A HISTÓRIA DA IGREJA BATISTA DO PINHEIRO

Quando uma comunidade escolhe ser porta aberta

A trajetória da Igreja Batista do Pinheiro (Maceió-AL), excluída da Convenção Batista Brasileira em 2016, ganha novo capítulo com o nascimento de Martina, filha de duas mulheres acolhidas pela comunidade, e mostra que a fé pode abrir caminhos para que famílias floresçam com dignidade, cuidado e pertencimento

No Evangelho de João, Jesus diz: “Eu sou a porta das ovelhas”. A imagem pode parecer simples, mas carrega uma tensão profunda. Na tradição religiosa do templo, muitas ovelhas entravam para não mais sair: eram levadas ao sacrifício. Quando Jesus se apresenta como porta, ele desloca essa lógica. A porta não existe para aprisionar, controlar ou conduzir à morte. Existe para permitir entrada e saída, passagem, proteção e encontro com pastagens.

Ser porta, portanto, não é apenas acolher quem chega. É assumir o risco de não transformar a fé em cerco. É sustentar uma comunidade onde as pessoas possam respirar, permanecer, partir, voltar, discernir caminhos e viver sem que seus corpos, afetos e histórias sejam oferecidos em sacrifício diante de sistemas religiosos que confundem cuidado com controle.

Desde 2016, a Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, compreende esse chamado como parte de sua prática pastoral. Naquele ano, depois de um longo processo comunitário de estudo, oração, debate e amadurecimento, a igreja tornou pública sua decisão de acolher, batizar e receber pessoas homossexuais como membros de sua comunidade de fé. A decisão resultou em sua exclusão da Convenção Batista Brasileira. Para muitos, o gesto apareceu como escândalo. Para a comunidade, foi consequência de uma caminhada espiritual, bíblica e democrática que já vinha sendo construída havia anos. Mas talvez só agora, quase uma década depois, seja possível enxergar alguns dos frutos mais bonitos dessa escolha.

Em maio, nasceu Martina, filha de Tuane e Érica, casal de mulheres cuja história se entrelaça profundamente com a trajetória da Igreja Batista do Pinheiro. Em 2021, as duas se casaram em uma cerimônia celebrada pela Igreja, dentro de uma comunidade que já havia decidido não tratar seus afetos como ameaça ou divergência à fé. A imagem daquele altar, uma mulher pastora diante de duas mulheres que se uniam em casamento, circulou pelo país, provocou admiração, ataques, leituras apressadas e reações violentas.

Foto: Arquivo pessoal

Houve ameaça, exposição e medo. Houve também uma comunidade que se colocou como escudo. Mas a história não terminou naquela imagem.

Ela continuou no cotidiano silencioso e persistente de uma igreja que acompanhou o desejo de maternidade de duas mulheres, orou com elas, celebrou a gravidez, organizou bênçãos, participou do chá de bebê e preparou suas crianças para receber Martina ao lado de outros bebês que também chegavam à comunidade. O que em 2021 foi visto por muitos como provocação, hoje se revela como uma experiência de família, cuidado e vida comunitária.

Esse deslocamento importa. Porque, muitas vezes, as histórias de comunidades religiosas que rompem com estruturas de exclusão são contadas apenas pela chave da ruptura, da polêmica ou da violência. A Igreja Batista do Pinheiro também conhece essas dimensões. Foi atacada, julgada, expulsa e ameaçada. Contudo, sua história não pode ser reduzida ao sofrimento que enfrentou. Há nela uma beleza concreta que precisa ser nomeada: uma comunidade cristã, majoritariamente formada por famílias heterossexuais, aprendeu a reconhecer uma família composta por duas mulheres e uma criança não como concessão, mas como parte da vida que brota quando a fé decide não sacrificar.

Esse é o ponto fundamental. A Igreja Batista do Pinheiro não nasceu como uma igreja LGBTQIAPN+. Não se trata de uma comunidade formada apenas por pessoas iguais entre si ou por quem já chegou pronto a uma mesma compreensão. Sua experiência é mais complexa e, por isso mesmo, mais reveladora. Ela mostra que comunidades de fé podem mudar. Podem estudar, discordar, amadurecer, votar, cuidar de quem chega antes e de quem chega depois, sem abandonar ninguém no caminho. Podem atravessar conflitos internos sem transformar a diferença em expulsão.

Em tempos nos quais a religião é frequentemente mobilizada para produzir medo, exclusão e controle sobre corpos e famílias, essa experiência nos obriga a fazer uma distinção importante. O problema não é a fé. O problema é um sistema religioso patriarcal, misógino e LGBTfóbico que se apresenta como se fosse a totalidade da religião. Um sistema que fala em nome de Deus, mas muitas vezes opera como o ladrão da parábola, presente no evangelho de João: mata, rouba e destrói possibilidades de vida, pertencimento e dignidade.

Esse sistema religioso se alimenta da ideia de que algumas existências precisam ser corrigidas, silenciadas ou sacrificadas para que a comunidade permaneça pura. Sob essa lógica, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, crianças, famílias dissidentes e corpos que escapam à norma são tratados como risco. A fé deixa de ser linguagem de cuidado e passa a funcionar como dispositivo de vigilância. No entanto, essa não é a única forma de viver a religião.

Há comunidades que leem a Bíblia não para fechar portas, mas para abri-las. Há experiências pastorais que entendem que proteger a vida não é preservar uma moldura abstrata de família, mas sustentar concretamente as condições para que pessoas possam amar, cuidar, gestar, criar filhos, envelhecer, conviver e existir com dignidade. Há igrejas que descobrem, no próprio caminho de fé, que incluir não basta. É preciso celebrar.

Essa passagem da inclusão à celebração talvez seja uma das dimensões mais potentes da experiência da Igreja Batista do Pinheiro. Em um primeiro momento, comunidades que rompem com práticas de exclusão costumam dizer: “essas pessoas também podem estar aqui”. É um passo importante. Mas ainda carrega a marca de quem concede lugar a alguém que parecia estar fora. Celebrar é diferente. Celebrar é reconhecer que aquela presença transforma a comunidade para melhor. É admitir que a diferença não empobrece a fé; amplia sua capacidade de produzir vida.

Martina chegou a uma comunidade que já havia feito esse percurso. Antes mesmo de nascer, sua vida foi celebrada por mulheres evangélicas que oraram pelo desejo de maternidade de Tuane e Érica. Quando a gravidez aconteceu, foi à comunidade que as duas recorreram para agradecer. As crianças da igreja também participaram dessa espera. Em sua escola bíblica, colocaram Martina junto aos outros bebês que chegavam, aprendendo, com simplicidade, que família não precisa caber em uma única forma para ser reconhecida como lugar de amor.

Há algo profundamente pedagógico nessa cena. Crianças aprendendo a ver família não pela falta, pela ameaça ou pela exceção, mas pela presença, pelo cuidado e pela alegria. Mulheres crentes abençoando a gestação de duas mulheres. Uma comunidade acolhendo uma criança não apesar de sua família, mas com sua família. A teologia, aqui, não aparece como abstração. Ela se torna gesto, corpo, oração, alimento, festa, escuta e pertencimento.

Por isso, a história de Martina não é apenas uma história privada. Tampouco deve ser capturada como curiosidade pública. Ela é sinal de algo maior: quando uma comunidade de fé decide ser porta, outras possibilidades de vida se tornam imagináveis.

A imagem tem força política. Em 2021, a fotografia do casamento de Tuane e Érica perturbou o imaginário conservador e fundamentalista porque rompia, em um único enquadramento, várias hierarquias: uma mulher ocupava o altar como pastora; duas mulheres afirmavam publicamente seu amor; uma igreja batista celebrava uma união homoafetiva. Aquela imagem desorganizou uma moldura religiosa construída sobre autoridade masculina, heteronormatividade e controle dos corpos.

Agora, a chegada de Martina produz outra imagem. Não mais apenas a do altar tensionado pela cerimônia, mas a de uma família acompanhada por sua comunidade. Uma família feliz, cuidada, esperada, abençoada. Uma família que não destrói a ideia de família, mas a amplia, fortalece, renova e pluraliza.

É preciso insistir nisso porque uma das estratégias mais recorrentes dos discursos religiosos conservadores é afirmar que o reconhecimento da diversidade ameaça a família. A experiência da Igreja Batista do Pinheiro mostra o contrário. A ameaça à família não vem da existência de duas mães, de uma pastora mulher ou de uma comunidade que celebra a diferença. A ameaça vem do abandono, da violência, da solidão, da expulsão, da vergonha, do medo, da recusa em reconhecer vínculos reais de cuidado.

Famílias são ameaçadas quando pessoas são obrigadas a escolher entre sua fé e sua dignidade. Quando jovens LGBTQIAPN+ acreditam que Deus os rejeita. Quando mulheres são ensinadas a suportar violências em silêncio. Quando comunidades preferem preservar reputações a proteger vidas. Quando a religião se torna mais comprometida com a manutenção da ordem do que com a libertação de quem sofre.

A história da Igreja Batista do Pinheiro também fala, portanto, sobre democracia. Não apenas a democracia das instituições políticas, mas a democracia difícil e cotidiana das comunidades. A decisão de 2016 não nasceu de um gesto individual de uma liderança isolada. Ela foi construída em assembleia, em processos internos, em estudo bíblico-teológico, em escuta e em disputa. Pastores e pastoras podem chegar antes a determinadas convicções, mas uma comunidade só se transforma quando encontra formas de caminhar coletivamente, sem abandonar aqueles que precisam de mais tempo para compreender.

Em um país marcado pela captura religiosa de debates públicos, por instrumentalizações eleitorais da fé e pela fabricação permanente de inimigos morais, essa experiência é especialmente relevante. Ela mostra que religião não precisa ser sinônimo de fechamento autoritário. Pode ser espaço de elaboração coletiva, de conflito honesto, de mudança e de responsabilidade.

Ser porta, nesse sentido, tem custo. Portas abertas incomodam quem lucra com muros. Comunidades que se recusam a sacrificar pessoas desafiam sistemas inteiros organizados para decidir quem pode pertencer. A Igreja Batista do Pinheiro pagou e segue pagando esse preço. Mas também descobriu que a fidelidade ao Evangelho pode produzir frutos que nenhuma exclusão institucional consegue apagar.

Talvez seja essa a imagem que precisamos sustentar neste tempo: uma comunidade à margem, em Maceió, insistindo em permanecer viva, cambaleante às vezes, ferida muitas vezes, mas ainda capaz de celebrar. Uma comunidade que não nega a dor, mas se recusa a fazer da dor sua única narrativa. Uma comunidade que escolhe contar histórias bonitas não para suavizar a violência, mas para mostrar que a violência não venceu.

Martina nasceu dentro dessa história. E sua chegada nos permite olhar novamente para 2016 e 2021 não apenas como episódios de conflito, mas como partes de uma travessia. O que parecia escândalo era, talvez, uma porta sendo aberta. O que foi tratado como ameaça era, na verdade, a possibilidade de uma família florescer. O que muitos quiseram transformar em sacrifício tornou-se pastagem.

Quando uma comunidade escolhe ser porta, ela não controla todos os caminhos que se abrirão depois. Apenas decide que a fé não será usada para impedir a vida de passar.

E, às vezes, do outro lado dessa porta, nasce uma criança.

 

Andréa Laís é assessora de Campanhas da Casa Galileia e doutora em Ciências Sociais e pesquisadora da religião.

Odja Barros é pastora da Igreja Batista do Pinheiro (Maceió/AL) e doutora em teologia, biblista e psicanalista.

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