UMA FIGURA ECONOMICAMENTE ABSURDA

O trilionário e a falência da escala humana

Se a riqueza é resultado de um processo coletivo, por que ela aparece como propriedade privada de indivíduos específicos?

Existe algo de curioso na reação pública diante do surgimento do primeiro trilionário da história. A notícia costuma ser recebida com fascínio. Jornais produzem gráficos coloridos. Influenciadores discutem estratégias de investimento. Admiradores celebram mais uma prova da genialidade empresarial contemporânea. Quase ninguém parece notar o elemento mais importante da história: um trilionário é uma figura economicamente absurda.

A palavra “absurda” não deve ser entendida como um insulto. Deve ser entendida em seu sentido literal. Trata-se de algo que rompe os parâmetros normais de compreensão. Um trilhão de dólares não é apenas muito dinheiro. É uma quantidade de riqueza que escapa à imaginação humana comum. A diferença entre um milionário e um bilionário já é gigantesca. A diferença entre um bilionário e um trilionário pertence a outra ordem de grandeza.

O problema é que os seres humanos não foram feitos para pensar nessas escalas. Nossa experiência cotidiana opera em distâncias curtas, grupos limitados e relações relativamente visíveis. Conseguimos compreender uma casa, uma empresa, uma cidade ou mesmo um país. Um trilhão de dólares não corresponde a nenhuma dessas coisas. Corresponde a uma concentração tão extrema de recursos que deixa de possuir significado intuitivo.

Talvez por isso exista tanto entusiasmo em torno dos bilionários. Eles funcionam como personagens mitológicos. Ninguém consegue realmente imaginar a vida econômica que levam. Suas fortunas são grandes demais para serem compreendidas e justamente por isso se tornam objetos de fantasia. O bilionário já ocupa uma posição quase lendária. O trilionário completa a transformação. Ele deixa de parecer um ser humano excepcional e começa a parecer um fenômeno da natureza.

Imagine alguém dizendo que encontrou uma montanha de cinco quilômetros de altura surgindo no meio de Brasília. A reação imediata seria perguntar o que aconteceu. Quais forças produziram algo tão desproporcional? Curiosamente, quando surge uma fortuna equivalente à riqueza anual de países inteiros, a reação predominante não é investigar a estrutura que a produziu. A reação é admirar o proprietário da montanha.

Essa inversão é uma das maiores vitórias ideológicas do capitalismo contemporâneo. A atenção se concentra no indivíduo. Discute-se sua inteligência, sua personalidade, seus hábitos de trabalho e suas excentricidades. Uma sociedade que tornou possível uma concentração dessa magnitude desaparece da análise. A montanha permanece. O interesse volta-se exclusivamente para o alpinista.

Marx enxergaria a situação de forma bastante diferente. A questão fundamental não seria o talento do proprietário. Seria a estrutura que permitiu a acumulação. Uma fortuna dessa escala não surge porque alguém trabalhou muito. Nenhum ser humano trabalha um trilhão de dólares. Nenhum ser humano produz individualmente um trilhão de dólares. Uma riqueza dessa magnitude representa o resultado acumulado de processos sociais envolvendo milhões de pessoas, múltiplas gerações, instituições públicas, infraestrutura coletiva e sistemas produtivos globais.

O trilionário não é uma prova da força do indivíduo. É uma prova da força das estruturas que concentram capital. Sua fortuna expressa uma quantidade extraordinária de trabalho social apropriado sob a forma de propriedade privada. Quanto maior a fortuna, menos sentido faz explicá-la por características individuais. Ninguém tenta explicar o oceano através da biografia de uma gota d’água.

Existe ainda outro aspecto revelador. O capitalismo costuma ser apresentado como um sistema baseado na competição. A imagem clássica é a de inúmeros agentes econômicos competindo entre si em condições relativamente abertas. O trilionário conta uma história diferente. Ele mostra o resultado histórico da concentração. Mostra o que acontece quando sucessivas décadas de fusões, monopólios, centralização financeira e expansão corporativa acumulam poder em um número cada vez menor de mãos.

O surgimento de um trilionário não demonstra o sucesso da concorrência. Demonstra seu desaparecimento progressivo. Ele é o monumento erguido sobre o túmulo do mercado competitivo que os ideólogos liberais tanto celebram. A livre concorrência termina produzindo estruturas que tornam a própria concorrência cada vez menos relevante. O trilionário surge no final desse percurso como uma espécie de troféu involuntário da concentração.

Diante desse cenário, a resposta mais comum costuma ser a defesa de impostos sobre grandes fortunas. A proposta possui sua suposta utilidade. Pode financiar serviços públicos, reduzir excessos patrimoniais e amenizar certas desigualdades. O problema é que ela frequentemente trata como causa aquilo que é apenas consequência.

A questão central não é a distribuição final da riqueza. A questão central é a forma pela qual a riqueza é produzida, apropriada e controlada. Um trilionário não surge porque os impostos são insuficientes. Ele surge porque enormes parcelas da capacidade produtiva da sociedade estão organizadas sob formas privadas de propriedade. Sua fortuna não representa apenas dinheiro acumulado. Representa poder econômico acumulado.

Foto: Alicia Nijdam/Flickr

Por essa razão, uma tributação mais elevada pode reduzir a dimensão da fortuna sem alterar a lógica que a produz. O trilionário pode transformar-se em um bilionário ligeiramente menos rico. O mecanismo permanece funcionando. As decisões estratégicas continuam concentradas. A propriedade continua concentrada. O controle sobre investimentos, tecnologias, infraestrutura e recursos produtivos continua concentrado.

É justamente aqui que a crítica radical se afasta da maior parte das críticas liberais à desigualdade. O centro da questão não é a redistribuição. É a socialização da riqueza produzida socialmente. Se milhões participam da produção, por que as decisões fundamentais sobre essa produção permanecem sob controle de uma minoria ínfima? Se a riqueza é resultado de um processo coletivo, por que ela aparece como propriedade privada de indivíduos específicos?

O debate distributivo pergunta como dividir o bolo. A crítica marxista pergunta quem controla a cozinha, quem escolhe os ingredientes, quem define a receita e quem decide para onde o bolo será enviado. Trata-se de uma questão de poder antes de ser uma questão de renda.

Nesse sentido, o trilionário é uma figura particularmente reveladora. Ele expõe o limite das soluções puramente distributivas. Nenhuma sociedade produz trilionários porque distribui mal a riqueza. Produz trilionários porque concentra previamente o controle da riqueza social. O problema aparece na origem do processo econômico. A desigualdade extrema surge depois, como manifestação visível de uma concentração muito mais profunda.

Talvez o aspecto mais perturbador seja a naturalidade com que tudo isso é tratado. Uma fortuna dessa magnitude deveria produzir estranhamento. Deveria ser encarada como um evento histórico extraordinário. Em vez disso, é apresentada como mais um recorde a ser batido, como se estivéssemos acompanhando uma competição esportiva. A sociedade observa uma concentração inédita de poder econômico e reage da mesma forma que reagiria ao lançamento de um novo smartphone.

É nesse ponto que a figura do trilionário se torna importante. Não porque ele seja o principal problema do mundo. Não porque seja moralmente pior que outros ricos. Sua relevância está em revelar algo que normalmente permanece oculto. Ele expõe a falência da escala humana dentro da economia contemporânea. Expõe um sistema que produz riquezas, empresas e centros de poder tão gigantescos que deixam de caber na imaginação das pessoas comuns.

O trilionário não representa apenas uma fortuna extrema. Representa uma economia que ultrapassou os limites da própria compreensão social. Quando uma sociedade passa a considerar normal a existência de patrimônios comparáveis à riqueza de nações inteiras, talvez o problema já não seja a quantidade de dinheiro concentrada. Talvez o problema seja que o senso de proporção desapareceu muito antes.

O surgimento do primeiro trilionário não revela apenas uma desigualdade extraordinária. Revela o grau de privatização alcançado pela riqueza coletiva da humanidade. O escândalo não está em alguém possuir dinheiro demais. O escândalo está em uma sociedade inteira produzir coletivamente e continuar organizando os frutos dessa produção como propriedade de poucos. Talvez seja por isso que a chegada do trilionário devesse causar menos admiração e mais perplexidade. Não porque ele venceu o jogo econômico, e sim porque sua existência revela a natureza das regras sob as quais o jogo passou a funcionar.

 

Gabriel Teles é doutor em Sociologia pela USP e professor do Instituto Federal de Goiás /IFG.

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