RESENHA

‘Nada Exemplar’: Angella Saturnino converte dor em resistência literária

A obra retrata, por meio de poemas e crônicas, as dores vivenciadas por um eu lírico – e também narrador – rejeitado pela sociedade, ferido e desumanizado em razão de sua travestilidade

É comum dizer que a literatura é uma representação da realidade. Por meio dela, podemos conhecer a sociedade brasileira de um século que ninguém hoje viveu ao ler Machado de Assis, por exemplo. Da mesma forma, podemos viajar para a Rússia e conhecer um pouco de sua história, de seu povo e de suas questões históricas e sociais, antigas e contemporâneas, por meio da leitura de Dostoiévski.

Ao ler Tolstói, igualmente, é possível vislumbrar a guerra e seus efeitos sem ir, de fato, ao campo de batalha. Voltando ao Brasil, podemos nos reconhecer nas páginas de Graciliano Ramos, que retratam pessoas semelhantes a nós e aos nossos avós. Não há exagero em afirmar que, por meio da literatura, conhecemos o mundo, a história, terras estrangeiras, nossa própria realidade, nosso povo e outros povos, além de lugares que existem apenas na imaginação. Sem mencionar as viagens psicológicas pelas profundezas da mente humana, como as que encontramos nas páginas de Clarice Lispector, para citar mais um exemplo.

A literatura é o espaço do possível e do impossível, onde convivem tanto o que é exemplar quanto aquilo que jamais deve ser tomado como modelo. Além disso, essa arte exerce um importante papel formador. Ler é um ato educativo. Para além do desenvolvimento da leitura, da ampliação do vocabulário e do aprimoramento do raciocínio, a literatura desperta a sensibilidade humana. Ao nos depararmos com as alegrias, as contradições e os sofrimentos da condição humana, é difícil permanecer indiferente. Dessa experiência nasce a catarse e, com ela, o fortalecimento da sensibilidade e da capacidade de humanização dos indivíduos.

Foto: Divulgação

É nesse contexto que Nada Exemplar surge no cenário literário piauiense e brasileiro. A obra retrata, por meio de poemas e crônicas, as dores vivenciadas por um eu lírico – e também narrador – rejeitado pela sociedade, ferido e desumanizado em razão de sua travestilidade. Ao fazê-lo, reafirma que suas dores são tão legítimas quanto quaisquer outras. As temáticas que atravessam a obra incluem o sofrimento amoroso, as perdas, a memória da infância, os traumas e a dificuldade de sentir-se pertencente ao mundo.

Ao longo da obra, a dor emerge não apenas como mero sentimento para ser um elemento estruturante da escrita. Cada texto reorganiza essas experiências não tão palatáveis em imagens simbólicas, que renovam o sentido de um sofrimento que parte de um mesmo lugar: a solidão. Outro aspecto que marca a obra é a alternância entre poemas mais sintéticos e prosas poéticas mais densas, o que confere ritmo à leitura e impede que o leitor seja tomado pela monotonia.

A linguagem é uma ferramenta primordial para Angella Saturnino, a sua simplicidade lexical se firma pela sua força imagética. Não há preocupação com floreios, muito pelo contrário, a autora privilegia versos diretos, fragmentados e carregados de muito simbolismo. A sua economia verbal se amplia a veracidade sentimental, a sua escrita se aproxima de um fluxo contínuo de pensamentos. A autora do livro sugere uma síntese necessária para o entendimento dessa obra, quando diz que “essa obra é um conjunto de palavras cruas, violentas e, sobretudo, verdadeiras”.

A temática da dor predomina, mas não resume a obra. Em diversos momentos, aparecem movimentos de resistência e reconstrução, que é a mensagem mais potente da autora. A escrita que expõe a possibilidade, ainda que remota, de conquistar espaços sendo quem se é. O livro demonstra que reconhecer sua fragilidade não é o mesmo que sucumbir a ela. Ao expor suas feridas, Angella potencializa a estética da sua obra.

Merece destaque a forma como a água surge na obra como um elemento polissêmico, assumindo diferentes significados: lágrimas, rios, mar, chuva e cachoeiras. Assim, a água pode representar tanto o esgotamento emocional quanto um fenômeno da natureza transposto para linhas e versos.

Do mesmo modo, a natureza, representada por animais, florestas e outros elementos naturais, aproxima as vozes poéticas de uma dimensão quase mítica. Ela é a única testemunha, capaz de acolher uma voz que grita nos ecos do silêncio e expõe as agruras de sua condição humana.

A obra pode ser compreendida como uma busca pela humanidade que lhe foi roubada a duras penas. Isso, por si só, revela uma forma extrema de impotência. Entretanto, considerando que a literatura piauiense ainda ocupa um lugar modesto no cenário nacional e que pessoas trans continuam a sofrer diversas formas de violência em todo o Brasil, uma obra que encerra em suas páginas a perspectiva de quem não encontra voz na sociedade – retomando aqui a dimensão catártica da literatura – cumpre uma missão de grande relevância: contribuir para a formação de uma sociedade mais sensível e consciente de sua capacidade de reconhecer e humanizar o outro.

Nada Exemplar rompe com a necessidade de suprir expectativas, pois a palavra está como um ato de resistência. O livro constitui um percurso de autoconhecimento, memória e reinvenção, convidando o leitor a encontrar, nas experiências particulares da autora, sentimentos universais. Sua qualidade estética e literária reside nessa capacidade de transpor a vulnerabilidade em arte. Demonstrando que, quando tudo parece ser reduzido ao “nada”, a palavra continua sendo um gesto que permite “sonhar como infinitivo infinito”.

 

Diogo Marques é estudante de letras-português na Universidade Federal do Piauí (UFPI).

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