ENTREVISTA

“Palco dos que Sofrem” imagina uma sociedade liderada por mulheres e convida leitores a refletirem sobre poder, ancestralidade e acolhimento

Em romance contemplado pelo ProAC/SP, Letícia Ávila transforma vivências de maternidade e trauma em uma narrativa sobre protagonismo e a força coletiva feminina

O que acontece quando mulheres decidem reescrever as histórias que lhes foram impostas? Essa é uma das perguntas que atravessam Palco dos que Sofrem, romance de estreia da escritora e jornalista Letícia Ávila. Contemplada pelo ProAC/SP, a obra acompanha a jornada de Maria Beatrice em busca das verdades escondidas em sua história familiar e apresenta aos leitores Conceição, uma cidade imaginária construída sobre os pilares do cuidado, da escuta e da força coletiva feminina.

Mais do que um romance sobre dores herdadas, o livro propõe uma reflexão sobre a possibilidade de transformação. Ao explorar temas como maternidade, ancestralidade, trauma e cura, Letícia constrói uma narrativa que transita entre a realidade e a imaginação política. Em Conceição, a autora investiga como seria uma sociedade estruturada a partir do feminino, sem ignorar as contradições e desafios inerentes ao exercício do poder. O resultado é uma obra que questiona o patriarcado e valoriza o acolhimento coletivo.

Jornalista formada pela FIAM-FAAM FMU, Letícia Ávila atua há mais de uma década no universo do cinema e do entretenimento. Nascida em Aracaju, criada em São Paulo e atualmente moradora de Ilhabela, ela tem no feminismo uma das principais bases de sua trajetória pessoal e criativa. Após concluir o Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE), da Casa das Rosas, estreou na literatura com um romance que também marca um momento de transformação em sua vida. Escrito durante o primeiro ano da maternidade, Palco dos que Sofrem surgiu em paralelo ao nascimento de sua filha, Arabella, tornando-se, nas palavras da autora, uma experiência de renascimento e cura.

Na entrevista a seguir, Letícia Ávila fala sobre o processo de criação do romance, a influência da maternidade em sua escrita e a importância da força feminina para a construção da obra.

Crédito: Divulgação

Em Palco dos que Sofrem, você propõe discutir temas como ustopia, poder feminino, ancestralidade e cura. Que história é essa que você queria contar e quais discussões estão no centro da obra?

É um livro sobre o direito ao acolhimento. É sobre transformar o “palco” onde antes só se sofria em um espaço de protagonismo e cura coletiva.

Este pode ser o coração da obra. A conexão profunda entre mulheres através de dores e vivências compartilhadas em uma sociedade patriarcal. O tema central não é a dor pela dor, mas como o fardo se torna mais leve quando compartilhado em uma rede de apoio.
A narrativa trata a palavra (e a própria jornada das personagens) como um processo terapêutico. O tema central aqui é a reconstrução da identidade: como Maria Beatrice e as outras personagens deixam de ser “vítimas” de narrativas impostas por homens (como o pai de Maria) para se tornarem autoras de suas próprias histórias.

O livro propõe um exercício de imaginação política: Conceição. O tema aqui é a exploração de uma estrutura social onde o feminino é o alicerce. É um estudo sobre o poder e a autonomia.
A relação entre mães e filhas está em toda a trama, desde a busca de Maria Beatrice pela verdade sobre Nianca, a relação de Rosa Santana com as filhas, Ana com sua mãe e a gestação de Labela. O tema central é o rompimento de ciclos: investigar o passado para não repetir as mesmas dores no futuro, buscando uma linhagem baseada na verdade e no afeto, e não no silenciamento.
A maternidade e o feminismo atravessam tanto sua vida quanto sua escrita. Como essas experiências moldaram os temas que você escolheu abordar no romance?

Minha trajetória é conduzida pelo feminismo desde os 17 anos, um despertar que moldou meu crescimento e se tornou a lente definitiva pela qual enxergo o mundo. Hoje, a maternidade aprofundou essa percepção, trazendo uma urgência visceral à minha escrita; ser mãe da Arabella me fez olhar para o passado e para o futuro com novos olhos, transformando o ato de escrever em um compromisso de romper silêncios geracionais. Esses temas fazem parte de quem eu sou como pessoa, profissional e mãe, não tinha como fugir.

Você começou a escrever este livro quando sua filha tinha apenas dois meses. Como nasceu Palco dos que Sofrem e o que significou construir um romance durante o primeiro ano da maternidade?

Inscrevi-me no edital do ProAC quando minha filha tinha apenas dois meses de vida. Enviei o primeiro capítulo com uma vontade imensa de dar voz a essa história. Ser contemplada foi um choque de realidade e alegria que me impulsionou a uma jornada intensa: escrever um romance inteiro no primeiro ano da maternidade. Embora a escrita física tenha levado um ano, este livro já pulsava em mim há muito tempo, entre recortes de cadernos e rascunhos mentais. Foi um processo desafiador, marcado pelo medo de não concluir, mas venci as incertezas com metas rigorosas e uma disciplina inabalável. Compartilhar os bastidores dessa vulnerabilidade na minha página de escrita foi o que me manteve próxima de quem, como eu, acredita na força da palavra.

Ao longo da narrativa, você fala de trauma, acolhimento e transformação. O que espera que os leitores levem consigo após terminar a leitura?

O livro demonstra que, mesmo em estruturas de opressão, o sofrimento é passível de transmutação. Em vez de exaltar a dor, o foco recai sobre a ressignificação e a cura como um projeto coletivo. Aqui, a liberdade não é um ato isolado; é na rede de apoio e na união que o trauma ganha voz. A abordagem sobre maternidade e ancestralidade reforça a urgência de romper ciclos de violência, mostrando que entender o passado é o caminho para não repeti-lo. Ao apresentar a ustopia de Conceição, a obra não entrega respostas prontas, mas funciona como um convite ao pensamento crítico: como seria o poder sob uma ótica feminina? É uma provocação necessária sobre o mundo que precisamos sonhar para, enfim, edificar.
Qual o significado deste livro na sua trajetória?

Este livro representa o meu renascimento. Eu o chamo carinhosamente de meu “segundo filho”. Estou, finalmente, o parindo para o mundo, em um processo que, guardadas as proporções, demandou um vigor e vulnerabilidade que nós, mães, conhecemos tão bem. Escrevê-lo enquanto atravessava os primeiros meses da maternidade foi quase terapêutico. Por exemplo, escrever o parto de Labela foi como curar o trauma do meu parto. Ele me transformou porque me obrigou a olhar para as minhas próprias sombras e para as mulheres que vieram antes de mim com uma coragem que eu ainda não conhecia. A escrita me curou ao me dar o poder de decidir quais heranças emocionais eu queria passar para a minha filha e qual mundo eu gostaria de sonhar para ela.

Antes deste romance, você participou da escrita da obra Itinerários para o Caos. O que essa experiência coletiva ensinou que foi fundamental para a construção de Palco dos que Sofrem?

A escrita coletiva de Itinerários para o Caos foi um marco fundamental na minha trajetória. Foi ali, ao dar vida à personagem Aurora, que compreendi que narrar a subjetividade feminina e nossas vivências é onde reside a minha maior força criativa. Essa experiência não apenas me ensinou sobre a potência da construção compartilhada, mas selou meu compromisso com a literatura que nasce do corpo e da voz das mulheres.

O livro apresenta uma sociedade chamada Conceição. O que a criação dessa ustopia permitiu investigar sobre poder, gênero e organização social?

Escolhi o romance e a ustopia porque o feminismo me ensinou que, antes de transformar a realidade, precisamos ser capazes de imaginá-la. A ficção me permite criar “Conceição”, um espaço onde posso testar novas estruturas de poder e investigar como seriam as relações humanas se fossem fundamentadas no cuidado e na apoio. Escrevo sob essa perspectiva desde os meus 17 anos, quando o feminismo se tornou meu alicerce. No meu TCC da faculdade escrevi um livro Encantos da Alma Feminina, onde narrei as histórias de cinco mulheres mais velhas reais. Além do livro, escrevi um relatório sobre a importância do feminismo. Hoje, consegui transformar meus aprendizados em gênero narrativo, com a intenção de levar os ensinamentos do feminismo para mais pessoas e, quem sabe, construir uma nova sociedade.

Entre escritoras, pensadoras e artistas, quem ajudou a construir sua voz literária?

Conceição Evaristo, Aline Bei, Carla Madeira, Maria Ribeiro, bell hooks, Anne Frank, Lélia Gonzalez, Maya Angelou. As escritoras, em especial as vozes brasileiras, exercem sobre mim um fascínio profundo; elas me provam que a escrita feminina é, em sua essência, um ato revolucionário e potente. Todas elas nutrem o meu processo criativo, pois há uma força transformadora em ver mulheres finalmente ocupando o centro da cena literária e alcançando o público que sempre mereceram.

Sua escrita combina lirismo, reflexão e intensidade emocional. Como você define sua voz como autora e quais escolhas estruturais fez para contar essa história?

Defino meu estilo como humanizado e reflexivo, onde a técnica narrativa se encontra com a sensibilidade da escrita de cura. É um estilo que busca dar carne às emoções, sem medo da vulnerabilidade. Quanto à estrutura, adotei uma narrativa que flui entre a realidade e a imaginação radical da ustopia. O livro é construído em atos que respeitam o tempo do amadurecimento da personagem, permitindo que o leitor acompanhe não apenas uma história, mas a evolução de uma consciência. É uma estrutura em primeira pessoa, em diversas vozes, que privilegia o ritmo, herança do meu olhar atento às cenas e imagens, mas que se ancora na densidade das vozes femininas.

Sua relação com a escrita passou por um longo período de silêncio. O que aconteceu entre o sonho adolescente de publicar um livro e a publicação de um romance contemplado pelo ProAC?

Aos 13 anos li o Diário de Anne Frank e me inspirei muito no sonho dela. Desde então, decidi que seria jornalista e escreveria um livro. No entanto, vivi um trauma precoce: durante um estágio, fui demitida sob a justificativa de que “não sabia escrever”. Essa frase teve um peso devastador, paralisando minha produção literária por anos e me empurrando para uma carreira no Marketing. Finalizei a faculdade de Jornalismo, mas mantive o sonho do livro guardado na gaveta por medo daquela crítica. O cenário mudou durante a pandemia, quando fiz um curso com a escritora Aline Bei. O encontro com ela foi o divisor de águas que eu precisava; Aline validou minha voz e me incentivou a retomar meu lugar na literatura. Hoje, aquele silêncio de anos se transformou em um romance premiado pelo ProAC.

Além do lançamento do livro, você vem desenvolvendo oficinas e rodas de conversa. O que pretende construir a partir de Palco dos que Sofrem?

Quero fazer workshops, oficinas e acompanhar a trajetória de Palco dos que Sofrem. Quem sabe partir para uma parte 2 ou livros focando em personagens específicos do livro.
O primeiro workshop será em 30/06 em Ilhabela: em uma roda de conversa, vamos mergulhar na literatura feminina e feminista, discutindo perspectivas de futuro e o papel social da escrita. O coração do nosso encontro será uma oficina voltada à cura de traumas através das palavras. Cada participante receberá um kit com caderno e caneta para que, juntos, possamos transformar dores e desejos em texto, fortalecendo nossa conexão com a própria voz. Ao final, teremos um momento para autógrafos e venda de exemplares do livro Palco dos que Sofrem.

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

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