A falácia do capitalismo verde e a literatura como antídoto para o colapso
Em seus novos livros, a escritora desloca o olhar do luto ambiental individual para a urgência de enfrentar as estruturas econômicas
A realidade do colapso ambiental tem nos dessensibilizado, transformando o horror cotidiano em apatia frente ao rompimento dos limites planetários e às falsas promessas de sustentabilidade. Diante dessa estagnação, a literatura surge como um antídoto, opondo-se ao discurso técnico que muitas vezes falha em mobilizar a sociedade. Com obras recentes como o romance Foi acabar bem na nossa vez (Editora Rocco, 320 páginas) e o infantojuvenil Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas (selo Escarlate, Companhia das Letras, 216 págs), Mariana Brecht propõe a ficção como ferramenta para expor as contradições do “capitalismo verde” e resgatar a capacidade de imaginar futuros coletivos, deslocando o foco do sofrimento individual para a urgência de mudanças sistêmicas.
Mariana Brecht nasceu em São Roque (SP), território de fronteira entre a Mata Atlântica e o Cerrado, e possui uma produção que transita entre literatura, jogos, audiovisual e música. Estreou com Brazza (2020), finalista do Prêmio São Paulo de literatura, seguido por Labirinto (2021) e A Menina com os Pés no Chão (2023), obra finalista do Prêmio Jabuti em 2024. No campo dos jogos digitais, atua como roteirista e narrative designer, tendo trabalhado na experiência em realidade virtual A Linha, vencedora do Emmy, e em estúdios como Loftia, ARVORE, Afterverse e Rogue Snail. É mestre pela Université de Toulouse e mestranda na ECA-USP, onde pesquisa as relações entre estruturas narrativas e crise climática, além de integrar o projeto musical Intraterrestres.
Confira abaixo a entrevista completa com a autora
Seus dois livros mais recentes, o romance Foi acabar bem na nossa vez e o infantojuvenil Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas, partem da ficção para abordar a emergência climática. O que a literatura consegue elaborar sobre o colapso ambiental que o discurso técnico, científico ou jornalístico muitas vezes não alcança?
A realidade tem nos dessensibilizado. Nós recebemos as notícias mais trágicas dos feeds e jornais com ombros erguidos porque o horror já é cotidiano. Lembro de me dar conta disso no auge do massacre de Israel ao povo palestino. As imagens em minha timeline não eram proporcionais à tristeza que eu deveria estar sentindo. Ao mesmo tempo, eu tinha um dia de trabalho pela frente, meu cérebro precisava se blindar para dar conta. Sinto que com a crise climática adotamos a mesma dinâmica: Ouvimos que ultrapassamos o limite crítico de temperatura com relação à era pré-industrial, que a Terra já rompeu sete dos seus nove limites planetários sem que isso nos afete tanto. Além disso, muitas vezes essas notícias não ganham o espaço que mereciam nas grandes mídias.
Já nas histórias, um dos mecanismos mais importantes é a suspensão da descrença, ou seja, a entrega àquilo que está sendo narrado, a quebra dessas barreiras. Por isso, quem se deixa levar por uma ficção tende a se comover com ela e comoção, no sentido puro do termo, ou seja, mover-se junto é exatamente o que precisamos. As histórias também mexem com um mecanismo empático, ou seja, ao ver personagens representados em situações de catástrofe ambiental, entendemos como elas podem também nos afetar. A literatura pode ser, portanto, um antídoto à estagnação que sentimos frente às notícias do colapso climático em curso.
Além disso, a ficção permite mobilizar pessoas que talvez não estivessem interessadas no assunto. Foi Acabar, por exemplo, é uma história de amor. Cyber, uma aventura. Podem ser lidas apenas como tal, mas a crise do clima representa quase uma pulguinha atrás da orelha, que pretende se instalar nas pessoas que buscaram os livros por outras razões.
Em Foi acabar bem na nossa vez, o conflito central opõe uma agrofloresta comunitária a um projeto de compensação de carbono baseado em monocultura de eucaliptos. Até que ponto a ficção permite expor as contradições do chamado “capitalismo verde” e das soluções de mercado para a crise climática?
Para mim, as ficções longas, neste caso, um romance, são a principal maneira de se opor a verdades simplistas. A narrativa do “capitalismo verde” é muito sedutora pois ela tenta nos convencer de que não será preciso nenhuma mudança sistêmica para escapar da crise climática, é o famoso “mudar um pouco para não mudar nada”. Além disso, ela é veiculada por instituições e pessoas que se vendem como razoáveis e colocam o discurso ecológico anti-capitalista como “radical demais”. Porém, a única radicalidade nele é defender a continuidade da vida na Terra. A lógica é simples: não há espaço para um sistema de crescimento infinito (como o capitalista) em um planeta finito. Bem, o fato é que este discurso, embora tão pragmático, é minoritário e marginalizado. É aí que a ficção entra: pode pegar na mão das pessoas leitoras com calma e mostrar as consequências dos dois lados na vida das personagens e deixar que tomem suas próprias conclusões.
Seu romance sugere que muitas das propostas contemporâneas de “transição ecológica” reproduzem estruturas históricas de poder sobre o território. Como você enxerga a continuidade entre a lógica colonial de exploração da terra e certos projetos ambientais hoje vendidos como sustentáveis?
Quem tem poder sobre a terra decide também o futuro. Essa verdade parece quase evidente quando observamos debates atuais, como o das chamadas “terras raras” ou a possível instalação da mineradora Belo Sun no Pará.
As terras raras, conjunto de minerais estratégicos para a geopolítica global, e sua possível exploração por empresas estrangeiras, assim como a influência que esses recursos passam a exercer nas relações de poder e até nas eleições de um país, revelam algo importante. Da mesma forma, a Belo Sun surge como uma reprise de mau gosto de uma tragédia socioambiental já conhecida. Em ambos os casos, fica claro que não são as pessoas que nasceram, cultivam, trabalham e vivem nesses territórios que decidem seu futuro. Na verdade, nunca foram.
Enquanto o poder sobre a terra não mudar de mãos, e as mesmas oligarquias continuarem definindo projetos apresentados como compensação ambiental ou enquadrados no chamado capitalismo verde, seguirá prevalecendo o mesmo projeto de futuro: um projeto baseado na monocultura, na expansão dos pastos e na devastação humana e ambiental.
Por isso, iniciativas como a Reforma Agrária não dizem respeito apenas aos pequenos produtores. Elas são uma questão de sobrevivência coletiva e, em última instância, da própria espécie.
A água aparece em sua obra como narradora, memória e testemunha. Em um país atravessado por conflitos hídricos, barragens e privatização de recursos naturais, qual é o papel político de recolocar a água como sujeito narrativo e não apenas como recurso?
A água, assim como a Terra, uma ave, uma semente e até o Sol, são sujeitos em Foi Acabar Bem na Nossa Vez. Essa foi uma decisão presente desde a concepção do livro, porque era muito importante para mim que tudo aquilo que costumamos tratar como cenário tivesse voz.
Isso acontece por duas razões. A primeira é que, quando atribuímos subjetividade àquilo que chamamos de “natureza”, ela deixa de ser entendida apenas como recurso. A água deixa de ser algo a ser explorado, a floresta deixa de ser apenas matéria-prima e a Terra deixa de ser um suporte passivo para a ação humana.
A segunda razão é que eu não acredito na excepcionalidade humana. Somos natureza tanto quanto os outros animais, as plantas, os fungos ou os rios. Inclusive, muitas vezes questiono a própria palavra “natureza” e o efeito de expressões como “proteger a natureza”, porque elas sugerem uma separação entre nós e o restante do mundo vivo.
Existe uma máxima em alguns movimentos ecológicos que diz: “Nós não protegemos a natureza, nós somos a natureza que se protege”, com a qual eu encerro meu livro. Acho que era justamente essa membrana que eu queria tornar mais permeável. Ao dar voz à água e a outros seres, eu tentava desfazer a fronteira imaginária que nos coloca fora daquilo de que sempre fizemos parte.
O conceito de solastalgia, cunhado por Glenn Albrecht, atravessa o romance ao tratar da dor de ver o território amado se transformar ou desaparecer. Você acredita que a literatura pode ajudar a nomear e politizar afetos ligados à crise climática, como luto ambiental e ecoansiedade?
É fundamental que aprendamos a nomear a crise climática e todos os seus efeitos, inclusive os emocionais. Dar nome às coisas pode ser também um ato de cuidado. Quando compreendemos que a crise climática produz impactos concretos na nossa vida material e psíquica, podemos lidar melhor com eles.

Mas é preciso ter cuidado. Ao nomear conceitos como ecoansiedade, corremos o risco de tratá-los como uma exceção ou de patologizar aquilo que talvez seja apenas uma reação lúcida ao mundo em que vivemos. Afinal, quem não se sente ansioso diante da perspectiva de colapso ambiental que enfrentamos?
O filósofo Antônio Bispo dizia que quem detém os nomes detém o poder. Por isso, além de criar palavras para os efeitos da crise climática, precisamos também nomear suas causas. Precisamos encontrar formas de dar nome aos responsáveis que seguem sendo celebrados pela sociedade, às situações absurdas que agravam a crise e às falsas soluções que se vendem como milagrosas.
Nesse sentido, a literatura tem um papel importante. Ela não apenas nos ajuda a reconhecer e compartilhar afetos como o luto ambiental, a ecoansiedade e a solastalgia, mas também pode deslocar nosso olhar do sofrimento individual para as estruturas políticas, econômicas e sociais que o produzem.
Em Cyber PANC e Só Zé, a solução para a crise não vem de uma tecnologia salvadora, mas de práticas coletivas de cultivo, cuidado e organização comunitária. Essa escolha dialoga com uma crítica ao imaginário tecnossolucionista dominante?
O tecnossolucionismo é, a meu ver, um dos braços do capitalismo verde, mais uma daquelas soluções que se vendem como milagrosas mas na prática mudam muito pouco. O problema é que elas têm um poder alienador enorme e, ao nos apoiar em tecnologias inférteis, a gente corre o risco de se deslocar de soluções que há anos permitiram que territórios e comunidades sobrevivessem, como a entreajuda, a coletividade, a escuta, a solidariedade, a partilha, a gambiarra. Em uma conversa com Bel Mayer para o canal da Companhia Educação, ela trouxe, em oposição ao conceito de Inteligência Artificial, o de Inteligência Ancestral. Para mim, é esta que vai nos ajudar a encontrar soluções. Até porque, quando não houver mais energia ou água para refrescar os servidores, é na criatividade humana que teremos que confiar.
Seu trabalho mobiliza referências como Ailton Krenak e Antônio Bispo, pensadores que questionam profundamente a separação entre humanidade e natureza. Como essas cosmologias e epistemologias influenciaram a construção estética e política da sua ficção?
Pensadores como Ailton Krenak, Antônio Bispo e Davi Kopenawa influenciaram radicalmente a minha obra. Ela simplesmente não existiria sem eles. Seus trabalhos me permitiram perceber, por exemplo, que aquilo que costumamos chamar de “humanidade” é, muitas vezes, um grupo bastante seleto e elitizado de pessoas; o quanto desaprendemos a ouvir os sonhos; e a importância de exaltar e escutar a geração dos avós.
Listar todas as ideias deles que atravessam meus livros seria praticamente recontar a minha própria obra. Mas, ultimamente, tenho evitado dizer que ela é inspirada por “cosmologias indígenas” ou “cosmologias quilombolas”. Ela é profundamente influenciada por esses três pensadores, mas tenho receio de transformá-los em representantes de culturas imensas, diversas e irredutíveis.
Eu não conheço nem uma fração mínima da diversidade dos povos indígenas, e tenho certeza de que apenas uma parcela muito pequena dos saberes quilombolas foi publicada ou chegou aos espaços de maior circulação. Por isso, me parece fundamental que cada vez mais autores indígenas e quilombolas tenham acesso às grandes editoras, à mídia e aos espaços de formação de opinião.
Mais do que falar sobre essas cosmologias, precisamos ampliar as condições para que elas falem por si mesmas. Só assim nosso pensamento poderá ser cada vez mais permeado por perspectivas que não apenas questionam o mundo em que vivemos, mas também oferecem caminhos concretos de sobrevivência e futuro.
Em um momento em que o Brasil volta ao centro do debate climático global, mas ainda convive com desastres ambientais recorrentes, qual você acredita ser o papel da ficção climática produzida no Sul global?
Neste último mês eu li um romance mapuche que me perturbou profundamente: Chilco. Enquanto eu o lia pensava que nunca tinha experimentado nada igual. Acho que nossa literatura tem esse poder, de apresentar perspectivas radicalmente diferentes originais por falar de lugares que são historicamente marginalizados. E o mundo contemporâneo precisa dessas perspectivas. Nós precisamos de novas ideias que nos permitam criar modos de vida concorrentes à hegemonia que nos trouxe ao colapso.
Enquanto adultos lidam com a ecoansiedade, crianças e jovens já crescem em um mundo marcado pela emergência climática. Que tipo de imaginação política você quis oferecer aos leitores mais jovens em Cyber PANC e Só Zé?
Cyber PANC e Só Zé se passa por volta dos anos 2070. Nesse mundo, a emergência climática já não é uma ameaça distante, mas uma realidade com a qual as pessoas aprenderam a conviver. Trata-se também de uma sociedade em que a organização econômica e política que conhecemos hoje foi superada e substituída por outras formas de vida coletiva.
As comunidades que habitam essa realidade são autônomas, mas profundamente conectadas por redes de solidariedade. É um horizonte que gosto de chamar de “esperançado”, no sentido freireano da palavra. Não se trata de uma esperança passiva, de quem aguarda que as coisas melhorem por conta própria. Pelo contrário: são grupos que colocam suas esperanças em prática.
Cyber e Só Zé vão atravessando a cidade e esses grupos. A comunidade da Minhoquinha vive de forma coletiva; as Yata’is construíram uma relação de simbiose com as abelhas nativas; os Punkachi inventam as regras da própria anarquia; e o Povo da Laje desenvolve tecnologias voltadas para a regeneração dos territórios. Cada um desses grupos tenta responder, à sua maneira, aos desafios herdados do passado.
Eu queria escrever uma história capaz de ampliar o imaginário dos jovens. Uma história que mostrasse que o futuro não está pronto nem é inevitável, mas pode ser inventado. Espero que os leitores encontrem nessas páginas não apenas um mundo possível, mas inspiração para imaginar e construir suas próprias ideias de futuro.
Em suas obras, a imaginação aparece como ferramenta para pensar futuros possíveis quando o presente parece bloqueado. Você diria que imaginar outros modos de habitar o mundo é também uma forma de ação política?
Sim! Acredito que imaginar outros modos de habitar o mundo tem uma força dupla. Por um lado, você pode publicar essas ideias ou simplesmente compartilhá-las com as pessoas à sua volta, inspirando outras pessoas a inventarem seus próprios futuros. É uma forma de cultivar um imaginário que escape das distopias e abra espaço para um porvir possível, não apenas para a nossa espécie, mas para muitas outras.
Por outro lado, imaginar uma utopia também faz com que você queira vivê-la no presente. Eu, pelo menos, vejo assim. Quando começamos a imaginar seriamente o mundo que desejamos habitar, percebemos que existem inúmeras ações individuais e coletivas que já podem ser colocadas em prática agora, para não só imaginar o mundo que você quer habitar, mas também habitar o mundo que você imagina.
Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

