Autora paraense lança segundo livro sobre escolhas da carreira e mercado de trabalho em escritos poéticos
Dividido em três partes – Martelo, Bigorna e Estribo –, Oitavos Pares percorre as páginas à maneira de uma observadora silenciosa, que busca compreender o cotidiano hospitalar e o universo de seus consultórios, sem deixar de lançar o olhar sobre os demais trabalhadores que compartilham esses espaços
Amaurose é o termo médico para perda de visão; assim começa uma observação da autora ao tornar explícito o seu envolvimento com sua área profissional em Oitavos Pares, seu mais novo livro de poemas publicado pela Editora Patuá (2026).
Dividido em três partes (Martelo, Bigorna e Estribo), Giovana percorre as páginas à semelhança de uma observadora em silêncio, tentando compreender o cotidiano hospitalar e de suas consultas particulares, para não dizer de outros possíveis trabalhadores ao seu redor. O eu lírico supõe uma instância autoral, ou seja, é uma parte da autora, detectável a priori: a sintaxe, semântica, a relação entre significado e significante, vide o uso de notas de rodapé para explicar termos técnicos da Medicina, com atributos por vezes jocosos, brincando com a metalinguagem. “A memória amaurótica ocorre quando se passa tempo suficiente para o esquecimento apreender a penumbrá-la”.
“Também é luto quando você se despede/de um anseio desencarnado, /mas lhe é vedado / o direito estético ao pranto”
Em diálogo com o poema “Desajuizado” acima colocado, as duas primeiras partes constituem um processo relativamente curioso da perspectiva do leitor, mas também por sua criadora. Se a memória é o fio condutor dentro da temática do mundo do trabalho – em particular na atuação do médico –, há quebras de cronologia dentro do que o livro supostamente coloca em xeque, ou seja, evidenciar o trajeto íntimo do indivíduo em seu dia a dia, para depois ter um longo questionamento sobre a decisão do seu hercúleo ato.

A composição do fluxo de consciência é tratada como se desejasse esmiuçar os fragmentos de uma identidade, resumida, aqui, em angústia, suplício sem compensação. Não há sustento, mas uma tentativa de controle sobre o que não mais lhe satisfaz. De forma simultânea, temos uma visão panorâmica dos eventos experimentados pela voz que escreve; contudo, o psicológico não parece acompanhar. Como se estivesse em suspensão, a matéria ficcional e autobiográfica se transforma em monólogo, quase que teatral, de modo a ser visto e encarar o seu leitor, provocando um diálogo ora cru, ora irônico com os desprazeres internos.
Em um momento, uma conversa consigo, permitindo abertura; de outro, uma mulher posicionada sem que ninguém consiga a escutar de fato.
Se há óbitos, bisturis, receituários e um constrangimento externo, indicando uma única via, a de exercer a atividade médica, Fisher se orienta ao longo do livro com recursos que marcam presença, sendo eles a inversão do espaço temporal, a busca por uma autenticidade através de visualizações dos afazeres repetitivos dos instrumentos de seu labor, as escolhas sensoriais diante dos corpos e a reconstrução de um eu que se coloca em risco.
Como apontam Paulo Benites e Clara Vaz, no que diz respeito aos deslocamentos do sujeito na poesia contemporânea, em artigo publicado em 2025 na revista O Eixo e a Roda, o que percebemos na produção poética atual é a descontinuidade, a “experiência do fora” inscrita nos próprios espaços por onde os escritores circulam. Não se trata de um apagamento do eu, mas, ao contrário, de sua acentuação – um movimento que, a meu ver, pode ser pensado, em termos emprestados da dramaturgia, como um cruzamento entre o monólogo e o solilóquio.
Cabe aos escritores, portanto, a decisão – para não dizer o desafio formal e temático – de empregar esse deslocamento de si com parcimônia. No caso de Giovana Fisher, esse equilíbrio se realiza por meio daquilo que a crítica literária denomina “consciência organizadora”: a seleção dos textos, a condução da emoção e de seu trânsito ao longo das páginas, a inversão da ordem dos acontecimentos a partir de um evento específico rememorado e a forte carga imagética, que, em meu entendimento, constitui o traço mais marcante de Oitavos Pares.
Trata-se de uma bela surpresa que a “poeta médica” oferece aos leitores interessados na confluência entre a lírica e a performance em um único livro.
Lorraine Ramos Assis (1996) é socióloga, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ).

