A clareira, os rios e o pacto dos silêncios
Há quem pense que a violência de gênero começa quando alguém levanta a mão. Mas ela costuma começar muito antes

Há quem pense que a violência de gênero começa quando alguém levanta a mão. Mas ela costuma começar muito antes
O que significa defender a família e elevá-la ao centro do debate público quando, dentro dela, milhares de mulheres continuam sendo ameaçadas e tantas crianças permanecem vítimas de violência no espaço que deveria lhes garantir acolhimento, cuidado e proteção?
Uma voz sem nome, mas não sem endereçamento: atinge uma mulher determinada, sua pesquisa e sua inscrição no campo, ao mesmo tempo que se autoriza a estabelecer o que a psicanálise deve ser, como se tal definição pudesse ser feita de lugar nenhum.
Reler Freud a partir da crítica ao patriarcado permite reconhecer, em sua obra, a centralidade da violência na constituição da ordem falopatriarcal e abrir caminhos para repensar tanto a clínica quanto o papel da psicanálise na vida pública. Essa reflexão se torna especialmente urgente em um contexto marcado pela instrumentalização política do machismo e pelo agravamento da violência contra não-homens
Estarão as novas legislações preparadas para reconhecer, mitigar e prevenir os danos que a IA produz sobre mulheres e meninas, conforme amplamente documentado?
Vivemos sob uma engrenagem sustentada pela desigualdade estrutural entre homens e mulheres, uma engrenagem que produz, todos os anos, cerca de 1.500 assassinatos, dezenas de milhares de estupros, centenas de milhares de agressões físicas e mais de 1 milhão de pedidos de socorro
Cenário de violências sistemáticas expõe uma situação cruel: nem em casa nem na escola, meninas estão seguras, o que desmistifica a ideia geral de proteção nesses espaços. Dados revelam que os principais autores dessas violências são meninos e homens, realidade que ganha mais contornos e impulsão por meio de discursos masculinistas, que reforçam violências baseadas em gênero
O debate em torno do PL da Misoginia, das políticas educativas como o Maria da Penha Vai à Escola e da crescente presença de mulheres conservadoras na política institucional revela a disputa contemporânea pela capacidade de definir quais violências podem ser reconhecidas, quais desigualdades merecem proteção estatal e quais concepções de gênero serão legitimadas no espaço público
Colocar mulheres negras no centro da política pública não exclui ninguém. Ao contrário, reorganiza prioridades e amplia direitos
Os números, consolidados por diferentes métodos de pesquisa, evidenciam a persistência de violações sexuais enraizadas em desigualdades estruturais, apontando a urgência de medidas de proteção à infância e à adolescência
A brutalidade contra mulheres se expande como crise nacional, atravessando corpos e instituições, e expondo um país que normalizou o intolerável
A equidade de gênero, se for para ser levada a sério, exige o enfrentamento direto desses três pilares da dominação: o fundamentalismo religioso, o machismo político e a heteronormatividade compulsória