na história um partido de esquerda. A esquerda colombiana sempre operou nas bordas, entre a clandestinidade, a relação com os movimentos guerrilheiros e o peso de um pacto de elites que a manteve sistematicamente afastada do poder. Esse bloqueio foi rompido por Gustavo Petro, num governo de tropeços e sinalizações preocupantes para a democracia, mas também de avanços significativos nas principais demandas levadas às ruas: a gratuidade da educação, o aumento do salário mínimo e uma política de reforma agrária.

Crédito: Pixabay via Picryl.com

Ainda assim, a distância entre as expectativas despertadas e os resultados concretos do governo se mostrou significativa. E então surge a pergunta: para onde vai o voto do Estallido?

A fórmula de Iván Cepeda lidera as pesquisas, e parece persistir na sociedade colombiana uma aposta de que a esquerda e o Pacto Histórico ainda podem responder às promessas feitas no momento de ruptura. Mas há também uma juventude que não recebeu o que esperava. Entre despolitizados e apáticos, há aqueles para quem nestas eleições, tanto faz ir votar ou não.

Segundo os dados das pesquisas de intenção de votos analisados pelo meio digital La Silla Vacía, 40% dos eleitores indecisos têm entre 18 e 34 anos, e desse grupo, 65% são mulheres jovens. Os homens jovens, por sua vez, parecem ter se aproximado do discurso red pill do candidato Abelardo De la Espriella, que pode avançar para o segundo turno.

Este não é um fenômeno inédito entre a Cordilheira dos Andes: no Chile, a decepção com as respostas não atendidas dos protestos massivos, direcionada à esquerda que assumiu o poder imediatamente após a crise, abriu espaço para uma direita que tratou de enterrar a memória democrática das manifestações.

O desafio colombiano é que a força viva de ocupar a democracia e redefinir o jogo de poder do país não se perca no caminho. Algo grandioso aconteceu naquele maio de 2021. As eleições deste domingo são o teste de quanto isso ainda pulsa.

Helena Chagas Salvador é Jornalista, cientista política e mestranda do Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo.

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