Feminismo e subversão na obra ‘Para levitar acima das fogueiras’, de Lindevania Martins
O livro contém 31 poemas que versam sobre um eu-lírico feminino subversivo, que clama por liberdade
Lindevania Martins é uma escritora, prosadora e poeta maranhense, que possui uma carreira literária consolidada, sendo ganhadora de diversos prêmios, dentre eles o 6º Prêmio CEPE Nacional de Literatura. Autora de Anônimos (2003), Zona de Desconforto (2018), Longe de Mim (2019), Fora dos Trilhos (2019), A Moça da Limpeza (2021) e Teresa Decide Falar (2022), é ex-delegada de Polícia e, atualmente, Defensora Pública funcionando junto a tribunais em grau de recurso, tendo atuado quase dez anos exclusivamente na Defesa da Mulher e da População LGBTQIA+.
Para levitar acima das fogueiras (2026) é o mais recente livro da autora, que foi publicado pela Avant Garde Edições, em Teresina (PI), e é dedicado a “todos aqueles e aquelas que mesmo no fogo descobrem alento”. A obra contém 31 poemas que versam sobre um eu-lírico feminino subversivo, que clama por liberdade, tal como é possível notar logo na epígrafe do livro: “A mente, essa ninguém pode escravizar” (Maria Firmina dos Reis). No primeiro poema, que dá nome à obra, temos uma mulher que diz que “já não é assombrada por fantasmas” (Martins, 2026, p. 15).
O eu-lírico vive uma nova etapa de sua vida, e “nessa nova tela, novo mar” (Martins, 2026, p. 16) ela quer transmitir uma mensagem que encontrará quem precisar escutá-la. Assim como o mar, a memória do eu-lírico (que é coletiva e representa todas as mulheres) vai e vem como as ondas e resgata uma lembrança dolorosa: o dia em que seu irmão (que é uma representação do patriarcado) desenhou no chão “uma linha de demarcação: / Daqui uma mulher não pode passar” (Martins, 2026, p. 18). Porém, esse foi o primeiro momento em que ela o confrontou e “depois de ultrapassada a linha” não há volta.
Cansada de ser uma marionete, alienada e controlada pelos desejos e expectativas dos outros, essa mulher que não é “nem megera”, “nem bruxa” “nem encarnação de Lilith”, descobriu que toda mulher é “o começo do mundo” (Martins, 2026, p. 21). Outra onda traz uma nova memória, mais ancestral, e o eu-lírico feminino lembra de sua avó (que é representação das mulheres do tempo passado) e entende que “cada uma luta com armas que conhece / suas janelas não se abriram / para outras possibilidades […] não mostraram / que era possível um futuro diferente […] é pelo mundo que ela não viu / é pelo tanto que ela não se amou / que choro” (p. 22 e 23).
Para levitar acima das fogueiras aborda temas que precisam ser debatidos e combatidos, como: a violência contra a mulher, o estupro, o machismo e o feminicídio. É preciso estar atento(a) para não repetir comportamentos e ideologias cegamente: “sem referência / estamos sempre replicando / e o motivo porque precisamos replicar se apagou / replicamos porque é isso que fazemos há mais de cem anos” (Martins, 2026, p. 28) e, assim, o mundo continua sendo um lugar amargo para as mulheres, que aprendem a ter somente “sonhos domesticados” (p. 29). Ao transitar por essas temáticas, o eu-lírico diz que não podem reclamar “quando seus pés / acionarem as bombas / de um solo incômodo / esburacado e minado” (p. 30).

O “fosso da memória é profundo […] as gavetas da história oficial / acumulam arquivos corrompidos / na disputa sobre qual voz / será a mais aguda / para contar nossa história / só quem não olhar para trás / se tornará / estátua de sal” (Martins, 2026, p. 31). Por isso, é necessário revisitar o passado para compreender o presente e construir um novo futuro. As chamas fazem parte de toda a obra em fogueiras físicas e metafísicas, uma delas foi acesa por um homem chamado Amaro que queimou a casa que tinha com o eu-lírico (que, como vimos, é uma representação do feminino): “nossa casa agora / é só fuligem / e cheiro de fumaça / e o que mais queimou / foi o amor” (p. 35).
No entanto, vivemos em um mundo em que até a nossa piedade é arranjada, onde a empatia é sempre relativa e midiática: “Ivan não lamenta por mim / porque sou de carne e osso / e não estou nos livros / e em nenhum jornal / enxerga meu rosto” (Martins, 2026, p. 42). Diante disso, o eu-lírico apresenta a sua mensagem através de “poemas sujos com digitais feministas” que “não aceitam / outra pedra disfarçada de afago / rompem / o contrato de aprendizagem / para a poeta nunca mais ser boneca / em linha de montagem” (p. 43).
Para tanto, essa mulher “acendeu fogueira primitiva / ecoou grito de guerra […] para nunca mais ser cativa” (p. 45). A fim de “garantir o direito de prece”, já tentaram transformar muitas mulheres em santas, que não deveriam “mostrar seu sexo”, “sua fome” ou “sua ira” e “para garantir / sua imagem no altar / e para garantir / a quem rezar no final da tarde / abreviaram seus dias”, pois “antes espírito que carne / antes sonho que realidade / antes morta que viva / assim a santidade / melhor / se materializa” (Martins, 2026, p. 46-49).
Indignada pela perda de muitas de suas irmãs e em busca de uma realidade mais justa e digna, a voz feminina da obra grita aos quatro ventos: “segui a construção de mim mesma / apesar do medo / desatei as cordas / que prendiam meus braços e pernas […] liberdade / é a única condenação / que aceito” (Martins, 2026, p. 48). Assim, sua mensagem foi entregue a todas(os) nós. Portanto, Para levitar acima das fogueiras, de Lindevania Martins, é uma leitura essencial e urgente, pois nem “com grilhões, nem com fogueiras, nem com mentiras […] nada pode controlar uma mente livre.” (Veloso, 2023, p. 48).
Gabriela Lages Veloso é professora, escritora, poeta, antologista e crítica literária. Graduada em Letras – Língua Portuguesa e suas respectivas literaturas, pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Mestra em Letras, na linha de Estudos Teóricos e Críticos em Literatura, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Autora dos livros Através dos Espelhos de Guimarães Rosa e Jostein Gaarder: reflexos e figurações (Editora Diálogos, ensaio, 2021), em coautoria com a Profa. Dra. Jeanne Sousa da Silva, e O Mar de Vidro (Caravana, 2023), que ganhou o segundo lugar no Prêmio Melhor Livro de Poesia 2024, promovido pela Academia Maranhense de Letras (AML).
Referências
MARTINS, Lindevania. Para levitar acima das fogueiras. 1. ed. Teresina: Avant Garde Edições, 2026.
VELOSO, Gabriela Lages. O Mar de Vidro. 1. ed. Belo Horizonte: Caravana, 2023.
Para levitar acima das fogueiras pode ser adquirido diretamente com a autora através do Instagram: @lindamartins

