Violência de gênero, anonimato e discurso universitário
Uma voz sem nome, mas não sem endereçamento: atinge uma mulher determinada, sua pesquisa e sua inscrição no campo, ao mesmo tempo que se autoriza a estabelecer o que a psicanálise deve ser, como se tal definição pudesse ser feita de lugar nenhum.
O texto sem assinatura que passou a circular em grupos de WhatsApp do meio psicanalítico brasileiro, em março deste ano, tinha como alvo a dissertação de mestrado de Lívia Vigil, psicanalista e pesquisadora que atua no campo da violência de gênero e encabeçou um movimento recente de denúncias de posturas misóginas no campo psicanalítico. O texto acusava a dissertação de pretender “salvar as mulheres” e de se afastar, com isso, do que seria a psicanálise propriamente dita. Lívia tem nome, assina seu trabalho e responde por ele.
Quem a atacou, não.
Esta série de publicações já abordou o anonimato como recusa ética e retomou as cenas de violência sexual contra mulheres que atravessam a fundação da psicanálise. Soma-se agora mais um artigo a esse bloco de textos, que pode ser lido, para retomar o título dado por Tania Rivera (2026) a um de seus textos, como um dos caminhos para nomear a violência de gênero a fim de melhor tratá-la. Interessa-nos, desta vez, menos voltar ao conteúdo da acusação do que interrogar o lugar de onde ela pôde ser formulada. Trata-se de uma voz sem nome, mas não sem endereçamento: atinge uma mulher determinada, sua pesquisa e sua inscrição no campo, ao mesmo tempo que se autoriza a estabelecer o que a psicanálise deve ser, como se tal definição pudesse ser feita de lugar nenhum.
A própria psicanálise, contudo, sustenta que todo enunciado supõe uma enunciação: todo dizer implica uma posição do sujeito que diz, mesmo quando esse sujeito procura se apagar atrás do enunciado. Não nomear esse lugar não é apenas um detalhe formal, tampouco simples covardia: é uma operação epistêmica que permite exercer autoridade sem responder por seu exercício. E é também uma das formas pelas quais a violência de gênero se produz e circula nas instituições universitárias.
Há uma maneira particularmente eficaz de exercer autoridade: fazer com que ela apareça como simples efeito do saber. Em vez de dizer “esta é a posição que sustento”, afirma-se “é isto que a psicanálise diz”, como se a teoria pudesse falar por conta própria e emitir veredictos sem que fosse necessário interrogar quem a mobiliza, de que lugar o faz e que interesses preserva. O texto anônimo realiza essa operação em sua forma mais econômica: apaga o sujeito da enunciação e deixa o saber ocupar sozinho a cena. É essa estrutura do laço social que Lacan (1969-1970/1992) procura formalizar ao descrever o discurso universitário, no qual o saber comparece no lugar de agente, enquanto permanece encoberto o significante-mestre que o sustenta. O anonimato, portanto, não elimina o sujeito da enunciação; permite que ele desapareça no saber.
A dissertação atacada pelo texto anônimo realiza o movimento inverso. Antes de mobilizar qualquer conceito, explicita de onde fala: trata-se de uma pesquisadora branca, de classe média, que relata como sua experiência no Projeto Gradiva e um episódio de violência de gênero vivido durante a pesquisa atravessaram seu trabalho clínico com mulheres negras, periféricas e em situação de violência. O escrito anônimo lê esse gesto como confissão de insuficiência teórica. É justamente o contrário: trata-se da recusa de ocupar o lugar supostamente neutro a partir do qual alguém poderia falar por todas – e, sobretudo, falar sobre as outras sem se deixar interrogar pela relação que estabelece com elas.
Apresentar o saber como se ele pudesse falar por si mesmo não é apenas uma operação própria ao discurso universitário. Ela encontra uma afinidade particular com o discurso capitalista, na medida em que ambos sustentam a promessa de que a falta pode ser contornada pelo acúmulo: de bens, de títulos, de méritos, de produtividade e também de saber.
É nesse cenário que se constitui um ideal de mestria baseado no desempenho, na autonomia, no domínio e na autossuficiência. A figura do especialista condensa esse ideal: quanto mais saber acumula e mais reconhecimento obtém, menos pareceria necessário explicitar de onde fala, como se a competência adquirida pudesse dispensá-lo de interrogar a posição a partir da qual exerce sua autoridade. Esse ideal, porém, tem endereço. Neusa Santos Souza (2021) e Cida Bento (2022) mostraram que o ideal que organiza a subjetividade no Brasil é constituído pela branquitude: o branco pôde apresentar sua experiência particular como medida universal do humano e ocupar posições de autoridade sem precisar nomear sua inscrição racial. Esse ideal é também generificado, pois os atributos que o sustentam – independência, controle, potência e recusa da vulnerabilidade – foram historicamente associados à masculinidade.
A lógica do acúmulo que sustenta esse ideal, no contexto neoliberal, desloca-se para o indivíduo, que passa a responder sozinho pelo próprio valor e a demonstrá-lo continuamente por meio de índices de desempenho, visibilidade e circulação. Mesmo a produção científica é cada vez mais avaliada não apenas pelo que formula, mas pelo número de citações, acessos, compartilhamentos e repercussões que consegue produzir. A viralização deixa de ser apenas um efeito da circulação para converter-se em medida de relevância. Não é indiferente, portanto, que o texto anônimo tenha buscado legitimidade precisamente ao circular em grupo: sem se submeter ao debate público, procura fazer da própria propagação uma confirmação de sua autoridade.
O suposto não lugar da enunciação não é, portanto, vazio nem desprovido de mestre: nele se sustenta um ideal historicamente determinado, branco e masculino, intensificado pela lógica neoliberal que converte a viralização em medida de relevância e autoridade. Ao falar “pela psicanálise” sem se situar, o texto anônimo não apaga esse ideal – apaga apenas seu próprio comprometimento com ele, deixando que ele se apresente como se fosse a própria teoria enunciando uma verdade universal.
O anonimato não retira a violência da cena; reorganiza sua forma e seu modo de circulação. Rita Segato (2024) distingue a violência instrumental, orientada para a obtenção de um fim, da violência expressiva, cujo sentido principal está em restaurar e exibir uma posição de poder ameaçada. Ela opera simultaneamente em dois eixos: no eixo vertical, dirige-se àquela que é atacada, procurando rebaixar sua autoridade e recolocá-la na posição de objeto do julgamento; no eixo horizontal, dirige-se aos pares, de quem busca reconhecimento, adesão ou cumplicidade. É precisamente essa dupla operação que permite pensar a dimensão de poder inscrita na violência epistêmica. Não se trata apenas de refutar argumentos, mas de reafirmar quem pode ocupar o lugar de sujeito do saber e quem deve permanecer na posição de quem é interpretada, avaliada ou desautorizada. Quando autoras situam sua enunciação e interrogam os pressupostos

universais de uma teoria, a resposta violenta procura restaurar a assimetria: de um lado, aqueles que falam em nome do saber; de outro, aquelas cuja palavra é reduzida à parcialidade, à militância ou à insuficiência teórica.
Essa lógica de poder também compõe as instituições e seus modos de produzir legitimidade. A passagem de um texto por orientação, banca e aprovação importa porque o inscreve em um regime público de avaliação e debate, mas não esgota as razões de sua legitimidade. Há ainda outra dimensão: a maneira como o próprio trabalho explicita as condições de sua produção, assume os limites de sua perspectiva e se oferece à discussão. É nesse sentido que muitas pesquisadoras recusam um ponto de vista epistemológico universalizante e supostamente neutro: dizem de onde falam e interrogam o que sua posição lhes permite sustentar, em vez de se apoiar apenas no prestígio de orientadores, bancas ou instituições para apresentar suas conclusões como simples efeito do método.
A validação formal – orientação, banca, assinatura – segue sendo a condição mínima de um debate público: sem ela, não há a quem responder nem como contestar. Mas ela não é suficiente. Um texto pode reunir todas essas validações e, ainda assim, apresentar-se como se viesse de lugar nenhum – assim como uma banca de concurso pode anunciar um resultado em termos de títulos e pontuação, mesmo quando a decisão já estava tomada antes da avaliação começar. Em ambos os casos, os procedimentos que produzem legitimidade se oferecem como aplicação neutra de critérios, ocultando as posições, alianças e exclusões que de fato os orientam. A diferença decisiva está em reconhecer essas condições e relações de poder – o que torna o saber contestável – ou em transformar os próprios procedimentos de validação em prova de neutralidade.
É também nesse ponto que a presença sempre complexa da psicanálise na universidade pode adquirir alguma fecundidade. Em vez de se consumir na procura pela definição da verdadeira psicanálise – ou de fomentar disputas institucionais que dependem dessa pretensão para preservar lugares de autoridade –, ela pode sustentar-se como práxis capaz de interrogar os modos pelos quais o saber se transforma em agente. Em uma universidade cada vez mais submetida à racionalidade neoliberal, na qual a produção intelectual é aferida por índices de impacto, produtividade, visibilidade e circulação, a psicanálise pode contribuir não por oferecer mais um especialista ou mais um discurso autorizado, mas por perturbar a fantasia de que o saber possa vir de lugar nenhum. Seu rigor não estaria na reivindicação de uma exterioridade privilegiada, e sim na disposição de interrogar o próprio lugar de enunciação, reconhecer os efeitos de sua inserção institucional e admitir que seus conceitos têm história, limites e territórios.
A violência de gênero não é um tema exterior à teoria, mas atravessa as cenas que participaram da própria constituição do campo (Riveira, 2026). Nomeá-la não é falar pelas mulheres, substituir suas palavras ou prometer salvá-las – é impedir que a crítica abstrata à salvação sirva para devolvê-la às mulheres sob a forma de insuficiência teórica, excesso subjetivo ou militância, e para conservar intactas as posições que dependem desse silenciamento.
É também isso que está em jogo para pesquisadoras que recusam falar de lugar nenhum. Ao situar sua produção, elas não renunciam ao rigor nem tornam seus trabalhos menos discutíveis; ao contrário, expõem os pressupostos a partir dos quais constroem suas questões e aceitam que eles sejam interrogados. Um saber sem autoria não constitui uma resposta a essas pesquisadoras, mas uma recusa das condições do debate. Para que ele exista, é preciso que cada posição responda pelo que afirma e reconheça que nenhuma teoria fala de lugar nenhum.
Thais Klein é psicanalista, professora da Universidade Federal Fluminense, Professora do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e Pós-Doutoranda em Psicologia Clínica na USP.
Referências
BENTO, Maria Aparecida Silva. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
LACAN, J. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
RIVERA, Tania. Nomear a violência de gênero para melhor tratá-la. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 10 jun. 2026. Disponível em: Le Monde Diplomatique Brasil. Acesso em: 15 jun. 2026.
SEGATO, R. L. As estruturas elementares da violência: ensaios sobre gênero entre a antropologia, a psicanálise e os direitos humanos. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2024.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
VIGIL, Lívia. Sub-versões do falo: interrogantes sobre o lugar do feminino no discurso capitalista. Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2024

