Trabalho, vida e o fim da escala 6×1
Enquanto seguirmos ignorando a dimensão prática da vida das pessoas – muitas vezes relegada ao campo das sutilezas – para elaborar relativizações rebuscadas de um verniz científico, seguiremos sem compreender muitas outras questões que dizem respeito ao trabalho e as estratégias econômicas que as pessoas buscam colocar em prática nos tempos atuais
Conheci Reinaldo[1] em meados de 2022, quando eu havia começado a realizar a pesquisa etnográfica que daria origem à minha tese de doutorado em sociologia, defendida em julho de 2025, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ele me foi apresentado por Carla, sua irmã e uma de minhas principais interlocutoras da pesquisa. Ela, junto do seu marido, Jean, e com a ajuda de Alice, a filha adolescente do casal, haviam, há pouco menos de um ano, criado um pequeno negócio numa praça de uma das comunidades do Conjunto de Favelas da Maré: um churrasquinho, cujo desenvolvimento passei então a acompanhar rotineiramente.
Além de cliente contumaz do empreendimento da irmã e do cunhado, Reinaldo trabalhava como garçom em uma churrascaria na região metropolitana do Rio, assim como o próprio Jean, quando o conheci. Desde que migraram do interior do Ceará para o Rio de Janeiro, no início de suas vidas adultas, essa havia sido a ocupação principal de ambos. Reinaldo, com anos de experiência no cargo e já há algum tempo naquela mesma churrascaria, trabalhava com carteira assinada e, por isso, desfrutava de alguma estabilidade, sobretudo em relação a seus colegas mais novos na posição. Estes acabavam atuando em um cenário bastante incerto, pois só recebiam quando eram convocados para trabalhar, geralmente de forma repentina e somente em dias e períodos com maior movimento.
Apesar de ter conseguido cultivar uma boa amizade com Reinaldo com o passar do tempo, não era sempre que podíamos desfrutar de sua presença no churrasquinho, ou então nos esporádicos momentos de lazer que Jean e Carla organizavam junto a amigos, parentes e vizinhos: geralmente um domingo, agendado com alguma antecedência, em que se organizavam para uma ida a um sítio em alguma cidade próxima, e lá desfrutar de uma tarde regada a churrasco, bebidas, banhos de cachoeira ou de piscina, além das empolgadas conversas e risadas, que pareciam reestabelecer as energias de sucessivas semanas cansativas de trabalho.

Com direito a apenas uma folga durante a semana, e diante da impossibilidade prática de negociar com seu patrão para que esse dia caísse num domingo – dia de grande movimento nas churrascarias – Reinaldo só conseguia estar presente em momentos como esse em uma rara coincidência com seu período de férias ou quando insistia muito diante de sua chefia, o que era sempre um risco a essa pretensa estabilidade laboral. Sua mulher, Maria Antônia, apesar de trabalhar como diarista durante a semana e ter os finais de semana mais flexíveis, preferia se fazer presente em eventos como aqueles somente na companhia do marido, de modo que também se privava daquele convívio. Ela sentia falta de estar junto de seus amigos e parentes, mas não achava correto sair sem Reinaldo, então aproveitava para dedicar mais tempo a seu pequeno negócio caseiro, de venda de roupas femininas e revenda de produtos cosméticos. A filha do casal, Letícia, era a única que acabava por ir aos eventos, aos cuidados de seus tios e na companhia de sua prima e amiga Alice.
Alguns meses depois que passei a acompanhar o andamento do churrasquinho, Jean conseguiu uma tão aguardada demissão da churrascaria que atuava quando o conheci: dividindo-se entre esse emprego formal e o empreendimento criado com sua esposa, o cansaço físico e mental se acumulavam, na mesma medida em que as vendas do empreendimento indicavam um êxito inicial significativo. Queixando-se de dores na coluna por carregar quilos e mais quilos de carne nos ombros entre os ambientes internos da churrascaria, e transitando entre câmaras congelantes e churrasqueiras ardentes em questão de segundos, Jean se via fatigado e descontente com aquele arranjo profissional. E o desgaste com seu patrão diante do descumprimento de combinados sobre folgas, horas extras e repasse de gorjetas adicionava ainda mais peso a esse delicado cenário. Como não podia pedir demissão e, com isso, abrir mão da verba rescisória a que teria direito, foram necessários alguns meses de paciência e inclusive de afastamento médico por uma séria lesão na lombar, que provocou até a interrupção do churrasquinho, para que sua chefia se conformasse em demiti-lo. Com isso, Jean passou a empregar ainda mais horas no desenvolvimento do empreendimento familiar, de tal modo que o tempo gasto no trabalho por conta própria começou a igualar ou até superar aquele empreendido na rotina anterior. Mas agora Jean se mostrava mais disposto e confiante, e começou a poder organizar mais idas ao sítio com os costumeiros convidados.
Reinaldo, que havia seguido com o emprego na churrascaria, teve de continuar resignado com tais ausências. Como o cunhado, ele também apresentou problemas de saúde, indo parar no hospital após um dia em que esteve prestes a desmaiar diante do choque térmico provocado pela variação repentina de temperatura a que estava submetido. Havia dias da semana que sua jornada se estendia até as 22hrs, com a missão de “fechar” a churrascaria. Dizia-se cansado e narrava as injustiças cometidas por seus patrões, muitas bastante similares às narradas por Jean, mas evitava o conflito direto, com receio de perder o emprego ou de acabar sendo ainda mais explorado nas escalas semanais de trabalho e funções desempenhadas no dia a dia do estabelecimento.
Nesse sufocante cenário, o dia da folga tomava proporções gigantescas. Assim que ficava sabendo de sua escala das próximas semanas, Reinaldo planejava os afazeres mais burocráticos da vida para o dia de seu suposto descanso, mas também não deixava de avisar os amigos: mandava-me mensagem, convidando-me a ir ao churrasquinho ou a algum bar próximo, na hora que eu quisesse, afinal “tal dia é minha folga!”. Carla também era inteirada da informação sobre a rotina do irmão com alguma antecedência, e assim as duas famílias tentavam encaixar alguma programação para poderem desfrutar juntas daquele raro tempo livre. Se calhasse de ocorrer uma tão sonhada folga num dia de final de semana, certamente algum programa diferente ocorreria: uma ida ao sítio – se o clima ou os recursos financeiros assim permitissem – ou então uma refeição em algum restaurante próximo às suas casas, cujas idas eram reservadas justamente para ocasiões especiais. Por isso, a celebração de um aniversário, por exemplo, precisava ser informada com bastante antecedência, para que Reinaldo pudesse tentar negociar com sua chefia o direito de escolher seu dia de descanso, ou então barganhar com algum de seus colegas uma forma de dispensa, que seria depois compensada. Maria Antônia também buscava formatar sua rotina semanal a partir da folga do marido: procurava conciliar com os patrões das casas que limpava, para compensar suas idas em outros dias, ou mesmo deixava de pegar algum serviço, se fosse o caso.
Penso e escrevo sobre Reinaldo na semana em que a Proposta de Emenda Constitucional que acaba com a chamada “Escala 6×1” caminha para ser, enfim, aprovada. Leio, e rememoro nos meses recentes, uma infinidade de matérias e colunas que buscaram mensurar dados estatísticos e pormenores numéricos – e por isso revestidos de uma certa primazia lógica – para procurar decretar se “A Economia” vai ou não “sofrer” com tal medida, ou, numa chave mais otimista, se “Ela” será compensada por outros fatores, etc.
Evidente que sei a lógica por trás de muitos desses argumentos, e reconheço o seu valor no debate público. Mas não consigo deixar de sentir certo mal-estar ao ler tudo isso e pensar na vida cotidiana de Reinaldo e seu trabalho na churrascaria. Fico convencido de que, enquanto seguirmos ignorando essa dimensão prática da vida das pessoas – muitas vezes relegada ao campo das sutilezas – para elaborar relativizações rebuscadas de um verniz científico, como “veja só, o brasileiro trabalha poucas horas em relação à média” ou “isso é inviável, olhem os dados”, seguiremos sem compreender muitas outras questões que dizem respeito ao trabalho e as estratégias econômicas que as pessoas buscam colocar em prática nos tempos atuais.
Afinal, é quando olho para os casos de Jean e de Reinaldo que consigo formular melhores explicações para questões que são, hoje, muito levantadas no debate público: “Por que as pessoas não estão aceitando os empregos formais que o país tem criado?” ou “Nossa, mas como é possível que tantos prefiram trabalhar de forma incessante numa coisa incerta, como um negócio próprio, ao invés de algo ‘garantido’, como uma carteira assinada?”
Indo para além de uma questão salarial, talvez, se Reinaldo tivesse mais tempo para se dedicar à sua família e à vida em comunidade, e se reunisse melhores garantias de condições de trabalho, sem depender tanto de negociações desiguais e temerosas com seus patrões, ocupações como a dele seriam mais procuradas pelas pessoas. Talvez, assim, o trabalho por conta própria deixaria de ser a única saída mais próxima de garantir maior autonomia na gestão de seu tempo e na busca por uma vida mais digna.
Em alguns meses, poderemos começar a tatear essas respostas: o dia da folga de Reinaldo deixará de sê-lo no singular, e, com isso, também não será mais o período de uma insana (e inviável) correria para resolver as tantas obrigações da vida e ainda passar mais tempo com sua família e com os amigos. Assim, quem sabe, as celebradas idas ao sítio passarão a contar mais com a sua animada presença.
Brauner Cruz é sociólogo, atualmente realizando seu pós-doutorado em sociologia, na UFSCAR. Integra os grupos de pesquisa: CASA (IESP-Uerj), NUCEC (UFRJ) e NETEP (UFSCar).
[1] Para preservar o anonimato, os nomes utilizados neste texto não correspondem aos nomes reais de meus interlocutores.

